As assimetrias entre a China e a Rússia são um elemento que distingue as capacidades de influência dos dois países na América Latina. Enquanto a República Popular da China é entendida como uma potência global em ascensão, com recursos financeiros abundantes para capturar elites e acessar setores estratégicos dentro das nações latino-americanas – por meio de projetos de investimento, empréstimos e “cooperação não reembolsável” -, o alcance regional da Federação Russa é geralmente avaliado em termos de suas alianças com governos iliberais em campos muito específicos, como o militar-técnico e o da informação.
Entende-se, não sem razão, que uma economia consideravelmente menor do que a das potências europeias, também prejudicada pelas sanções ocidentais após a invasão da Ucrânia, depende, em grande parte, de sua força militar e de certas formas de poder incisivo que, ao contrário da China, não envolvem o gasto sistemático de bilhões de dólares em iniciativas globais como o Cinturão e Rota. Portanto, certas estratégias de influência regional, como as campanhas de (des)informação do Kremlin por meio das plataformas RT e Sputnik e seus representantes locais, atraem o interesse de think tanks, pesquisadores e jornalistas. Em menor escala, o mesmo acontece com as operações de inteligência russa que são implementadas com o apoio de adidos diplomáticos em várias embaixadas no hemisfério – da Cidade do México a Brasília.
Isso não significa que a Rússia seja vista – na opinião de especialistas – como incapaz de exercer poder duro na América Latina. Pelo contrário, além da manipulação da opinião pública e da distribuição maciça de propaganda, vários atores estão preocupados com a crescente cooperação militar entre Putin e seus aliados regionais mais próximos, ou seja, as autocracias de Cuba, Venezuela e Nicarágua. Recentemente, esses acontecimentos foram denunciados pela imprensa latino-americana que critica Moscou. Considere, por exemplo, a chegada de submarinos russos de propulsão nuclear à costa cubana nos últimos meses, ou a chegada do Almirante Gorshkov à Venezuela. O mesmo se aplica ao centro de espionagem instalado na base militar de Mokorón, em Manágua, que viola a soberania da Nicarágua, pois é operado exclusivamente por tecnologia e mãos russas, conforme documentado pelo jornal Confidencial.
No entanto, a coerção econômica da Rússia na América Latina ainda parece ser uma questão reservada a certos casos, em que regimes e lideranças iliberais recebem o Kremlin em várias esferas de influência, graças à afinidade entre narrativas e modelos de governança. Assim, encontramos investimentos russos no setor de energia da Bolívia – patrocinados pelos governos do Movimento para o Socialismo -, exploração de hidrocarbonetos na Venezuela e as redes de corrupção facilitadas pela Rússia por meio de oligarcas, oficiais e comandantes militares de alto escalão.1
Na América Central, embora sejam visíveis os laços estreitos do Kremlin com o regime de Ortega-Murillo na Nicarágua e, nos últimos anos, com o governo de Xiomara Castro em Honduras, as relações econômicas de ambos os países com Moscou são descritas como insubstanciais, como argumentou o internacionalista Vladimir Rouvinski para o Expediente Abierto. Como vimos, a cooperação entre a Rússia e a América Central se resume principalmente a alianças militares, acordos de comunicação e, em última instância, apoio diplomático em órgãos multilaterais. Muito já foi dito, por exemplo, sobre a relutância de Manágua e Tegucigalpa em condenar a invasão da Ucrânia pela Rússia em fóruns como as Nações Unidas e a Organização dos Estados Americanos.
Sem contradizer essa perspectiva, mas sim elaborando-a, o Centro de Estudos da Democracia (CSD) apresentou recentemente seu relatório Global Reach. The Kremlin Playbook in Latin America (2024, Center for the Study of Democracy, 104 pp.), que oferece inúmeras evidências da influência econômica da Rússia na região por meio de vários países, empresas e redes. Para o caso mais específico da América Central, essa pesquisa anuncia algumas descobertas interessantes que nos forçam a repensar, até certo ponto, as análises existentes sobre o papel do Kremlin na região e seus mecanismos de penetração nas estruturas político-econômicas locais.
