Peru e Brasil estreitam cooperação em segurança e defesa

Peru and Brazil Cooperate More Closely on Security and Defense

Por Julieta Pelcastre/Diálogo
julho 17, 2017

O Almirante-de-Esquadra da Marinha de Guerra do Peru José Luis Paredes Lora, chefe do Comando Conjunto das Forças Armadas do Peru, e o Almirante-de-Esquadra da Marinha do Brasil Ademir Sobrinho, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas do Brasil, mantiveram uma série de reuniões com o propósito de intercambiar informações estratégicas relativas à segurança e à defesa. Durante três dias, os chefes militares, bem como seus respectivos representantes, desenvolveram um amplo programa de atividades, realizadas dentro do XXI Ciclo de Conversações, nos quais foram abordados temas de interesse comum como o narcotráfico, terrorismo, contrabando e corte indiscriminado de árvores. O encontro ocorreu de 9 a 11 de maio em Lima, Peru. “Sabemos que a possibilidade de que ocorra um conflito nesta parte do continente é bastante remota, quase impossível. Isso não quer dizer que não possa ocorrer. Contudo, há novos conflitos que surgiram em decorrência do narcotráfico e do terrorismo”, disse à Diálogo o Coronel do Exército do Peru Efraín Manuel Pantigoso Malaga, chefe da Unidade de Ciclos de Conversações do Comando Conjunto das Forças Armadas do Peru (CCFFAA). “Então, os ciclos de conversações são de vital importância porque garantem uma concepção de segurança e uma cooperação militar nesta parte da região.” A delegação peruana compartilhou suas experiências e lições aprendidas sobre como realizar o planejamento conjunto estratégico no CCFFAA. Por sua vez, os militares brasileiros explicaram a forma pela qual enfrentam as novas ameaças por meio de um de seus principais projetos estratégicos, o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON). O SISFRON é uma iniciativa que integra projetos complexos das Forças Armadas do Brasil e dos diversos órgãos do governo brasileiro para melhorar a segurança nas fronteiras de seu país. O sistema de monitoramento de transmissão de dados ajuda as forças militares a detectarem atividades suspeitas por meio de radares terrestres com alcance de 20 quilômetros, além de radares móveis que detectam movimento humano a uma distância de até 8 km, segundo informações prestadas à Diálogo na I Conferência dos Comandantes dos Exércitos do Cone Sul, realizada em novembro de 2016. “É importante conhecer o SISFRON. O Brasil possui um sistema muito moderno de monitoramento. Uma vez que somos países fronteiriços, essa iniciativa pode nos ajudar a executar operações interagenciais para melhorar a segurança dos dois países”, comentou o Cel Pantigoso. Acordos de entendimento Os altos comandos militares assinaram 11 acordos ou entendimentos para melhorar a integração e fortalecer as medidas de confiança mútua entre ambas as forças armadas. O CCFFAA propôs reforçar a Comissão Binacional Fronteiriça (COMBIFRON) Peru-Brasil para ajudar a implementar soluções oportunas dos problemas de segurança que possam surgir na área de fronteira. A COMBIFRON é um mecanismo que coordena, avalia e supervisiona o cumprimento dos compromissos militares e policiais. Outros acordos obtidos incluíram realizar o intercâmbio de informações, metodologia e lições aprendidas por capacitações militares, bem como fortalecer as áreas de educação, inteligência, estratégia, doutrina, operações, cibersegurança, logística e engenharia. O Peru impulsionou um maior intercâmbio de conhecimentos no âmbito de ciberdefesa para a participação das forças armadas em caso de desastres naturais. Cooperação militar permanente e contínua As forças armadas do Peru e do Brasil mantêm ciclos de conversações em questões de cooperação desde 1996. Eles são realizados de forma alternada entre os dois países. Nesse sentido, o Cel Pantigoso ressaltou os laços de união, amizade e profissionalismo entre as forças armadas de ambos os países. “Sempre houve cooperação e colaboração eficaz, permanente e contínua. Nesse último ciclo de conversações, a predisposição de ambas as forças armadas foi fenomenal”, disse. Segundo o Departamento de Ciclos de Conversações da diretoria de Assuntos Internacionais do CCFFAA, os encontros de entendimentos com os altos comandos são realizados também com as forças armadas dos países limítrofes: Bolívia, Chile, Colômbia e Equador, bem como com países de interesse, como os Estados Unidos e a Argentina. Como resultado, eles têm a oportunidade de abordar temas comuns da região e não só de seus países individuais e ver formas de enfrentá-los de maneira conjunta e combinada, bem como compartilhar lições aprendidas com as experiências de cada um. Trabalho conjunto Os governos do Peru e Brasil trabalham de forma conjunta para diminuir as atividades criminais em sua fronteira comum. “Organizações internacionais do narcotráfico, remanescentes de grupos subversivos e grupos vinculados à ideologia e estratégia do terrorismo islâmico operam na Tríplice Fronteira entre Peru, Brasil e Colômbia”, comentou Jorge Serrano Torres, sócio fundador da consultoria de segurança global Spartan Consulting Group no Peru. “Aproximadamente 70 por cento da produção de cocaína peruana sai por meio do VRAEM [Vale dos Rios Apurímac, Ene e Mantaro] pela Tríplice Fronteira para o lado do Brasil, para terminar no mercado brasileiro, europeu e asiático. No VRAEM, são produzidas 240 toneladas de folha de coca anualmente. A exportação da cocaína peruana está nas mãos de dois poderosos cartéis mexicanos: a Federação de Sinaloa e Jalisco Nova Geração, ligados às máfias europeias”, assegurou Serrano. Segundo o Cel Pantigoso, as forças armadas do Peru e do Brasil intensificaram as ações para melhorar o controle do tráfico ilícito de drogas na fronteira de mais de 2.800 km compartilhados. Essas ações também são para combater o desvio de insumos químicos fiscalizados, a venda ilegal de combustível e outros delitos relacionados com o tráfico de entorpecentes. Além disso, fortalecem o intercâmbio de informações de inteligência entre os órgãos policiais. “Por essa mesma preocupação, tropas do Brasil, do Peru e da Colômbia realizarão o exercício militar AMAZONLOG [também conhecido como Operação América Unida] na Tríplice Fronteira amazônica, com o intuito de incrementar a capacidade rápida de resposta multinacional na luta contra as ameaças emergentes. O Exército do Brasil também convidou outras forças armadas, incluindo a dos Estados Unidos, como observadoras do exercício, previsto para novembro. Essa cooperação é inédita”, comentou Serrano. “Devemos criar alguns pontos vivos de fronteira de tal forma que os países tenham o controle e possam diminuir esse tipo de problemas que ameaçam cada um dos Estados”, comentou o Cel Pantigoso. “É inegável a necessidade de estreitar os laços de cooperação em segurança e defesa para sermos mais eficazes ao conter as máfias do crime organizado transnacional”, concluiu Serrano.
Share