São Cristóvão e Nevis: uma sentinela na zona de trânsito do tráfico

St. Kitts and Nevis, a Sentinel in the Trafficking Transit Zone

Por Dialogo
fevereiro 10, 2016




São Cristóvão e Nevis é o menor estado soberano nas Américas, tanto em tamanho (261 km²) quanto em população (pouco mais de 55.000 habitantes). As duas ilhas compartilham uma Força de Defesa composta por 300 militares envolvidos principalmente no policiamento e na interceptação do narcotráfico.


Diálogo
aproveitou a XIV Conferência de Segurança das Nações do Caribe em Kingston, Jamaica, na última semana de janeiro, para conversar com o Tenente-Coronel Patrick Wallace, Comandante da Força de Defesa de São Cristóvão e Nevis, sobre as prioridades de segurança do país.

Diálogo:
Quais são as principais preocupações de segurança e as prioridades para São Cristóvão e Nevis neste momento?

Ten Cel Patrick Wallace:
Somos ilhas pequenas no Caribe Oriental e estamos localizados basicamente no meio da cadeia de ilhas do Caribe. Por isso, somos essencialmente uma sentinela na zona de trânsito, de modo que tanto as drogas em direção ao norte como as armas que descem passam por nós. Esse é o nosso principal problema.

Diálogo:
Como as armas ilegais afetam o país?

Ten Cel Patrick Wallace:
Temos um problema com armas ilegais na nossa ilha, e isso está afetando nossos jovens. Se analisarmos as estatísticas, podemos ver que São Cristóvão, por seu tamanho pequeno, tem uma alta taxa de homicídios. Nós não fabricamos armas. Não fabricamos munições, mesmo assim, estamos experimentando um aumento nos crimes com armas de fogo. Isso é um assunto extremamente importante para nós. E agora essa é a prioridade principal da nossa Força de Defesa. Estamos fortemente empenhados em trabalhar com a Polícia para reduzir esses assassinatos e crimes com armas de fogo em nossas ilhas. Devido à falta de capacidade de vigilância na zona marítima, sentimos que muita coisa está acontecendo que não temos condições de enfrentar. Por isso, estamos adotando uma abordagem regional para o problema das armas e crimes, das armas e do narcotráfico no Caribe Oriental.

Diálogo:
Como o senhor afirmou, o país não é tão grande, então qual é a principal dificuldade para controlar o fluxo de drogas e armas que são deixadas para trás pelos narco traficantes?

Ten Cel Patrick Wallace:
Bem, o maior problema são os recursos. Somos uma população muito pequena. Não somos ilhas ricas e, por isso, o governo tem de manter equilíbrio em seus programas. Tem de atender às necessidades sociais da população: educação, assistência médica, manutenção de infraestrutura. Devido a essas outras necessidades sociais, a destinação de recursos para forças de segurança não será prioridade máxima. Então, se olharmos para o fato de que o Mar do Caribe e o Oceano Atlântico são áreas enormes e não temos os recursos para controlá-las adequadamente, nossas zonas marítimas e enormes áreas expostas da zona costeira são ideais para a entrada de armas e também de drogas.

Diálogo:
E a vigilância aérea?

Ten Cel Patrick Wallace:
Basicamente não temos. Temos duas aeronaves que são operadas pelo Sistema Regional de Segurança. Devemos cobrir uma área desde Barbados, no sul, até as minhas ilhas no norte e, a qualquer momento, as duas aeronaves podem não estar em operação. Na realidade, atualmente temos apenas uma aeronave operacional. Uma delas está nos Estados Unidos para manutenção e remodelação. Então, esses são os fatores que afetam a segurança no Caribe Oriental e, em particular, minha ilha.

Diálogo:
Qual é o papel da Força de Defesa no combate ao tráfico? O senhor acredita que esse é um novo papel ao qual a Força de Defesa terá de se adaptar como no caso dos militares em outros países, como a Colômbia e Honduras?

Ten Cel Patrick Wallace:
É basicamente a mesma coisa. Isso significa que, sim, teremos de modificar seu programa de treinamento e o foco de suas tropas para esse tipo de operação. Fazemos isso trabalhando em estreita colaboração com a polícia e basicamente treinamos para nosso envolvimento em aspectos de policiamento, para os jovens soldados estejam melhor preparados para ajudar nesse tipo de operações.

Diálogo:
A Força de Defesa de São Cristóvão e Nevis também participa de ajuda em catástrofes e esforços de ajuda humanitária?

Ten Cel Patrick Wallace:
Ajuda humanitária e socorro em catástrofes é um dos nossos papéis principais, que tornam o que estamos fazendo mais difícil para uma pequena Força de Defesa. A temporada de furacões começa oficialmente em junho, dessa forma, entre janeiro e junho, nosso treinamento também é voltado para a preparação de nossas tropas para qualquer eventualidade que possa ocorrer durante o auge da temporada de furacões. Por isso, não estamos aqui apenas para cuidar das nossas ilhas, mas por causa do Sistema Regional de Segurança (CBSI) temos de ajudar qualquer outra ilha que for atingida por um furacão. Olhe para as pequenas ilhas do Caribe Oriental [e veja que temos] forças muito pequenas, recursos extremamente limitados. Nenhuma ilha pode lidar de forma adequada com esses problemas por conta própria. Assim, o Sistema Regional de Segurança obriga-nos à ajuda mútua e de forma eficaz, para isso temos de treinar a população do país internamente e coletivamente para sermos eficazes.

Diálogo:
O Comando Sul dos EUA tem um novo comandante, o Almirante de Esquadra Kurt Tidd. Que expectativas o senhor tem desta nova liderança?

Ten Cel Patrick Wallace: O
Almirante [John F.] Kelly foi um comandante muito bom para o SOUTHCOM. Todos eles foram, e espero que o Alte Esq Tidd prossiga no estilo do Alte Kelly. Ele se concentrava no aspecto do treinamento de segurança, ajuda em desastres e assistência humanitária porque entendia que o Caribe é uma zona muito peculiar. Somos, como se diz usando o termo americano, um beco do furacão. Os furacões passam pela região o tempo todo. Ele era muito consciente disso, mas nunca perdeu de vista o fato de que há também problemas de segurança. Ele era muito consciente da ameaça que o Estado Islâmico (ISIS) representa para o Caribe, com relação aos membros da população que estão viajando para o Oriente Médio e tornando-se jihadistas, trazendo consigo ideologias que podem potencialmente afetar a segurança na região.

Diálogo:
Isso é mesmo uma preocupação para São Cristóvão e Nevis?

Ten Cel Patrick Wallace:
É uma preocupação, mas não da mesma forma que talvez seja para a Guiana, Trinidad ou Suriname.

Diálogo:
Por quê?

Ten Cel Patrick Wallace:
São Cristóvão não tem população muçulmana, de modo que grupos [radicais] não conseguem entrar, criar raízes e interromper as atividades normais. Não vejo isso acontecendo dessa forma. No entanto, somos muito dependentes do turismo. Muitos turistas são americanos e, por causa de nossos recursos limitados, se alguém quiser atacar a América, pode optar por atacá-la por meio de nosso país. Essa é uma das nossas principais preocupações. E, se isso ocorrer, nossa economia sofrerá porque os americanos não virão, causando uma queda ainda maior na economia. É um efeito dominó.
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