Sem ignorar o caso da Nicarágua, onde a Rússia “estabeleceu laços estreitos com o governo de Ortega, fornecendo assistência econômica, treinamento militar e apoio de inteligência”, buscando também “exercer influência sobre a dinâmica de segurança regional e contrariar os interesses dos EUA”, o relatório do CSD dá atenção especial aos laços russo-panamenhos. Como um centro financeiro global, o Panamá tem servido ao Kremlin como um “mecanismo fundamental para evitar sanções internacionais” e também se tornou um importante receptáculo para investimentos russos de oligarcas próximos ao governo de Putin. Por esses motivos, o país é identificado pelo CSD como “cada vez mais vulnerável a uma coerção autoritária estrangeira mais forte”.
Entre outros detalhes, o relatório em questão aponta para a existência, até julho de 2024, de 74 empresas russas com proprietários panamenhos, muitas das quais mantêm conexões com entidades estatais russas. Uma delas, a Publishing House AST LLC, é sancionada pelo governo ucraniano pela distribuição de vários conteúdos de mídia anti-ucranianos. Outra, a produtora de dispersões aquosas Akrilan LLC, tem uma participação na empresa estatal russa de nanotecnologia Rusnano, que enfrenta sanções do Departamento do Tesouro dos EUA.
A Rússia também deixou “uma marca profunda no setor de energia do Panamá” por meio de empresas como a Energolatina, uma subsidiária da Energomashexport Corporation LLC, sediada em Moscou. A Energolatina, embora mantenha vínculos com empresas russas sancionadas pelos EUA, como a JSC Power Machines, é dirigida por oligarcas do gigante eurasiano. Por exemplo, Yury Igorevich Vereemenko, que também é CEO de outras empresas sediadas na América Latina e na Europa. Assim, diz o CSD, “a estrutura corporativa dos negócios da Energolatina revela que uma das maneiras pelas quais as entidades russas evitam as sanções é usar seus proprietários atuais ou antigos como proprietários de jure de suas subsidiárias”.
Além do Panamá, o estudo da CSD revela algumas das operações da Rússia na Costa Rica e na Guatemala. No primeiro caso, a empresa Fintech Punto Pago, fundada por Andrey Gorsky e com investimento do gigante financeiro russo FINAM, desenvolve “certas operações não especificadas”, que poderiam estar aproveitando o ambiente financeiro digital pouco regulamentado em alguns países da América Central. Na Guatemala, por sua vez, foram detectados investimentos indiretos de capital russo. Em 2011, o diretor para a América Latina do Ministério das Relações Exteriores da Rússia anunciou pessoalmente um acordo para adquirir a estatal Guatemalan Nickel Company por US$ 170 milhões, por meio da Solway Investment Company, registrada na Suíça. Presumivelmente, esses negócios foram suspensos “em meio a uma investigação em grande escala sobre possíveis operações de lavagem de dinheiro” por parte dos russos.
A influência do Kremlin na economia da América Central, portanto, excede o comércio pouco significativo com os países da região. Isso não implica, por outro lado, a existência de níveis consideráveis de investimento russo na América Central, ou de formas de cooperação mais relevantes do que algumas transferências de armas e acesso à mídia de propaganda, como a RT. No entanto, além do fortalecimento de redes autocráticas com Manágua, Moscou conseguiu penetrar em alguns setores estratégicos das economias centro-americanas – como no caso do Panamá – explorando brechas de todos os tipos para escapar das sanções impostas pelo Ocidente a seus oligarcas e empresas estatais, conforme demonstrado no relatório do Centro de Estudos da Democracia.
1Veja, por exemplo, Cardozo Uzcátegui, A., & Mijares, V.M. (2019). Corruption ties between Russia and Venezuela. Uma aliança com outros meios. Foreign Affairs Latinoamerica 19(2), 64-74.
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