Aproveitando sua localização geoestratégica, que inclui numerosos pontos de trânsito e acesso costeiro, juntamente com o desafio que representa a vigilância e o controle dos precursores químicos, o Caribe incorporou-se rapidamente ao mercado internacional de drogas sintéticas. De acordo com relatórios recentes da Organização dos Estados Americanos (OEA) e do Gabinete das Nações Unidas para Drogas e Crimes (UNODC), substâncias perigosas, como o fentanil e a cocaína rosa, uma mistura composta principalmente por ecstasy e cetamina, estão se espalhando rapidamente na região, não apenas em termos de consumo, mas também de produção e tráfico.
“O Caribe é uma ponte direta entre os maiores produtores de cocaína e drogas sintéticas e os principais portos de acesso à Europa, principalmente os portos da Espanha, Bélgica, Países Baixos e Alemanha, onde máfias locais se encarregam da distribuição para o resto do continente”, explica à Diálogo Alejo Campos, diretor regional para o Caribe, Bermudas e América Latina da organização não governamental Crime Stoppers.
Trata-se das mesmas rotas de tráfico de pessoas e de armas e comércio ilícito, que utilizam diferentes esquemas de lavagem de dinheiro. “São utilizados principalmente ativos e moedas digitais, para realizar transações difíceis de detectar e perseguir, especialmente por países do Caribe que não estão preparados para a rápida evolução da criminalidade organizada”, afirma Campos.
O Caribe é uma vasta região de cerca de 3 milhões de quilômetros quadrados, sobre a qual pesa cada vez mais a expansão do narcotráfico gerado em vários países da América Latina, entre eles a Venezuela. A dependência do regime de Nicolás Maduro dos rendimentos provenientes do crime desestabilizou profundamente as cadeias de abastecimento regionais.
“Países com regimes acusados de corrupção vinculados ao narcotráfico têm extensas costas no mar do Caribe, que funcionam como uma fronteira marítima extremamente porosa”, diz Campos.
Segundo o especialista, a isso se soma o desafio que representa a alocação de recursos para levar a cabo uma luta eficaz contra os precursores químicos na região e a proliferação de cozinhas ou laboratórios clandestinos, muitas vezes móveis, de drogas sintéticas que, além disso, conseguem a independência dos tradicionais cartéis produtores latino-americanos, criando uma economia criminosa autossustentável.
O auge do fentanil
Na Venezuela, o presidente da Faculdade de Medicina do Estado de Aragua, Ramón Rubio, deu o alarme sobre o grave problema de saúde pública causado pela produção e consumo ilegais de fentanil. Já em 2023, em San Antonio del Táchira, foram interceptadas 45 doses desse opioide sintético mortal. Em El Salvador, foram apreendidos até o momento 500 frascos de fentanil, enquanto na Costa Rica, somente na capital, San José, as apreensões de comprimidos falsificados de fentanil aumentaram de 1.201 unidades para mais de 20.000 entre 2023 e 2025.
A gravidade dessa ameaça atingiu um ponto de inflexão histórico em 15 de dezembro de 2025, quando os Estados Unidos designaram formalmente o fentanil ilícito e seus principais precursores químicos como armas de destruição em massa, afirmando que o fentanil está “mais próximo de uma arma química do que de um narcótico”. Essa mudança na designação destaca que a produção da droga por redes criminosas organizadas não é mais vista como uma questão de narcóticos, mas como uma ameaça significativa à segurança nacional que alimenta a ilegalidade em todo o hemisfério.
O que faz com que a situação no país seja especialmente crítica não é apenas o consumo, mas também a produção. De acordo com Manuel Jiménez Steller, vice-ministro de Unidades Especiais do Ministério de Segurança Pública da Costa Rica, foram identificados laboratórios clandestinos de opioides no país. “Temos provas concretas de uma produção artesanal. Encontramos contêineres, máquinas de lavar e provas de processamento”, declarou ao jornal mexicano El Universal. “Estamos nos concentrando na raiz do problema: os importadores, os precursores e as pessoas que manuseiam essas substâncias”, acrescentou.
