A crescente infiltração do crime organizado nas cadeias logísticas marítimas foi alertada pela Organização Mundial das Alfândegas (OMA), em seu Relatório de 2025. O relatório destaca como trabalhadores corruptos portuários e logísticos facilitam o transporte em massa de cocaína pelos portos da América Latina, impactando diretamente o comércio internacional e a segurança regional.
O relatório, baseado em mais de 2.600 apreensões globais realizadas entre 2023 e 2024, revela que em 68 por cento dos casos houve participação de “conspiradores internos”. Esses funcionários, com acesso privilegiado aos contêineres e sistemas de segurança, replicam selos e manipulam carregamentos, para contaminar remessas com drogas.
Como explicou à Diálogo Yadira Gálvez, especialista em segurança da Universidade Nacional Autônoma do México, “os grupos criminosos conseguem corromper ou infiltrar funcionários e, diante de maiores controles em certos portos, redirecionam suas rotas para outros com menor capacidade de detecção”.
De acordo com a OMA, os cartéis e redes transnacionais exploram vulnerabilidades em docas e alfândegas, para introduzir drogas, armas e mercadorias ilícitas, diversificando seus métodos de ocultação, para evitar a interdição. Assim, os portos regionais se tornam nós estratégicos de rotas globais de contrabando.
O documento descreve o comércio global de cocaína como uma indústria consolidada, com uma cadeia de abastecimento que controla com precisão todos os enlaces, desde a produção e o transporte, até a logística e as vendas. capaz de manter fluxos constantes para mercados ilícitos.
Evolução do narcotráfico e novas rotas
O narcotráfico na América Latina evoluiu desde as primeiras rotas andinas para os Estados Unidos. A demanda global de drogas permanece em níveis históricos, com a cocaína ganhando terreno na Europa e o fentanil nos EUA, de acordo com a ONG International Crisis Group (ICG), com sede em Bruxelas.
Embora a Colômbia e o México continuem sendo epicentros, uma das rotas mais dinâmicas agora atravessa o Pacífico, envolvendo países como Costa Rica e Equador, como nós-chave para a América do Norte e a Europa. O ICG detalha que os fluxos de cocaína se adaptam constantemente aos controles e à pressão das autoridades, deslocando os pontos de saída e trânsito.
Nove de cada 10 carregamentos de cocaína têm origem na América do Sul e sete de cada 10 viajam por mar. Só em 2024, as autoridades europeias apreenderam mais de 200 toneladas da droga nos portos de Roterdã, Antuérpia e Hamburgo, sendo a maioria proveniente da região.
A OMA identifica o ocultamento em estruturas e o método do “gancho cego” como os mais utilizados. O gancho cego consiste em introduzir a droga no carregamento legítimo, para depois retirá-la discretamente em qualquer ponto da cadeia de abastecimento, inclusive durante o transporte terrestre ou a bordo dos navios, com a cumplicidade das tripulações.
O ocultamento em estruturas é ainda mais difícil de detectar: a droga é escondida em paredes, tetos ou pisos dos contêineres e pode ser retirada de painéis refrigerados ou depósitos.
“O que torna esses métodos tão eficazes nos portos é a combinação de porosidade, corrupção e infiltração. As redes criminosas conseguem infiltrar-se em diferentes pontos da cadeia logística, como alfândegas, transportes e terminais portuários, para manipular carregamentos e replicar selos de segurança”, comenta Gálvez.
Gálvez enfatiza: “Os países devem fortalecer a detecção e interdição por meio de tecnologia avançada e protocolos mais rigorosos. É necessário efetuar controles mais avançados, identificar portos onde o tráfego é desviado e reforçar a supervisão de outros ilícitos, como precursores químicos ou mercadorias apócrifas.”
Centros estratégicos de exportação
O tráfico passou dos portos tradicionais da Colômbia e do Peru para novos centros no Brasil, Costa Rica, Equador, Panamá e República Dominicana. O Brasil, por exemplo, consolidou-se como ponte para a Europa, graças à sua conexão com as zonas produtoras andinas e à extensão de sua costa atlântica, ressalta InSight Crime.
