Peru destrói pistas de pouso de narcotráfico em comunidades indígenas

Peru destrói pistas de pouso de narcotráfico em comunidades indígenas

Por Julieta Pelcastre/Diálogo
maio 06, 2021

O aumento da produção de drogas no Peru, principalmente na região de Ucayali, é evidente pelo crescimento do número de aeródromos clandestinos utilizados pelo narcotráfico.

As pistas de pouso ilegais encontradas nos bosques chegam a 46 até o momento; muitas estão situadas em terrenos de comunidades indígenas, informou a Gerência Regional Florestal e de Fauna Silvestre do governo regional de Ucayali, no dia 28 de fevereiro de 2021.

“Não existem apenas essas, não somente em Ucayali, mas também na zona de Puerto Inca, Huánuco, Palcazú, em todo o eixo do sudeste. Nessa região [Ucayali] existem 13 pistas ativas […]”, disse à Diálogo o Coronel Mario Villacorta, secretário da Direção Antidrogas da Polícia Nacional do Peru (Dirandro), no dia 13 de abril.

“Começamos a trabalhar […] na destruição dessas pistas de pouso […]. Temos […] abril e maio para realizar essas operações com o Comando Conjunto [das Forças Armadas]”, disse o Cel Villacorta. “Estamos trabalhando em duas frentes: a da tecnologia, com o uso do satélite para identificar as pistas […], e a da erradicação dos cultivos de folhas de coca”, acrescentou.

Ainda que Ucayali não seja a maior região produtora de coca no Peru, ela se tornou um ponto estratégico para a exportação de drogas por vias aérea e fluvial para a Bolívia e o Brasil, informou em abril de 2020 a InSight Crime, uma organização de investigação e jornalismo especializado em crime organizado na América Latina e no Caribe. “Houve um aumento no número de novas pistas em relação aos anos anteriores”, acrescentou o Cel Villacorta.

Ele explicou ainda que “a dinâmica do narcotráfico está utilizando muito […] as praias dos rios, adequadas ao pouso de pequenas aeronaves; eles apenas as habilitam muito superficialmente, aterrissam e vão embora.”

Vítimas indígenas

Desde 2015, até março de 2021, foram registrados 10 homicídios de líderes indígenas que exigiram a saída dos cocaleiros que se dedicam à produção de pasta base de cocaína, para depois exportá-la através dos aeródromos ilegais, informou o jornal peruano La República.

“Recebi ameaças diretas; me enviaram fotos de pessoas [mutiladas] dizendo que a próxima vítima seria eu”, garantiu ao site Mongabay Latam Miguel Guimaraes, presidente da Federação de Comunidades Nativas de Ucayali. Por esse motivo, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos passou a dar proteção a Guimaraes, por ele se encontrar em uma situação “de gravidade e urgência”.

“Estamos como nos anos 90”, disse Herlin Odicio, presidente da Federação de Comunidades Nativas Cacataibo à agência espanhola EFE, no dia 9 de março, em alusão à perseguição aos povos indígenas amazônicos por parte dos grupos criminosos Sendero Luminoso e Movimento Revolucionário Túpac Amaru, que causaram o deslocamento forçado de milhões de nativos para evitar que fossem escravizados ou assassinados.

O narcotráfico está “desmatando os bosques, está deslocando e ameaçando nossos nativos. Eles estão sendo retirados de seu habitat e estão sendo envolvidos nessa atividade ilícita. Não podemos ignorar que estão atentando contra a vida e a integridade desses irmãos nativos”, disse o Cel Villacorta. “Esse trabalho de destruição das pistas de pouso requer apoio internacional, para que a questão da luta contra o narcotráfico seja decisiva no Estado peruano.”

 

Esse trabalho de destruição das pistas de pouso requer apoio internacional, para que a questão da luta contra o narcotráfico seja decisiva no Estado peruano,” Coronel Mario Villacorta, secretário da Direção Antidrogas da Polícia Nacional do Peru.

 

O Cel Villacorta disse que as forças policiais e as Forças Armadas do Peru destruíram 12 pistas de pouso ilegais nos primeiros 100 dias de 2021. Ele acrescentou que contam com a Operação Troya para destruir as pistas remanescentes.

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