Nicarágua: Teatro Popular com Reminiscências Indígenas Em Festas Patronais

Por Dialogo
janeiro 21, 2009

Um teatro popular de reminiscências indígenas se transformou, nesta semana, nas ruas de ‎Diriamba, em uma mistura de cultura e religião, principal atrativo das festas patronais em que ‎milhares de nicaraguenses celebram São Sebastião, a quem atribuem poderes milagrosos.‎ O “El Güegüense”ou “Macho Ratón”, o “Toro Guaco”, os “Diablitos”, as “Inditas” e outros ‎personagens do folclore, que têm sua origem na colônia espanhola como uma expressão de ‎rebeldia dos indígenas contra seus conquistadores, se apresentam durante oito dias nesta cidade ‎de estrutura colonial, localizada no chamado pequeno planalto dos povos, a 50 km do nordeste ‎de Manágua.‎ Esses grupos, integrados em sua maioria por fiéis que pagam a São Sebastião por algum favor ‎recebido, dançam em trajes chamativos, sob os olhos de centenas de pessoas que chegam de todo ‎o país, incluindo estrangeiros, que se aglomeram nas antigas praças locais.‎ Os personagens do El Güegüense ou Macho Ratón saem disfarçados de espanhóis, com máscaras ‎brancas, olhos azuis, barbados e loiros, e roupas de cores vivas, com lantejoulas, representando ‎classes médias e altas.‎ Os mestiços são representados com bigodes escuros, chapéus de palha, calçam sandálias ou vão ‎descalços e levam um chocalho (guizo) pontiagudo, de metal.‎ Outros vão descalços, usam vestes com lantejoulas, máscaras de cavalo com crina de corda e ‎também carregam um chocalho metálico, enquanto as mulheres não usam máscaras e vestem ‎vestidos longos, colares e brincos.‎ Esta obra do teatro popular que expressa a rejeição da colônia espanhola de maneira ridícula e ‎inteligente foi declarada, em 2005, pela UNESCO, “Patrimônio Vivo, Oral e Intangível da ‎Humanidade”.‎ Os personagens do Toro Guaco levam um penacho enfeitado de flores de tecido e plumas de ‎pavão de verdade. Dançam em círculo com passos para trás e para os lados, enquanto os ‎diabinhos usam disfarces como a morte, animais e personagens das histórias de terror abundantes ‎no acervo cultural nicaraguense.‎ Os instrumentos usados nas suas danças são uma variedade de sincretismo cultural dos povos ‎indígenas e influência espanhola combinando o tambor, a flauta, a guitarra, a marimba e os ‎chocalhos.‎ ‎“Tenho 11 anos de trajetória dançando para Santiago. Minha mãe tinha uma doença e ela pediu ‎a São Sebastião e ele a curou desse mal. Minha promessa já foi paga, mas não falto à festa até o ‎dia em que Deus me levar”, disse César Rojas, trajando uma fantasia de morte.‎ A festa começou na segunda-feira com uma romaria de cinco quilômetros de Diriamba a ‎Dolores, onde acontece o chamado “topo” dos santos, em que são reunidas as imagens de ‎Santiago, São Sebastião e São Marcos.‎ No santuário de Dolores os três santos se juntam com a imagem de La Dolorosa, que dão as ‎boas-vindas em meio ao som dos sinos, uma rajada de fogos de artifício, aplausos e música de ‎instrumentos de sopro.‎ No primeiro dia da festa, os paroquianos montam barracas e distribuem comida gratuitamente ‎como uma forma de pagar alguma promessa.‎ Segundo a tradição, a celebração teve sua origem em tempos de colônia com a descoberta das ‎imagens de Santiago e São Sebastião pelos indígenas que as levaram ao curandeiro, que por sua ‎vez as distribuiu em Jinotepe e Diriamba. No entanto, cada dia as imagens trocavam ‎milagrosamente de cidade, para a surpresa dos fiéis, que por sua vez as destrocavam.‎ O curandeiro de Jinotep instruiu os fiéis a cumprirem a vontade dos santos de permanecerem na ‎cidade eleita, a qual eles se dispuseram a cumprir, voltando a trocar a imagem. Assim, vizinhos ‎de ambas as cidades se encontravam no caminho (povo de Dolores) com seu respectivo santo, ‎acontecendo então o que ficou conhecido como “o topo” (o encontro).‎
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