Em um relatório e 2024 intitulado O complô terrorista do Hezbollah no Brasil, elaborado por Emanuele Ottolenghi, especialista em Irã e Hezbollah do think tank Fundação para a Defesa das Democracias, em Washington, destaca como Teerã usa a ideia da Revolução iraniana na América Latina para disseminar o terrorismo por meio do seu representante, o Hezbollah.
“Para o regime iraniano, a América Latina sempre foi um terreno fértil para a exportação de seus ideais revolucionários e, para a esquerda radical da região, a revolução iraniana representa acima de tudo um movimento anti-imperialista, dedicado a objetivos semelhantes aos seus”, explica Ottolenghi à Diálogo em uma entrevista em meados de 2024.
Essa combinação ideológica levou, ao longo dos anos, a alianças do Irã com Cuba, Bolivia, Nicarágua e Venezuela, mas também com movimentos indígenas, separatistas, partidos e organizações não governamentais que compartilham o mesmo sentimento revolucionário e antiamericano. “O importante é que essas alianças possibilitam a disseminação de ideias, a mobilização e radicalização de apoiadores, e até mesmo o aproveitamento de alguns deles para apoiar não apenas batalhas ideológicas, mas também, se necessário, atividades criminosas”, explica Ottolenghi.
O relatório fala principalmente sobre o ataque fracassado contra vários alvos da comunidade judaica no Brasil, conforme revelado pela Operação Trapiche da Polícia Federal do Brasil em novembro de 2023. Em sua análise, Ottolenghi revela a densa rede de clérigos e instituições locais iranianos por trás dos dois terroristas, um libanês e um sírio de origem libanesa, ambos com alertas vermelhas da Interpol.
Isso já havia acontecido com os atentados a bomba contra a Embaixada de Israel em 1992 e contra a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA) em 1994, em Buenos Aires, Argentina, nos quais 114 pessoas foram mortas e centenas ficaram feridas. Para exportar sua revolução “com granadas e explosivos”, nas palavras do ex-comandante da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC), Javad Mansouri, Teerã enviou à Argentina em 1983 o clérigo Mohsen Rabbani, agora na lista vermelha da Interpol, acusado de planejar os atentados. A tarefa de Rabbani era, na verdade, criar uma rede de instituições e centros culturais iranianos, definida pelo promotor argentino do caso AMIA, Alberto Nisman, falecido em 2015, como “uma rede de inteligência clandestina destinada a patrocinar, facilitar e executar ataques terroristas”.
Universidade Al-Mustafa
Décadas depois, elementos dessa rede continuam a operar e se adaptar em toda a região. Como representante da long data do Irã para a América Latina, Ali Khamenei, Rabbani dirige o Instituto Cultural Islam Oriente, na cidade de Qom, cuja missão é disseminar livros religiosos em português e espanhol e fortalecer os laços entre o Irã e a região.
O instituto está associado à Universidade Internacional Al-Mustafa, que analistas identificam como um importante centro da influência iraniana na América Latina. Essa universidade, com sedes em Bogotá (Colômbia) e Caracas (Venezuela), oferece cursos em toda a América Latina, inclusive em Cuba. Ela foi sancionada pelo Tesouro dos EUA em 2020 e, posteriormente, pelo Canadá, por hospedar e treinar milícias xiitas paquistanesas e afegãs na Síria, em apoio ao regime de Bashar al-Assad. De acordo com o Tesouro dos EUA, a Universidade Al-Mustafa “serve como uma rede internacional de recrutamento para as Forças Quds da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã”, que dirige as operações terroristas do Irã fora do país.
De acordo com Ottolenghi, “dos cerca de 40.000 formandos da Al-Mustafa nos últimos anos, 10 por cento são latino-americanos educados exclusivamente pelo próprio Rabbani”. Depois de formados, esses graduados têm a tarefa de retornar a seus países de origem para ensinar as doutrinas da Revolução Islâmica.
Um dos homens da rede de Rabbani é o argentino de origem libanesa Edgardo Rubén Assad, conhecido como Sheikh Suhail Assad, supervisor de recrutamento da Universidade Al-Mustafa. Em abril de 2024, a polícia brasileira o proibiu de entrar no Brasil por seus “vínculos com o Hezbollah e a Guarda Revolucionária Iraniana” e por estar listado no banco de dados do “Centro de Triagem de Terroristas” do Bureau Federal de Investigação (FBI).
Propaganda do Hezbollah
A propaganda do Hezbollah também é divulgada nas redes sociais da Universidade Al-Mustafa e de muitos centros iranianos na América Latina. “Os temas recorrentes são os da ‘resistência dos oprimidos’ e a luta contra a ‘arrogância’ e a ‘hegemonia’ do Ocidente, dos Estados Unidos e de Israel”, explica Ottolenghi à Diálogo.
