O General de Brigada Flávio Moreira Mathias, do Exército Brasileiro, um oficial militar altamente treinado, com uma sólida e extensa formação militar, está excepcionalmente bem preparado para sua função atual de promover parcerias internacionais. Com uma base construída em estudos estratégicos avançados e treinamento especializado em diversos ambientes operacionais, incluindo missões de manutenção da paz da ONU, o Gen Bda Mathias traz uma vasta experiência para o seu cargo de vice-diretor de nações parceiras na Diretoria de Estratégia, Política e Planos (J5), do Comando Sul dos Estados Unidos (SOUTHCOM). Sua carreira destaca o papel fundamental da educação militar abrangente, para possibilitar uma colaboração global eficaz.
Diálogo conversou recentemente com o Gen Bda Mathias no quartel-general do SOUTHCOM, para discutir seu papel central na contribuição para traduzir as visões estratégicas do Comando em planos e iniciativas tangíveis, ao mesmo tempo em que reforça a parceria de longa data entre o Brasil e os Estados Unidos.
Diálogo: Gen Bda Mathias, muito obrigado por dedicar seu tempo para falar um pouco sobre o que o senhor faz aqui no SOUTHCOM. Há quanto tempo o senhor é oficial de intercâmbio do Brasil no SOUTHCOM?
General de Brigada Flávio Moreira Mathias, do Exército Brasileiro, vice-diretor de Nações Parceiras da Diretoria de Estratégia, Política e Planos (J5) do SOUTHCOM: Primeiramente, gostaria de agradecer a oportunidade de estar apresentando um pouco do meu trabalho e da cooperação militar entre o Brasil e os Estados Unidos. Eu já estou há um ano no SOUTHCOM e tenho mais um ano pela frente, pois a missão do oficial de intercâmbio aqui é por dois anos. É um rodízio das três Forças Armadas do Brasil que começou em 2020, primeiro com a Força Aérea Brasileira, depois com a Marinha do Brasil e agora é a vez do Exército Brasileiro. Eu sou o terceiro oficial a ocupar essa função.
Diálogo: Quão importante é para as Forças Armadas do Brasil participar do Programa de Oficiais de Intercâmbio do SOUTHCOM e qual é o impacto profissional para o senhor?
Gen Bda Mathias: Essa participação é muito importante. Em primeiro lugar, porque fortalece a cooperação histórica e a parceria que nós, as Forças Armadas do Brasil, temos com os Estados Unidos, desde a Segunda Guerra Mundial, que foi quando essa parceria se fortaleceu e se consolidou. Também ajudo a facilitar a cooperação militar entre os dois países e, sempre que há uma oportunidade de intercâmbio internacional, é uma oportunidade também de as Forças Armadas brasileiras mostrarem o profissionalismo do seu pessoal, profissionalismo que as nações parceiras reconhecem desde a Segunda Guerra Mundial. Participamos de várias missões da ONU, principalmente no Haiti e no Congo. A missão no Haiti, que já foi concluída, foi comandada por um general brasileiro e, no Congo, agora é um general brasileiro, o General de Divisão Ulisses de Mesquita Gomes, que também foi adido militar do Brasil em Washington.
Diálogo: Quais são os principais objetivos da sua missão como representante do Brasil no SOUTHCOM?
Gen Bda Mathias: Na minha função aqui, como oficial de intercâmbio, eu sou o vice-diretor de Nações Parceiras do J5, que é a Diretoria de Estratégia, Política e Planos do SOUTHCOM. Há dois objetivos para a minha presença aqui, de acordo com o memorando de entendimento que foi acordado entre o Ministério da Defesa do Brasil e o SOUTHCOM. O primeiro é adquirir conhecimentos e experiência em operações conjuntas, operações multinacionais e em cooperação militar entre países. O segundo objetivo, como parte do Estado-Maior, é contribuir com minha experiência e conhecimento. Trabalhei no Estado-Maior do Exército, na sessão de Política e Estratégia, onde presto assessoria, apoio e apresento minhas perspectivas e percepções, quando os planejamentos são realizados pelo J5.
Diálogo: Parte da sua missão como oficial de intercâmbio inclui fortalecer a cooperação entre as Forças Armadas do Brasil e seus homólogos dos EUA. Que tipo de programas e exercícios de treinamento em conjunto estão trabalhando até agora?
Gen Bda Mathias: Na minha função no nível de planejamento e estratégia do Estado-Maior Conjunto, eu não participo efetivamente de exercícios, mas participo de reuniões, encontros de líderes, conferências, intercâmbios de especialistas e coordenação para a realização de exercícios, dos quais os principais são: UNITAS, o exercício multinacional mais antigo do mundo; PANAMAX do qual participamos há bastante tempo; e Southern Vanguard, que, para nós no Brasil, é a operação CORE [Exercício de Operações Combinadas e Rotação]. Também participo de intercâmbios relacionados ao desenvolvimento de materiais. Por exemplo, desenvolvemos conjuntamente com os Estados Unidos um satélite chamado SPORT [Tarefa de Pesquisa de Observações de Previsão de Cintilação, uma missão conjunta entre a NASA e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, para estudar fenômenos na atmosfera superior da Terra, que podem afetar as comunicações], e agora estamos coordenando o desenvolvimento de uma constelação de satélites chamada ITASAT 2 –. Também participo de intercâmbios de ciberdefesa, que é um assunto muito importante no dia de hoje, bem como de várias outras atividades que a gente realiza em parceria com os Estados Unidos.
