Peru enfrenta oposição feroz à medida que programa de erradicação de coca se intensifica

Por Dialogo
julho 01, 2013



LIMA – As autoridades peruanas continuam confiantes de que alcançarão sua meta, ainda este ano, de destruir 22.000 hectares de plantações de coca – a matéria-prima usada na fabricação de cocaína – mesmo enfrentando oposição local à medida que as brigadas de erradicação intensificam suas operações em novas áreas.
O governo do presidente Ollanta Humala, que tomou posse em julho de 2011, erradicou um recorde de 14.171 hectares de plantações de coca no ano passado. Sua meta de 22.000 hectares para 2013 é o dobro da média anual dos últimos seis anos, e a meta de erradicação aumentará gradualmente para 30.000 hectares até o final do mandato de Humala, em 2016.
As autoridades relataram que as brigadas de erradicação, conhecidas como Corah, eliminaram um pouco mais de 9.500 hectares até meados de junho. Elas também destruíram aproximadamente 250 laboratórios clandestinos usados para produzir cocaína ou pasta-base de cocaína. Foram apreendidas cerca de 500 toneladas de produtos químicos e outros insumos usados na produção da droga, um aumento de 150% ante o mesmo período do ano passado.
“Estamos convencidos de que alcançaremos nossa meta de 22.000 hectares”, disse Carmen Masias, chefe do Comitê Nacional para Desenvolvimento e Vida sem Drogas (DEVIDA) do país. “Sabemos que, com erradicação e interdição, conseguiremos trazer o desenvolvimento.”
O Peru talvez chegue a um momento decisivo na luta contra as drogas se o DEVIDA atingir a meta deste ano, disse Ruben Vargas, um analista de Lima que estuda o narcotráfico e as questões de segurança.
“A erradicação de 22.000 hectares poderia ser um ponto de ruptura e reverter o aumento anual nas plantações que temos visto. Isso enviaria uma mensagem clara de que há uma decisão política de deter a expansão das plantações de coca,” disse Vargas.

Brigadas Corah esperam resistência à medida que erradicação começa

Embora continue firme, o plano de erradicação do governo poderá encontrar oposição feroz com a expansão agressiva das brigadas Corah de sua área tradicional no Vale Huallaga para áreas de plantações de coca onde há mais conflito.
As brigadas de erradicação iniciaram seus trabalhos em uma área conhecida como Pichis-Palcazu, que abrange a zona de selva das regiões de Huanuco e Pasco. As plantações de coca tinham desaparecido quase que completamente da área, caindo para 211 hectares em 2005, mas começaram a crescer rapidamente em 2008. As plantações de coca na área chegaram a 3.734 hectares em 2011, de acordo com o relatório mais recente do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC).
Flávio Mirella, representante do UNODC para Peru e Equador, disse ao Diálogo que é fundamental controlar o aumento de plantações de coca nessa área.
“Estamos vendo as plantações de coca se deslocarem de áreas onde a erradicação está acontecendo para as antigas zonas de cultivo já conhecidas pelos plantadores de coca”, conta Mirella.
As brigadas Corah erradicaram um pouco mais de 600 hectares em Pichis-Palcazu na primeira metade de junho. Elas também destruíram 17 laboratórios usados para transformar a coca em pasta-base de cocaína. Além disso, a DIRANDRO, a polícia antidrogas do país, localizou e destruiu seis pistas de pouso clandestinas na região de selva de Pasco este ano. As pistas de pouso são usadas para transportar cocaína do Peru para a Bolívia – um novo ponto de conexão para mercados no Brasil e na Europa.

Replantio de campos de coca é um grande obstáculo

Mas, mesmo antes do início da erradicação, a área já viu um conflito entre policiais e plantadores enfurecidos pela chegada iminente das brigadas Corah.
Além da expansão das plantações de coca, a Corah também precisa enfrentar os plantadores que replantam a coca assim que as brigadas deixam a área. Isso já está acontecendo no Vale Monzon, onde a Corah concentrou seu trabalho na primeira metade de 2013. Este foi o primeiro esforço de erradicação combinado no vale, o que foi possível somente depois da prisão, em fevereiro de 2012, do líder rebelde do Sendero Luminoso Florindo Flores, também conhecido como “Artemio”. As autoridades dizem que 806 dos 9.525 hectares erradicados foram, desde então, replantados.
O maior desafio será quando a erradicação passar para o vale formado pelos rios Apurimac, Ene e Mantaro, conhecido como VRAEM. Esta região está sob estado de emergência desde junho de 2003 devido à violência terrorista nas mãos dos membros remanescentes do Sendero Luminoso, liderados por Victor Quispe Palomina e dois de seus irmãos. O VRAEM abriga 19.925 hectares de coca, ou seja, 31,9% do total de plantações de coca do Peru, de acordo com o UNODC.
O Sendero Luminoso já anunciou sua estratégia. A organização terrorista cobriu vilarejos com panfletos e pichou slogans contra a erradicação. Em uma transmissão clandestina que interrompeu as estações de rádio locais no final de maio, o porta-voz do Sendero Luminoso instigou os fazendeiros a defenderem suas plantações de coca com armas.
Carmen disse aos jornalistas que, além de erradicar 3.000 hectares de plantações de coca no VRAEM neste ano, o governo também planeja intensificar programas sociais e lançar uma grande campanha de infraestrutura na qual investirá até US$1 bilhão (R$ 2,22 bilhões) no VRAEM nos próximos três anos. Em 14 de junho – como um sinal do que está por vir – o ministro de Economia e Finanças do Peru destinou mais US$ 4 milhões (R$ 8,88 milhões) para contratar 846 novos professores como parte dos investimentos para melhorar a educação no VRAEM.
Mario Ríos, especialista em desenvolvimento do DEVIDA, afirma que a estratégia do governo é “implantar atividades produtivas e programas sociais que protegerão a estrutura social no VRAEM à medida que a economia ilegal da coca é substituída.”
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