Os perigos das possíveis exportações russas de tecnologia anti-VANT para a América Latina

Os perigos das possíveis exportações russas de tecnologia anti-VANT para a América Latina

Por Samuel Bendett, pesquisador adjunto sênior do Centro para uma Nova Segurança Americana (CNAS)
junho 17, 2021

A tecnologia de veículos aéreos não tripulados (VANTs) se difundiu mundialmente, resultando em inúmeras utilizações, tanto militares quanto civis. Com o aumento constante dos usos não militares, surgem as possibilidades e os perigos da má utilização de tal tecnologia. Atualmente, a região da América Latina (LATAM, por sua sigla em inglês) abriga importantes instalações de infraestrutura, portos e logística de indústrias extrativistas e de energia, além de causas e rivalidades geopolíticas concorrentes e sobrepostas, que podem se tornar alvos potenciais de uma lista crescente de atores beligerantes.

Após o aumento do uso dos VANTs pelas forças armadas na LATAM, muitos agentes e grupos não estatais, como cartéis de drogas, organizações criminosas, paramilitares, organizações terroristas, grupos políticos e oposicionistas passaram a adotar a tecnologia dos VANTs para impulsionar seus próprios objetivos. Nos últimos anos, ocorreram incidentes importantes envolvendo drones não autorizados que ameaçaram alvos políticos, militares e econômicos em todo o mundo.

Em anos recentes, forças sírias, iraquianas, russas e norte-americanas — e seus aliados e parceiros regionais — foram atacadas por pequenos drones comerciais que passaram a ser usados como VANTs de combate pelo Estado Islâmico (EI). Muitas vezes, os drones eram simplesmente acionados pelo EI para lançar granadas a partir de baixa altitude. Esses e muitos outros exemplos demonstram que tanto os drones comerciais quanto os militares representam um desafio que obriga os governos e o setor privado a adotarem tecnologias de combate ao VANT (também conhecidas como C-UAS, em inglês, ou contra sistemas aéreos não tripulados), para defender seus interesses. Em outros lugares do mundo, instalações de petróleo e gás, além de aeroportos civis, se tornaram alvos dos drones de combate mais sofisticados.

Em 2016, analistas e observadores da indústria de drones previram que, à medida que os VANTs começassem a se multiplicar em toda a LATAM, deveriam ser desenvolver medidas de combate a esses dispositivos em âmbito nacional, ou então importar esse tipo de soluções. Vender ou promover sistemas C-UAS poderia ser uma política de custo relativamente baixo e alto rendimento para Moscou, e seus avanços para desenvolver e usar esses sistemas merecem ser vistos com mais atenção. Hoje a Rússia é um dos principais centros de desenvolvimento dessas medidas defensivas, baseando-se em décadas de sua experiência em guerra eletrônica (EW, em inglês) e seu histórico militar na Síria. Em meio a essa corrida global por C-UAS, a Rússia poderia ocupar uma das principais posições de liderança nesse campo, cujo crescimento é muito rápido. Com uma ampla gama de potenciais ameaças representadas pelos VANTs em toda a região, a LATAM poderia ser um destino potencial para as exportações de dispositivos russos contra os drones.  Essa política poderia fortalecer ainda mais a posição da Rússia na região, unindo a venda e a transferência de tecnologia e treinamento de combate aos drones com as exportações de armas em curso.

Perigos de drones específicos para a LATAM

O uso não sancionado/ilegal dos VANTs em toda a LATAM vem crescendo na última década. Em novembro de 2017, a Polícia da Colômbia apreendeu 130 quilos de cocaína e um drone usado pelos narcotraficantes para supostamente enviar carregamentos da droga para o Panamá. Embora o uso de drones pelos cartéis de drogas da Colômbia seja um fenômeno relativamente novo, essa tática tem sido utilizada pelos cartéis mexicanos desde pelo menos 2010.

A Small Wars Journal, uma publicação americana, considerou o uso constante dos VANTs como a “mula perfeita”, que envolve menos riscos para as organizações do tráfico de drogas do que pilotos de aeronaves ou operadores de embarcações marítimas que poderiam ser capturados e interrogados. O uso de drones é uma opção mais barata em comparação aos custos associados ao uso de pessoas para traficar e transportar drogas. Os drones também são mais baratos do que construir e usar túneis, semissubmersíveis, navios e submarinos para transporte de drogas. Também é possível que os cartéis de drogas na LATAM aumentem o uso de drones aéreos, principalmente se essas organizações criarem modelos capazes de transportar mais peso e voar distâncias mais longas, a altitudes mais baixas.

Há exemplos recentes de VANTs utilizados pelas forças armadas do Azerbaijão e da China, que transformaram em drones as antigas aeronaves Soviet An-2 de passageiros e carga. Mais especificamente, um especialista em drones residente nos EUA alertou que, se for ampliada, essa tecnologia também permitiria aos cartéis operar a custos mais baixos, em comparação com os métodos tradicionais. De acordo com autoridades do governo dos EUA, os cartéis estão realmente buscando métodos alternativos de transporte. Quando a ameaça de potenciais ataques e assassinatos praticados por drones também é adicionada à lista, a necessidade de defesa com uso de C-UAS torna-se imperativa.