“As gangues e grupos locais se fortaleceram ao se associarem aos principais atores da cadeia logística do narcotráfico, pois operam como o braço local das estruturas transnacionais”, diz Campos. Segundo o especialista, dessa forma, eles conseguem uma governança criminosa, na qual a população fica presa em uma violência dominada por uma forte presença de armas de fogo ilegais, que são necessárias para exercer o controle territorial, ameaçar e extorquir as comunidades.
De acordo com um relatório recente da Direção Nacional de Controle de Drogas (DNCD) e do Conselho Nacional de Drogas da República Dominicana, o país caribenho se tornou um ponto de trânsito para o tráfico de drogas sintéticas da América Latina para os Estados Unidos.
A isso se soma um fenômeno recente de proliferação de sites de farmácias falsas com servidores no país, que vendem medicamentos falsificados, entre eles o fentanil, a baixo custo em todo o mundo. Uma dessas redes era administrada a partir da República Dominicana por Francisco Alberto López Reyes, acusado nos Estados Unidos junto com outras 17 pessoas, por sua participação em um plano destinado a publicitar, vender, produzir e enviar milhões de comprimidos mortais camuflados como produtos farmacêuticos legítimos.
A partir do país caribenho, Reyes gerenciava toda a logística, desde a produção até as falsas farmácias online, onde os comprimidos eram vendidos, passando pela cadeia de pagamentos em criptomoedas. Na verdade, a República Dominicana é usada para a lavagem de rendimentos provenientes do tráfico de drogas sintéticas. De acordo com o relatório de abril de 2025 da Rede de Controle de Crimes Financeiros (FinCEN), a República Dominicana ocupa o sexto lugar entre os países com mais operações suspeitas de lavagem de dinheiro de fentanil.
Outras drogas sintéticas
O impacto social dessa expansão criminosa é profundo. “A presença crescente de drogas sintéticas gerou um aumento nos índices de consumo e dependência, especialmente entre jovens e populações vulneráveis, o que, por sua vez, aumenta os problemas de saúde pública e deteriora o tecido social”, diz Campos. Segundo o especialista, a normalização da economia ilegal e a insegurança contribuem para a migração forçada e a perda de confiança nas instituições, agravando a exclusão social e a desigualdade na região.
De acordo com relatórios publicados pela Junta Internacional de Fiscalização de Estupefacientes das Nações Unidas, o mercado de metanfetamina e cocaína rosa também está crescendo. Na Costa Rica, em 2023, foi apreendida uma quantidade recorde de 580.000 doses de metanfetamina. El Salvador também relatou um aumento nos envios de metanfetamina, a partir da Guatemala, nos últimos quatro anos. O tráfico de drogas sintéticas no Caribe também envolve criminosos das máfias da China, como demonstra a apreensão, em 2022, de mais de 12 kg de cetamina em Trinidad e Tobago e a detenção dos quatro chineses proprietários da droga. “O que é evidente em nossas ilhas é um aumento no consumo de substâncias sintéticas, como o fentanil e a MDMA, mais conhecida como Molly”, declarou Patrick George, presidente interino de Narcóticos Anônimos, em Trinidad e Tobago, ao canal de televisão local Tobago Updates, em setembro de 2025.
“Para combater o problema, é fundamental fortalecer efetivamente a cooperação entre os países, fortalecendo espaços como o Conselho de Aplicação da Lei Aduaneira do Caribe (CCLEC) ou a Associação de Comissários de Polícia do Caribe (ACCP), no âmbito da CARICOM e de iniciativas como o PAcCTO 2.0, acompanhado de uma maior presença de autoridades dos países de destino das drogas, como os Estados Unidos e os países da Europa”, disse Campos.
Segundo o especialista, compreender o fenômeno implica entender a rota criminosa pelo Caribe, investigar o ecossistema criminoso em sua totalidade, com um enfoque de convergência criminosa, e concentrar os esforços das autoridades em fechar os mecanismos de financiamento ilícito dessas rotas.
“Devemos entender o fenômeno [do crime] de forma holística, onde os portfólios de bens e serviços criminosos incluem drogas, mas também comércio ilícito, tráfico de pessoas, tráfico de armas, lavagem de dinheiro, crimes cibernéticos e plataformas digitais cada vez mais avançadas”, conclui Campos.