O culto aos mártires, entendidos como heróis que lutam contra a opressão, também é muito difundido. Um exemplo acima de tudo é o defunto comandante das Forças Quds, ala da Guarda Revolucionária Iraniana, Qassem Soleimani. “Todos os anos, desde sua morte em janeiro de 2020, o Hezbollah e os seguidores do Irã na América Latina organizam eventos, comemorações, debates, seminários, cerimônias religiosas para lembrá-lo como um Che Guevara islâmico”, explica Ottolenghi. A máquina de propaganda iraniana divulga seu feito por meio de publicações em espanhol, enquanto as plataformas de mídia ligadas ao Irã e ao Hezbollah, como HispanTV e Al Mayadeen em espanhol, dedicam especiais de televisão a ele.
“As notícias transmitidas por esses canais são filtradas e interpretadas de acordo com a visão revolucionária iraniana, que promove claramente uma narrativa antiamericana, anti-israelense e antiocidental. As televisões e os materiais difundidos on-line estão do lado de Putin contra a Ucrânia; do Hamas e do Hezbollah contra Israel; de Bashar el-Assad na Síria e dos Houthis no Iêmen”, afirma Ottolenghi.
Boy Scouts nas mesquitas
Nas mesquitas xiitas financiadas pelo Irã na América Latina, o Hezbollah também usa grupos de Boy Scouts como forma de doutrinação e recrutamento. De acordo com Ottolenghi, eles “são o reflexo dos ‘Imam al-Mahdi Scouts‘ do Hezbollah e são liderados por instrutores libaneses que não escondem sua simpatia pelo Hezbollah”.
De acordo com o Centro General Meir Amit de informação sobre inteligência e terrorismo, com sede em Israel, o movimento, fundado em 1985, treina dezenas de milhares de crianças e adolescentes em táticas militares e “os doutrina com os princípios do islamismo radical iraniano”. Os Boy Scouts do sexo masculino, ao completarem 17 anos, podem se juntar às fileiras de combate do Hezbollah. Na América Latina, muitos desses jovens se tornaram estudantes da Universidade Al-Mustafa e depois voltaram para liderar os grupos de scouts nos quais haviam sido treinados.
Durante anos, Bilal Wehbe supervisionou o movimento de Boy Scouts nas mesquitas do Brasil. O Tesouro dos EUA designou Wehbe em 2010 como “o principal representante do Hezbollah na América do Sul, responsável por supervisionar as atividades de contraespionagem do grupo na área transfronteiriça da Argentina, Brasil e Paraguai”.
A Tríplice Fronteira
De acordo com Ottolenghi, precisamente a área da Tríplice Fronteira compartilhada por Argentina, Brasil e Paraguai continua sendo um dos pontos mais críticos para a expansão das redes ilícitas ligadas ao Hezbollah. “Ela é importante devido à presença de uma comunidade xiita libanesa significativa. Portanto, grande parte do tráfego que gera rendimentos para o Hezbollah passa por lá”, disse. Em particular, essa região é crucial para toda a lavagem de dinheiro, uma das principais fontes de rendimentos para as redes de financiamento ilícito do Hezbollah.
Em 2018, foi em Foz do Iguaçu que um dos mais importantes operadores financeiros do grupo, Assad Ahmad Barakat, foi preso sob a acusação de lavar o lucro do tráfico de drogas e armas.
Combate ao Hezbollah
É necessário combater a disseminação dessas redes, para evitar atos de terrorismo não apenas na América Latina, mas também em todo o hemisfério ocidental. Além do aumento do intercâmbio de informações entre os vários países da região e entre eles e os Estados Unidos, analistas afirmam que é necessária uma ação decisiva por parte dos governos latino-americanos.
O reconhecimento do Hezbollah como uma organização terrorista é uma das medidas necessárias, de acordo com Ottolenghi. Vários países da região — incluindo Argentina, Paraguai, Colômbia e Honduras — já designaram formalmente o Hezbollah como uma organização terrorista, embora a adoção dessa medida continue desigual na América Latina. “Esse reconhecimento daria mais poderes investigativos e preventivos à polícia e aos serviços de inteligência, permitiria o congelamento de bens e meios financeiros e justificaria outras medidas”, explica Ottolenghi.
Essas medidas incluem, por exemplo, a possibilidade de proibir a entrada de pessoas suspeitas em um país da região, como foi o caso de Edgardo Rubén Assad, bem como o cancelamento de concessões de cidadania.
“Por fim, devem ser tomadas medidas para proibir a propaganda do Hezbollah em espanhol e português, o que não foi feito até agora”, sugere Ottolenghi.
Como a Operação Trapiche no Brasil revelou em 2023, o Irã e o Hezbollah continuam sendo uma ameaça persistente para todo o hemisfério. Isso exige esforços conjuntos de todos os países da região para combater o financiamento do tráfico ilícito de drogas e armas, o recrutamento de terroristas e evitar a possibilidade de atentados.