Tecnologia C-UAS russa

Um sistema de Guerra eletrônica contra drones Rex-2 é exibido na 24ª Exposição Internacional de Segurança Interna Interpolitex 2020, no Centro de Exibições VDNKh, em Moscou, Rússia.
Photo: Artyom Geodakyan/TASS Via Reuters)

Atualmente, as empresas de defesa russas estão fabricando diversos sistemas C-UAS para combater todos os níveis de ameaças. Muitos dos sistemas C-UAS russos são pequenos, portáteis e relativamente baratos, possibilitando uma provável exportação para a LATAM. Por exemplo, o Stilet é um sistema de escopetas de curto alcance que cabe em uma mochila. Sua aparência é de um híbrido de revólver e rifle de assalto que neutraliza o drone na linha de visão através de antenas direcionais. Outro exemplo é o denominado REX. Ele bloqueia os sinais geoespaciais do GPS, do GLONASS da Rússia, do BeiDou da China e do Galileo da Europa em um raio de 4,9 quilômetros, desativando a navegação do drone. O REX foi modernizado em 2019, supostamente com base na experiência russa na Síria, onde diversos sistemas C-UAS foram testados.

Outro sistema preparado para exportação é o Stupor, um “rifle” C-UAS utilizado pelas Forças Armadas russas na Síria. Essas tecnologias tão simples custam apenas alguns milhares de dólares cada, tornando-as potencialmente fáceis de comercializar. Sistemas C-UAS russos de maior porte já foram utilizados durante a Copa do Mundo de Futebol em 2018, e a indústria de defesa do país já comercializa uma série de sistemas para clientes nacionais, como companhias de petróleo e gás. A Rússia também começou a comercializar suas soluções C-UAS no exterior, para os antigos países soviéticos, a Europa Oriental e o Oriente Médio. Além da mais moderna tecnologia C-UAS, as Forças Armadas da Rússia têm décadas de experiência lidando com ameaças aéreas através de sistemas antiaéreos e de defesa aérea, muitos dos quais são testados diariamente na Síria. É provável que a Rússia possa fornecer treinamento adicional C-UAS com essas tecnologias de defesa aérea a seus parceiros na região.

A Rússia pode ter muitas vantagens, bem como desafios, com a exportação de suas tecnologias para a LATAM. Em primeiro lugar, a região está preparada para começar a utilizar a tecnologia C-UAS, considerando o número crescente de ameaças atuais e potenciais que representam os VANTs não sancionados ou ilegais. Além disso, a extensa infraestrutura de energia, transporte e lugares públicos em toda a região também poderia ser um alvo, com a relação custo-benefício diretamente a favor dos atacantes.

Em segundo lugar, a Rússia mantém diversos parceiros-chave na região, que poderiam ser potenciais compradores da tecnologia russa C-UAS. Cuba, Venezuela e Nicarágua são as nações parceiras mais próximas da Rússia na LATAM, e Moscou anseia expandir sua carteira de exportações para outros países da região. A Rússia poderia aproveitar os vínculos regionais já existentes para convencer os potenciais clientes de que seus sistemas são capazes de resolver os problemas da região. Por exemplo, em 2017, a Rússia inaugurou um centro de treinamento antinarcóticos na Nicarágua. Face à crescente ameaça dos drones ilegais na região, Moscou treinaria os participantes nos esforços de C-UAS e, ao mesmo tempo, promoveria a sua crescente lista de tecnologias e soluções.

Em terceiro lugar, Moscou estaria disposta a oferecer seus sistemas até mesmo aos clientes que estão atualmente em conflito uns com os outros. Por exemplo, a Rússia vendeu armas tanto para a Armênia como para o Azerbaijão, que estavam em conflito desde 1992. Algumas dessas armas permitiram que o Azerbaijão vencesse a resistência armênia na guerra Nagorno-Karabakh, em 2020. No início de 2021, a Rússia fez um acordo para vender armas ao Paquistão, o qual continua a ser um adversário da Índia, que é importadora de armas russas há muito tempo. Ao mesmo tempo, a Rússia pode se aproveitar dos relacionamentos existentes entre os militares e oferecer treinamento em C-UAS para as atuais unidades de defesa aérea de toda a região.

Atualmente, Moscou tem uma posição estável na LATAM através de exportações de muitas décadas, para diversos países. À medida que a Rússia aumenta seus esforços contínuos para desenvolver sistemas contra os VANTs, estaria preparada para entrar no mercado emergente C-UAS da LATAM, considerando a relação custo-benefício dessa tecnologia. Seria importante também monitorar como esse mercado está se desenvolvendo em toda a LATAM, avaliando as preferências específicas da região na aquisição de sistemas russos ou de outras procedências.

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