Crime organizado ataca caminhões comerciais transportando álcool na América Latina

Por Dialogo
outubro 22, 2013




As forças de segurança de toda a América Latina combatem o ataque a veículos para o sequestro de caminhões e trens comerciais, realizado pelo crime organizado. Os roubos de cargas estão causando um prejuízo anual de bilhões de dólares a operadores de caminhões e trens, varejistas, restaurantes e consumidores. Segundo analistas de segurança, essas perdas não apenas prejudicam pessoas e seus negócios, mas também afetam negativamente a economia de países inteiros.
Dois dos três países que sofreram os mais altos índices de roubo de carga no mundo em 2012 e no primeiro semestre de 2013 – Brasil e México – são do continente latino-americano, de acordo com relatório da FreightWatch International, uma empresa de segurança global.
A empresa trabalha com muitas companhias de transporte de caminhões e operadoras de trens. O Brasil foi o país que sofreu o mais alto índice de roubo de cargas, seguido pela África do Sul e o México, de acordo com o relatório da FreightWatch.

De comida a produtos eletrônicos

Caminhões e trens comerciais transportam vários tipos de produtos por todo o continente latino-americano. Os membros do crime organizado geralmente escolhem caminhões e trens que transportam gêneros alimentícios, incluindo bebidas alcoólicas, segundo o relatório da FreightWatch. Os criminosos também roubam materiais de construção, tais como carregamentos de aço e madeira, cigarros e material eletrônico, como aparelhos celulares, computadores e televisores.
Os grupos do crime organizado preferem esses produtos por poder vendê-los rapidamente por um lucro fácil, disse Ron Greene, vice-presidente de operações globais da FreightWatch. A empresa também trabalha com autoridades policiais e militares para fornecer segurança para caminhoneiros e maquinistas de trens comerciais.

Brasil

"O Brasil sofre mais de 10.000 roubos de carga por ano", disse Greene. “Nós temos alguns relatórios que dão essa informação”. Ele assinalou que Brasil e Argentina possuem as taxas mais altas desse tipo de roubo no hemisfério sul.
Segundo relatórios publicados, roubos de telefones celulares e outros artigos eletrônicos custam cerca de US$ 49 milhões (R$ 107 milhões) por ano à economia brasileira, Ao todo, os roubos de todos os tipos de carga custam US$ 442 milhões (R$ 964 milhões) à economia do país. O problema é tão grave que algumas seguradoras recusam-se a dar cobertura a certos produtos, tais como equipamento eletrônico e cigarros, que são comumente roubados por ladrões no Brasil.
Aproximadamente 25% de todos os assaltos a veículos de transporte de carga no Brasil ocorrem em dois trechos da Rodovia BR-116, o trecho no estado de São Paulo até o Rio de Janeiro, conhecido como Rodovia Presidente Dutra (ou Via Dutra), e o trecho entre São Paulo e Curitiba, conhecido como Rodovia Régis Bittencourt. De acordo com autoridades, o fato de essa rodovia ser próxima a grandes cidades, onde mercadorias roubadas podem ser rapidamente vendidas e distribuídas, a torna atraente para os criminosos.
Ladrões de carga no Brasil geralmente roubam gêneros alimentícios, bebidas, artigos eletrônicos, cigarros e medicamentos, de acordo com a Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística.

Iniciativa de segurança

Nas últimas semanas, a Federação de Transporte de Cargas assinou um acordo com a Polícia Civil brasileira para juntas desenvolverem estratégias para combater o roubo de cargas em todo o país.
O acordo é um avanço positivo, afirmou Green.
Estamos observando bem de perto, nós defendemos a ideia de uma mudança e temos esperança que vamos conseguir juntos, com a aplicação da lei, os militares e o setor privado, mitigar esse risco”, declarou Green. “É necessária uma ação coordenada para combater o roubo de cargas. Estamos muito otimistas que vamos melhorar isso.”

Segurança melhorada na Argentina

Na Argentina, a incidência de roubos de carga teve uma redução de 1.707 em 2011 para 1.211 em 2012, uma diminuição de 29%. Mais de 50% desses crimes ocorrem na região de Buenos Aires, segundo as autoridades.
Uma maior vigilância da polícia em rodovias onde o roubo de cargas é preponderante ajudou a reduzir a incidência desse tipo de crime, informaram as autoridades.
Em agosto de 2013, as autoridades criaram uma agência governamental para combater o roubo de cargas. A agência abrange o Ministério de Segurança e Justiça, o procurador-geral da cidade de Buenos Aires, o Ministério da Saúde e o Escritório de Segurança, a Diretoria Nacional de Migração e a Agência de Análise da Província de Buenos Aires.