Diálogo: Agora que o senhor mencionou exercícios específicos, falemos do CRUZEX. O Brasil lidera o CRUZEX, um dos maiores exercícios multinacionais do mundo e o maior da América Latina. Quais foram as lições aprendidas com a edição de 2024 e quais serão as novidades para a próxima versão? Qual é o papel do oficial de intercâmbio no CRUZEX?
Gen Bda Mathias: Eu participo nas coordenações iniciais. O CRUZEX é um exercício que aconteceu no ano passado pela nona vez. Já é um exercício tradicional para a Força Aérea Brasileira e, como mencionou, é o maior exercício multinacional no Hemisfério Sul. No ano passado, 15 países participaram do exercício, com mais de 3.500 militares e 100 aeronaves, realizando mais de 900 missões aéreas. Realmente, são números impressionantes, especialmente considerando o número de países envolvidos, e isso é fundamental para a Força Aérea, pois desenvolve capacidades de coordenação. Coordenar forças armadas de diferentes países é sempre um desafio muito grande, em termos de interoperabilidade, e a Força Aérea considera isso um aspecto importante do seu adestramento. A próxima edição está prevista para 2028, dentro de três anos e, no ano passado [2024], acompanhando a evolução dos conflitos mundiais, também foram implementadas ações de ciberdefesa e operações espaciais no domínio espacial.
Diálogo: O Brasil também participa do Southern Vanguard, ou CORE. O que o senhor pode nos dizer sobre a próxima edição do CORE?
Gen Bda Mathias: Para nós aqui no SOUTHCOM, o Southern Vanguard ou CORE é um exercício muito importante. Ele começou em 2021 e, para o Exército Brasileiro, foi uma evolução muito grande em nosso adestramento, porque estamos treinando com o Exército dos EUA, que tem uma vasta experiência em combate. Isso nos dá um referencial de adestramento, uma chance de alcançar níveis mais altos e até mesmo avaliar-nos, avaliar como estamos conduzindo nosso treinamento. É um exercício multinacional em rotação, que alterna lugares entre o Brasil e os Estados Unidos, alternando também as especialidades. Começou com operações de assalto aéreo, depois operações em ambiente de selva e, esse ano, no Brasil, estão previstas operações em ambiente desértico, na região nordeste do país. Portanto, no caso do Brasil, nossas brigadas especializadas, as forças de ação rápida, que são treinadas para mobilização imediata, são as que participam. Essa rotação de ambientes ou de especialidades contribui muito para o nosso adestramento.
Diálogo: Sua carreira militar profissional o levou ao redor do mundo, da Guatemala ao Haiti, Espanha e Indonésia, para mencionar alguns países. Quão importante é a colaboração internacional e, mais especificamente, do Programa de Intercâmbio de Oficiais do SOUTHCOM, para fortalecer a segurança e combater as ameaças comuns?
Gen Bda Mathias: Eu acho que a colaboração internacional é importante e o objetivo principal é a interoperabilidade. Então, ao trabalhar juntos, como mencionei anteriormente com a Operação CORE, observamos em cada rotação com o Exército dos EUA que há um desenvolvimento de conhecimento mútuo, o que facilita muito as operações. Então, para mim, essa é a principal ferramenta para desenvolver a interoperabilidade: exercícios, intercâmbios, treinamentos, cursos também, mas os exercícios são o principal. Como eu costumo dizer, quando ocorre uma situação real, uma emergência, não temos tempo de aprender. A melhor maneira é trabalhar e exercitar-nos antes. Então, toda essa colaboração e, claro, os exercícios no nível mais alto, são ótimas ferramentas que temos para incrementar a interoperabilidade, o conhecimento mútuo e a confiança, para que, quando for necessário, possamos ser mobilizados juntos sem qualquer dificuldade.
Diálogo: Que lições em cooperação o senhor espera levar de volta ao Brasil, quando terminar a sua missão no SOUTHCOM?
Gen Bda Mathias: Eu aprendi muito com relação à organização militar dos EUA, sua doutrina, o processo de planejamento, a cultura, que é muito importante, pois a cultura de cada povo influencia na sua maneira de resolver os problemas militares. Ver no dia a dia como os militares dos EUA pensam e resolvem os problemas militares, para mim tem sido uma grande experiência de ensinamento. Mas eu acho que o mais importante são as amizades que fazemos, porque, por mais virtual que seja o mundo, com videoconferências e grandes avanços nas comunicações, eu acho que o conhecimento interpessoal nunca será substituído. E, falando de cooperação e interoperabilidade, quando conhecemos pessoalmente nossos colegas, isso facilita muito. As amizades que eu fiz aqui, durante este ano, e que eu tenho certeza de que ainda vou fazer, serão um importante aspecto do fortalecimento da cooperação militar Brasil-Estados Unidos.
Diálogo: General de Brigada Flavio Moreira Mathias, oficial de intercâmbio do Brasil no SOUTHCOM, muito obrigado pelo seu tempo e espero que nos vejamos novamente em breve.
Gen Bda Mathias: Mais uma vez, agradeço a oportunidade e espero contribuir muito este ano para o trabalho aqui no SOUTHCOM, para fortalecer a nossa parceria histórica.


