Nicarágua enfrenta a COVID-19 sem a ajuda de Ortega

Nicarágua enfrenta a COVID-19 sem a ajuda de Ortega

Por Gustavo Arias Retana/Diálogo
maio 11, 2020

O presidente da Nicarágua Daniel Ortega ignora as recomendações de especialistas nacionais e estrangeiros para fazer frente à COVID-19, o que torna o país um dos mais fragilizados da região para enfrentar a pandemia. Ao invés de promover o distanciamento social, as autoridades organizam concertos, marchas e torneios de boxe, contrariando as recomendações da Organização Pan-Americana de Saúde e do Comitê Científico Multidisciplinar, uma ONG nicaraguense que monitora e informa sobre o vírus.

“Com a COVID-19, há duas caras da mesma moeda. Por um lado, o Estado alega que não se trata de um problema; por outro, há um grupo de profissionais que consideramos o vírus um grande problema e estamos alertando a população de que isto vai golpear o país”, disse à Diálogo Leonel Argüello, epidemiologista nicaraguense integrante do Comitê. “Do ponto de vista epidemiológico, não há razão para que o vírus não esteja circulando, pois não houve restrições, não houve quarentena e não foram adotadas as medidas recomendadas.”

“A situação é incerta. Existem relatos de muitas pessoas que foram hospitalizadas e não foram incluídas nos relatórios oficiais; atitudes como essas impedem que se conheça a real situação da curva de contágio”, disse à Diálogo Álvaro Ramírez, epidemiologista nicaraguense radicado na Irlanda. “Isto é desconcertante, pois eles criam uma falsa sensação de segurança; promovem mobilizações em massa e eventos políticos e sociais sem qualquer tipo de controle.”

Sistema de saúde em decadência

Uma das maiores preocupações dos especialistas é que a ausência de ação de Ortega cause um surto do vírus, o que fará com que o sistema de saúde nicaraguense entre rapidamente em colapso.

“O sistema de saúde conta com muito poucos especialistas e vem sendo administrado por clínicos gerais”, disse Ramírez. “Na Nicarágua, confia-se extremamente em um sistema de visitas [domiciliares] que deveria servir para prevenção, mas que nesse caso se torna um risco.”

Segundo uma projeção elaborada pelo sanitarista Carlos Hernández, também membro do Comitê, uma vez que o surto da COVID-19 germine na Nicarágua, a capacidade do seu sistema de saúde estaria esgotada em 23 dias.

O estudo O impacto global da COVID-19 e estratégias para a mitigação e supressão, publicado no dia 26 de março pela Faculdade de Medicina do Imperial College de Londres, calcula que se não forem adotadas medidas de prevenção e distanciamento social na Nicarágua, 91 por cento da população será afetada pelo coronavírus em um ano, o que representa cerca de seis milhões de infectados e aproximadamente 24.000 mortos.

De acordo com a base de dados da Organização Mundial da Saúde, na Nicarágua existem apenas 0,9 leitos hospitalares para cada 1.000 habitantes. Outro dado preocupante é que o número oficial de respiradores do sistema de saúde não seja público, mas jornais locais como El Confidencial garantem que a cifra total estaria em torno de 160 respiradores e que 130 desses aparelhos já estão sendo utilizados para atender pacientes com outras enfermidades.

Tanto Ramírez como Argüello acreditam que a combinação desses fatores na Nicarágua fará com que os casos de COVID-19 se multipliquem nas próximas semanas.

“Nós acreditamos que a curva começará a subir e não conseguiremos detê-la”, disse Argüello. “É um gerenciamento temerário. Poderemos esperar uma curva ascendente exponencial muito rápida, pois temos um sistema de saúde debilitado que não tem a capacidade necessária”, acrescentou Ramírez.

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