Guatemala

As forças de segurança da Guatemala também estão lutando contra os altos índices de roubo de cargas.
O Ministério Público da Guatemala fez uma estimativa de que os ladrões de carga cometeram uma média de 18 assaltos a caminhões comerciais por semana em 2010, de acordo com um estudo intitulado “A Segurança da Cadeia de Suprimentos na América Latina”. O relatório foi publicado em março de 2013 pela Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL). A polícia guatemalteca relatou níveis mais altos de roubos de caminhões – uma média de 200 ocorrências por mês em 2010.
A maior parte desses assaltos ocorreu na Rodovia Interamericana (CA-1), Rodovia Atlântica (CA-9) e Rodovia do Pacífico (CA-2). Os assaltantes realizam seus ataques geralmente nos departamentos de Escuintla, Santa Rosa, Retalhuleu e Suchitepequez.

Colômbia

A Colômbia realizou grandes avanços no aprimoramento da segurança de entregas de carga.
Em 2000, as autoridades registraram 3.260 ocorrências de roubos de carga, segundo o Ministério da Defesa Nacional. Ocorreram apenas 214 roubos de carga entre janeiro e agosto de 2013, de acordo com o Ministério.
A Colômbia tem combatido o roubo de cargas por mais de uma década. De acordo com estatísticas divulgadas pelo Ministério da Defesa Nacional, ocorreram no país 3.260 roubos de carga em 2000 e apenas 214 entre janeiro e agosto de 2013.
Muitos dos ladrões eram membros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e do Exército de Libertação Nacional (ELN), duas organizações rebeldes envolvidas com roubo de cargas e outras atividades criminosas.
Para combater os ladrões de carga, as autoridades colombianas estabeleceram em 2001 uma parceria entre a Polícia Nacional e líderes empresariais. Os empresários trabalharam em colaboração no combate ao roubo de cargas, geralmente por compartilhamento de informação. A ação é denominada Frente de Segurança Empresarial.
“Este programa provou possuir uma excelente capacidade de resiliência para superar a enorme quantidade de ações criminosas que afetaram não apenas a cadeia de suprimentos colombiana, mas também a cidadania”, disse Orlando Hernández, consultor privado de administração de riscos em Bogotá.
De uma forma geral, a Colômbia melhorou muito nos últimos anos. Nos últimos meses, o presidente do país, Santos Calderón. anunciou seu plano de contratar mais 1.000 novos policiais para o Departamento da Polícia Metropolitana de Cáli.

México

No México, o roubo de cargas de caminhões e trens comerciais realizado pelos Los Zetas, o Cartel do Golfo (CDG), La Familia Michoacana e outras organizações criminosas transnacionais tem reduzido, graças à ação de segurança realizada pela Polícia Federal (PF) e agências governamentais de repressão estaduais e municipais.
Entre 1º de janeiro e 30 de junho de 2012, as empresas transportadoras de cargas registraram 963 roubos a caminhões e trens de carga no país, segundo o FreightWatch. Durante o mesmo período em 2013, as transportadoras registraram 598 incidências desse tipo de crime, uma redução de quase 30%.
As autoridades atribuem essa redução a uma ação lançada pela Comissão Nacional de Segurança (CNS). As autoridades identificaram regiões em cada um dos 31 estados e o Distrito Federal, onde havia maior incidência de roubos de carga, e enviaram mais de 2.600 agentes da PF, policiais municipais e estaduais, assim como Fuzileiros Navais a essas áreas para aumentar a segurança.

Táticas de roubo de cargas

Os ladrões de carga utilizam várias táticas, de força a trapaça, para cometer seus crimes.
No Peru, por exemplo, mais de 50% de todos os roubos de carga terminam em ferimentos graves ou morte das vítimas, os caminhoneiros ou maquinistas de trem. Assaltantes armados muitas vezes forçam os caminhões comerciais para fora da estrada e retiram a carga sob a mira de uma arma de fogo e muitas vezem espancam ou atiram no motorista. Ou ainda, os ladrões armados embarcam em trens nas paradas e levam a carga à força.
Alguns ladrões de carga se valem de trapaças, vestindo uniformes de policiais ou militares e estabelecem um falso posto de controle. Esses criminosos roubam a carga quando os motoristas param por acreditar no falso posto.
Alguns grupos do crime organizado obtêm informações internas de funcionários das empresas de transporte, tais como as rotas utilizadas pelos caminhoneiros, para planejar os ataques.
“As organizações criminosas possuem informantes internos que fornecem os detalhes do caminhão e seu carregamento, então eles [os criminosos] apenas esperam a hora certa para assaltar”, disse Greene.

Problema internacional

Segundo Greene, o roubo de cargas é um problema internacional que afeta empresas e consumidores, e atinge negativamente a economia global.
“Os roubos de carga afetam todo mundo”, disse Greene. “Isso custa muito dinheiro, traduz-se em maiores custos para as empresas de segurança e de seguro, e em preços mais altos dos produtos para os consumidores.”
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