Nas últimas semanas, o Chile infligiu graves danos estruturais à gangue criminosa venezuelana conhecida como Tren de Aragua. Esses sucessos são o resultado da ação decidida das forças de segurança chilenas, bem como da crucial cooperação internacional.
No início de junho, uma decisão qualificada como histórica pelo procurador nacional do Chile, Ángel Valencia, resultou na condenação de 12 membros da cúpula do Tren de Aragua por crimes violentos no Tribunal Oral Penal de Iquique, na região de Tarapacá. Os acusados foram declarados culpados de 39 crimes, entre os quais estão sequestro com homicídio, tráfico de pessoas e tráfico ilícito de migrantes. Esta foi a primeira vez que um tribunal chileno reconheceu formalmente a existência e a atividade criminosa de uma célula do Tren de Aragua em território nacional.
A gangue iniciou suas operações no Chile em 2021, na região de Tarapacá, e rapidamente ampliou seu controle sobre as atividades ilícitas na zona de Colchane, na fronteira com a Bolívia. A Promotoria do Chile identificou Carlos González Vaca, conhecido como Estrella, como líder da organização, enquanto Harol Rangel Villa, conhecido como Harol Petare, e Hernán David Landaeta Garlotti, apelidado de Satanás, foram identificados como os principais assassinos responsáveis por vários crimes.
“Conseguimos que sejam condenados membros importantes do Tren de Aragua responsáveis por crimes gravíssimos, como sequestro com homicídio, tráfico de migrantes, tráfico de pessoas e outros”, declarou o procurador Valencia. “No Chile, as organizações criminosas não têm nem terão espaço.”
Cadeia de sucessos
Este importante sucesso judicial no Chile é a culminação de uma série de operações policiais significativas realizadas durante o último ano contra o grupo criminoso. Esses esforços incluem uma sólida colaboração internacional.
No final de maio, as autoridades do Chile realizaram uma importante operação coordenada contra as redes do Tren de Aragua, denominada Operação Metástase. O Ministério Público e a Polícia de Investigações (PDI) capturaram 29 criminosos nas regiões de La Araucanía, Valparaíso e Metropolitana. Essas detenções foram dirigidas contra membros das facções Los Piratas e Loyalty, envolvidos no tráfico de drogas e na extorsão de trabalhadoras sexuais venezuelanas.
Na Argentina, foram detidos 12 indivíduos, vinculados ao Tren de Aragua. A ministra da Segurança da Argentina, Patricia Bullrich, afirmou através do X que essa célula operava como o braço financeiro do grupo, movimentando milhões através da compra de ouro, propriedades rurais e ativos de alto valor em áreas exclusivas, todos os quais foram identificados para sua apreensão. Isso representou um duro golpe para a estrutura financeira da organização. Segundo Bullrich, esta operação foi o resultado de uma investigação conjunta com o FBI e a Interpol que durou um ano.
“A cooperação multilateral andina em matéria de segurança fronteiriça é fundamental e é uma responsabilidade de várias agências, não apenas da polícia, da imigração e dos próprios serviços de inteligência”, comentou Andrés Gómez de la Torre, analista internacional peruano, em entrevista à Diálogo. “Devemos desenvolver maiores ações de coordenação fronteiriça de migrações e dos próprios serviços de inteligência no nível policial e estratégico”.
Outra captura significativa ocorreu em março de 2025, quando, graças à coordenação entre as forças da Colômbia e do Chile, Gabriel Arturo Acosta Escalante, líder da célula Hermanos Cartier do Tren de Aragua, que atuava na região de Los Lagos, no Chile, foi capturado em Antioquia, na Colômbia. Essa célula era responsável por sequestros, homicídios, extorsão, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, ameaças e conspiração. O ministro da Segurança Pública do Chile, Luis Cordero, confirmou que Acosta Escalante dirigia todas as operações criminosas a partir da Colômbia, sem nunca pisar o solo chileno, o que destaca o caráter transnacional da liderança do grupo.
“Os recentes golpes contra o Tren de Aragua refletem avanços significativos na luta contra esse grupo criminoso”, comentou à Diálogo Luis Toledo, diretor do Centro de Estudos em Segurança Pública e Crime Organizado da Universidade San Sebastián, no Chile. “Este modelo operacional combinado, que inclui promotorias, polícias e organismos internacionais, permite identificar pontos-chave, como o controle de fronteiras em Tarapacá e as redes de lavagem de dinheiro por meio de empresas de ônibus.”
Últimos golpes: lavagem de dinheiro e ações dos EUA
A pressão contra as estruturas financeiras do Tren de Aragua continua crescendo. No final de junho, as autoridades chilenas anunciaram o desmantelamento de uma importante rede de lavagem de dinheiro ligada à gangue. Essa operação permitiu descobrir mais de US$ 13,5 milhões que haviam sido lavados fora do Chile e que eram provenientes de atividades criminosas. Pelo menos 52 pessoas, na sua maioria estrangeiros, foram detidas em várias regiões, incluindo Santiago, Tarapacá, Antofagasta, Atacama, Valparaíso, O’Higgins e Bíobío.
Os Estados Unidos têm tomado medidas cada vez mais agressivas contra o Tren de Aragua. Em fevereiro, o governo norte-americano designou o Tren de Aragua como organização terrorista estrangeira.
“A designação do Tren de Aragua como organização terrorista pelos Estados Unidos […] fornece ferramentas fundamentais: permite congelar ativos por meio de leis como a Lei Patriota; agiliza extradições […]; e facilita a coordenação militar-policial sob a resolução 1540 da ONU”, opinou Toledo.
No entanto, Toledo, ex-procurador chefe da Unidade de Drogas do Ministério Público Nacional do Chile, ressalta que essa classificação deve ser complementada com medidas que ainda não existem de forma universal na região. Entre elas figura a harmonização legislativa regional para classificar os crimes de maneira uniforme, uma vez que alguns países não proíbem
o contrabando de cetamina, (uma droga traficada pelo Tren de Aragua), não punem severamente o tráfico ilícito de migrantes ou a trata de pessoas. Também recomenda a criação de tribunais especializados com juízes capacitados em criminalidade organizada e crimes transnacionais, bem como na proteção internacional de testemunhas, considerando a capacidade dessas organizações de ameaçar familiares em outros países.
Os sucessos contra o Tren de Aragua no Chile e em toda a região, reforçados pela intensificação de esforços internacionais e designações, destacam o papel fundamental da cooperação internacional sustentada e do intercâmbio de informações de inteligência, para desmantelar as complexas redes criminosas transnacionais.


