A atual crise financeira da organização terrorista libanesa Hezbollah está levando o grupo a intensificar suas atividades ilícitas na América Latina. Essa região há muito tempo é estratégica para suas operações, particularmente na Venezuela, onde o regime de Nicolás Maduro se tornou um refúgio importante para os comandantes do grupo proxy do Irã, que fugiram do Líbano. De acordo com o jornal saudita Al Hadath, cerca de 400 membros do Hezbollah fugiram recentemente para a América Latina, com uma concentração notável na Venezuela.
“O Hezbollah é um dos parceiros nos tráficos de Maduro e sua camarilha. Os terroristas libaneses atuam como intermediários criminosos e, como tal, são recompensados pelo regime com benefícios como cidadania e imunidade, elementos que facilitam suas operações”, explica à Diálogo Emanuele Ottolenghi, investigador principal do Centro de Investigação sobre Financiamento do Terrorismo (CENTEF) e consultor sênior da 240 Analytics, uma plataforma de análise de riscos focada na identificação de terroristas e redes de financiamento do terrorismo.
Depois de sofrer ataques direcionados contra seus bancos no Líbano e ver reduzido o financiamento de regimes como o sírio, os terroristas do Partido de Deus encontraram na Venezuela de Maduro, além de proteção, um centro financeiro em criptomoedas que lhes garante a possibilidade de movimentar com facilidade os rendimentos de suas atividades ilícitas, como o narcotráfico.
Um relatório da ONG Transparência Venezuela, publicado em outubro, indica que, após o colapso da criptomoeda Petro em 2024, o regime de Maduro iniciou uma nova fase de uso de criptomoedas para fins de lavagem de dinheiro e controle cambial.
“O sistema criptográfico venezuelano passou de um experimento fracassado de soberania digital, para ser hoje um mecanismo institucionalizado com riscos altíssimos de lavagem de dinheiro e corrupção financeira”, alerta o relatório.
O clã Rada
De acordo com o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) do Tesouro dos Estados Unidos e as autoridades antiterroristas israelenses, o Hezbollah recorre cada vez mais a stablecoins, como Tether (USDT), para evadir sanções e transferir fundos através das fronteiras, especialmente em coordenação com intermediários financeiros sírios e iranianos. A stablecoin é uma criptomoeda projetada para manter um valor estável ao longo do tempo, normalmente vinculada a uma moeda tradicional ou a um ativo real, como o ouro.
Na Venezuela, opera o clã Rada, um grupo de pessoas pertencentes à mesma família que se dedica tanto ao narcotráfico, quanto à lavagem de dinheiro com criptomoedas, em colaboração com o regime de Maduro.
“O clã Rada representa a interseção entre lavagem de dinheiro, terrorismo e financiamento do terrorismo”, afirma Ottolenghi. Segundo o especialista, outros clãs familiares vinculados ao Hezbollah, como os Barakat, movem-se com fluidez na região, graças também ao apoio do regime venezuelano.
No clã Rada, destaca-se Samer Akil Rada, que dirige a BCI Technologies C.A., uma empresa de consultoria em criptomoedas com sede em Valência, a terceira cidade mais populosa da Venezuela. Essa empresa foi sancionada junto com ele em 2023 pela OFAC, por ser controlada precisamente por Rada, considerado um agente do Hezbollah também por meio do narcotráfico. “Samer esteve envolvido no envio de 500 quilos de cocaína no valor aproximado de US$ 15 milhões, escondidos em remessas de frutas, e finalmente apreendidos em El Salvador”, diz a designação do Tesouro dos EUA.
Passaportes venezuelanos para o Hezbollah
O irmão de Samer, Amer Mohamed Akil Rada, que também tem cidadania venezuelana, e é supostamente um alto funcionário do Hezbollah, foi sancionado em 2023, por administrar uma empresa de exportação de carvão com sede na Colômbia, cujos lucros, através do contrabando e da lavagem de dinheiro, eram destinados aos terroristas do Partido de Deus. O homem também é acusado de ser um dos autores do atentado contra a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA), em 1994, no qual morreram 85 pessoas.
Outro dos responsáveis pelo atentado contra a AMIA, Hussein Ahmad Karaki, líder do Hezbollah na região, segundo as autoridades argentinas, também é protegido desde 2004 pelo regime de Caracas com uma identidade venezuelana falsa.
O caso de Karaki não é isolado. De acordo com a oposição venezuelana, entre 2011 e 2019, o regime venezuelano emitiu mais de 10.000 passaportes para cidadãos do Oriente Médio, entre eles muitos membros do Hezbollah.
“Não é apenas um problema de corrupção do regime, mas de conivência”, afirma Ottolenghi. Segundo o especialista, existem inúmeros casos de iranianos e libaneses que, embora não residam na Venezuela, possuem um documento de identidade venezuelano para circular livremente pela América Latina.
Comércio ilícito de ouro
De acordo com um documento confidencial publicado no final de 2022 pela companhia de seguros Lloyds Marine, a Força Quds dos Guardiões da Revolução Islâmica do Irã (IRGC) e o Hezbollah têm transferido ilegalmente ouro da Venezuela para o Irã, contornando as sanções internacionais, para financiar as atividades terroristas da organização libanesa.
Entre as áreas de maior interesse para o Hezbollah está o Arco Mineiro do Orinoco, no estado de Bolívar. Trata-se de uma enorme área rica em recursos naturais, especialmente ouro, que se tornou palco de atividades mineradoras ilegais, nas quais o regime de Maduro e as organizações terroristas Cartel dos Sóis e Tren de Aragua colaboram entre si e com o grupo libanês.
“Há comerciantes de ouro libaneses nas zonas quentes do tráfico ilegal, enquanto as redes do Hezbollah atuam como intermediárias para facilitar a lavagem e a logística do transporte e da distribuição do precioso material”, afirma Ottolenghi. Segundo o especialista, além disso, Maduro vem usando há anos o ouro venezuelano para realizar transações diretamente com o Irã.
Um importante relatório de inteligência de agências do Oriente Médio, revelado pelo semanário colombiano Semana, revelou os perigosos vínculos entre o Cartel dos Sóis, liderado por Maduro e ligado a altos comandos militares do regime venezuelano, o Exército de Libertação Nacional (ELN) e o Hezbollah, também na zona fronteiriça entre a Colômbia e a Venezuela.
De acordo com o relatório, a aliança entre essas organizações tem como objetivo, além da extração ilegal de ouro, o tráfico de drogas e operações militares conjuntas. Enquanto o Cartel dos Sóis garante proteção política e militar, o Hezbollah fornece competências logísticas e redes internacionais.
“Foram documentados envios de cocaína para Apure, redirecionados por redes vinculadas ao Hezbollah, para mercados externos”, precisa o documento. A droga é enviada, aparentemente, por canais marítimos oficiais da Venezuela.
A presença do Hezbollah, facilitada pela estrutura criminosa estatal do regime de Maduro, torna a Venezuela mais do que uma simples fonte de rendimentos: ela serve como um centro logístico e financeiro seguro para projetar operações ilícitas em nível mundial. A convergência do tráfico de drogas, da mineração ilegal de ouro, da evasão de sanções (por meio de moedas estáveis) e do fornecimento de identidades falsas não só causa graves danos ambientais e instabilidade na bacia do Orinoco, mas também proporciona ao Hezbollah e seus patrocinadores iranianos os fundos e a liberdade operacional para manter suas ações militares no Oriente Médio. A colaboração entre esses atores representa, em última análise, uma ameaça direta à segurança, que se estende muito além das fronteiras da América Latina.


