Crianças peruanas são vítimas do narcotráfico

Peruvian Children Victims of Narco-Trafficking

Por Dialogo
setembro 19, 2011




LIMA, Peru – Uma tendência preocupante e perigosa está se disseminando pelas regiões de cultivo da coca no Peru.
Todos os dias, mais e mais crianças e adolescentes passam a ser explorados pelos narcotraficantes, trabalhando no cultivo, produção e transporte do produto.
Uma proporção significativa dos menores em regiões onde o cultivo da coca é intenso trabalham não só na colheita das folhas da planta, mas também no processamento, refino, transporte e venda de cocaína, de acordo com o Instituto de Estudos Internacionais (IDEI) da Pontifícia Universidade Católica do Peru.
“Há participação infantil em todas as etapas no processo, variando conforme a idade. Crianças mais novas estão envolvidas na colheita e no pisado (esmagamento com os pés) das folhas de coca”, diz Carlos Morán Soto, chefe da divisão de polícia territorial de Callao, que já chefiou a divisão antinarcóticos da polícia peruana.
Das 81.312 crianças em áreas de cultivo de coca no Peru, 73.180 estão envolvidas na colheita, fabricação ou transporte de cocaína, segundo estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).
As crianças ganham o equivalente a US$ 11 (R$ 19) por dia para ajudar na colheita da coca, e adolescentes recebem cerca de US$ 30 (R$ 51) para transportar 1 kg de pasta-base até laboratórios clandestinos, onde o produto ganha sua forma final, explica Morán.
Segundo o chefe de polícia, nem o plantio nem a colheita da coca requerem muita mão de obra, ao passo que o pisado exige a secagem das folhas ao sol e seu posterior “esmagamento” por meio de sucessivos pisoteamentos, para criar a pasta a partir da qual se produz a cocaína.

“Adolescentes de 15 a 16 anos pisoteiam as folhas em poços de maceração. Os de 17 a 18 anos transportam a cocaína”, diz Morán, acrescentando que os jovens traficantes muitas vezes andam a pé. Há muitos adolescentes condenados por tráfico de drogas em centros correcionais para menores.
Segundo a polícia antidrogas, o transporte do narcótico começa nas regiões produtoras de coca, seguindo para cidades no centro do país, como Huancavelica, Junín, Apurímac e Ayacucho.
"Os 'mochileiros' precisam caminhar de dois a três dias para chegar a seu destino”, diz Morán.
Um relatório do Instituto Nacional de Estatística e Informática, preparado com apoio do Banco Mundial e da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), afirma que a produção de cocaína está profundamente enraizada nas cidades mais pobres do Peru – Huancavelica (índice de pobreza de 88,7%), Ayacucho (78,4%), e Apurímac (74,8%).
A coordenadora do IDEI, Sandra Namihas, alerta sobre os perigos do envolvimento de menores no narcotráfico.
“Crianças que participam da colheita da folha usam objetos cortantes afiados, como facões, pás, ganchos e ancinhos para trabalhar o solo ou abrir fossas”, diz. “[Isso] muitas vezes causa ferimentos e acidentes graves.”
Ainda de acordo com Sandra, os narcotraficantes muitas vezes usam filhos dos adultos que trabalham para si, pois não raro as crianças ajudam os pais na lavoura.
“O que é mais preocupante é que isso ocorre sem que [os pais] se deem conta de estar envolvendo [os filhos] em uma atividade criminosa, o tráfico de drogas”, observa a coordenadora do IDEI, acrescentando que também é comum crianças oferecerem seus serviços a traficantes locais para ajudar a família.

Filhos de narcotraficantes e de membros do grupo terrorista Sendero Luminoso também tendem a se envolver no comércio de drogas, afirma o analista antinarcóticos Jaime Antezana.
“Essas organizações dedicadas ao tráfico de drogas têm estrutura de clãs familiares”, diz. “Os adultos introduzem os mais jovens no negócio para dar prosseguimento a suas atividades criminosas, estabelecendo esse tipo de trabalho como a única maneira de garantir a sobrevivência.”
Em 2010, cerca de 61.200 hectares de terra foram usados para o plantio de coca em 13 regiões do Peru, com produção total de 129.500 toneladas métricas da folha de coca, segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC).
Dados da Empresa Nacional de Coca (Enaco) indicam que não mais do que 3 mil toneladas métricas por trimestre seriam necessárias para atender às necessidades de uso legal da folha, como o preparo do chacchado e aplicações nos setores farmacêutico e industrial.
“Isso significa que mais de 120.000 toneladas métricas destinam-se diretamente a usos ilegais”, afirma Sandra, que participou da pesquisa para o livro Niños, Niñas, Adolescentes en las Zonas Cocaleras del VRAE y el Alto Huallaga (“Meninos, Meninas, Adolescentes nas Zonas Cocaleiras do VRAE e Alto Hallaga”), publicado este ano pelo IDEI.
O governo, contudo, está urgindo os produtores rurais a substituir o plantio de coca por outras culturas, como as de café, cacau e palmito, que podem levar à estabilidade econômica e social.
E os produtores rurais estão atendendo.
Nos últimos anos, cerca de 80.000 hectares antes dedicados ao plantio ilegal de coca passaram a produzir verduras e café, de acordo com a Comissão Nacional para o Desenvolvimento e a Vida sem Drogas (DEVIDA).
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