De acordo com o relatório da OMA, o Equador representou 30 por cento (385 toneladas) da cocaína apreendida em contêineres marítimos. A indústria bananeira e o porto de Guayaquil são os principais canais de trânsito e redes criminosas também esconderam drogas em carregamentos de atum.
As conclusões do relatório são protegidas por operações reais na região. Por exemplo, em março de 2025, a Polícia equatoriana e agências internacionais anunciaram as operações Gran Fénix 13 e 14, que resultaram em 44 detenções no Equador e 15 na Alemanha. A organização criminosa falsificava selos e cadeados para transportar contêineres de Guayaquil e Puerto Bolívar para a Europa, de acordo com o Ministério do Interior equatoriano.
Os contêineres se consolidaram como o principal meio para traficar a cocaína para a Europa: dos 750 milhões que circulam por ano, um total de menos de 2 por cento é inspecionado, o que permite às redes criminosas minimizar o risco de apreensão e maximizar os lucros, afirma InSight Crime.
Coordenação regional e esforços de interdição
As forças navais e guarda-costas, especialmente no Pacífico, Caribe e Atlântico, enfrentam tentativas crescentes de transportar drogas para a América do Norte, Europa, África e Austrália, de acordo com a OMA. “É muito difícil detectar contêineres, devido ao volume e à quantidade de carga que circula em todos os portos”, alerta Gálvez.
Essas solicitações por maior coordenação encontram resposta nos esforços multinacionais liderados pelos países da região. Em julho de 2025, por exemplo, a Colômbia liderou a 15ª edição da Operação Orión, com a participação de 61 países. Foram apreendidas 327 toneladas de cocaína e 210 toneladas de maconha, de acordo com o governo colombiano. Os Estados Unidos apoiaram a operação com recursos navais, aéreos, assistência técnica e de inteligência.
Outro exemplo de liderança regional é o Sistema Regional de Segurança (RSS), um acordo internacional para a defesa e a segurança do Caribe Oriental. O RSS coordena operações conjuntas terrestres e marítimas entre seus países membros – Antígua e Barbuda, Barbados, Dominica, Granada, Santa Lúcia, São Cristóvão e Nevis e São Vicente e Granadinas –, para combater ameaças transnacionais.
Ressaltando o compromisso dos EUA com a segurança da região e a interdição, de 2023 a março de 2025, a Guarda Costeira dos EUA, em colaboração com nações parceiras, apreendeu 320 toneladas de cocaína e 48 de maconha, relata o relatório da OMA. Este organismo, juntamente com o Gabinete das Nações Unidas para Drogas e Crimes (UNODOC), também promove o Programa de Controle de Contêineres, para frear o tráfico ilícito e reforçar a segurança na cadeia de abastecimento.
Um componente-chave desse foco regional é a Força-Tarefa Conjunta Interagencial Sul (JIATF-South), um componente do Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM), que realiza operações interagências de luta contra as drogas no Pacífico Oriental e no Caribe. A JIATF-South o faz com o apoio de nações parceiras, com conexões integradas de mais de 20 países, para facilitar o intercâmbio de informações e a ação coordenada.
“O essencial é fortalecer todas as agências encarregadas de combater o tráfico ilícito, melhorar o intercâmbio de informações e impedir a infiltração de operadores internos na cadeia logística”, diz Gálvez.
Segundo Gálvez, para uma maior eficácia, os diversos grupos multinacionais e interinstitucionais responsáveis pelo combate ao tráfico marítimo de drogas na região necessitam de tecnologia, capacitação e recursos que os Estados Unidos poderiam fornecer. Sugere formar uma coalizão com países aliados da América Latina, para reforçar as ações existentes e ampliá-las, aproveitando a infraestrutura e as capacidades disponíveis em toda a região.
“Os governos latino-americanos devem reconhecer que os portos são infraestruturas críticas que combinam segurança econômica e combate ao tráfico ilícito”, conclui Gálvez. “É necessário melhorar as capacidades, desde a proteção física até a detecção tecnológica, e usar a análise de rotas, para antecipar os movimentos das organizações criminosas, blindando de forma mais sustentável as rotas críticas.”


