Lealdade e medo: os vínculos entre militares e Maduro impedem que se repita na Venezuela o que ocorreu na Bolívia

Lealdade e medo: os vínculos entre militares e Maduro impedem que se repita na Venezuela o que ocorreu na Bolívia

Por Ricardo Guanipa D’erizans/Diálogo
dezembro 20, 2019

Depois de várias semanas de protestos nas ruas da Bolívia, os militares do país andino mudaram de posição e apoiaram os manifestantes. O comandante das Forças Armadas da Bolívia, Williams Kaliman, pediu a Evo Morales que renunciasse para garantir a paz no país e, no dia 10 de novembro de 2019, o presidente se demitiu do cargo.

Os eventos na Bolívia podem ter levado alguma esperança aos opositores de Nicolás Maduro na Venezuela, mas os militares continuam apoiando o regime. Para abordar o tema, Diálogo conversou com o General de Brigada (R) da Guarda Nacional Bolivariana da Venezuela Marco Ferreira, exilado nos Estados Unidos desde 2002, que chefiava o Serviço Administrativo de Identificação, Migração e Estrangeiros, quando o departamento se denominava ONIDEX, sob a presidência de Hugo Chávez.

Diálogo: Por que, apesar das numerosas manifestações realizadas na Venezuela, a Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) não exige a saída de Nicolás Maduro, como ocorreu na Bolívia?

General de Brigada (R) da Guarda Nacional Bolivariana Marco Ferreira: O alto comando da Venezuela está debilitado, altamente politizado e chantageado pelo governo de Maduro. As irregularidades na Força Armada da Venezuela [existem] há muitos anos. As promoções [nos últimos anos] não seguem critérios puramente militares. Não existe vocação militar; a maioria entrou na escola buscando opções econômicas ao invés de defender o país.

Diálogo: Juan Guaidó foi reconhecido por mais de 50 países como presidente legítimo da Venezuela. Por que, apesar de seus esforços para se aproximar da FANB, ele não conseguiu influenciar sua lealdade a Maduro?

Gen Bda Ferreira: Os altos comandos, além de serem inimigos da oposição, são amigos de Nicolás Maduro. Existe cumplicidade [nos escalões superiores] e nos inferiores há medo e ressentimentos.

Diálogo: O senhor acredita que poderá haver esperança na FANB de que o sucesso na Bolívia, ou seja, a renúncia de Evo Morales, possa ser replicado na Venezuela?

Gen Bda Ferreira: As Forças Armadas estão muito influenciadas e subjugadas. O alto comando é 100 por cento leal a Maduro.

Diálogo: A FANB se transformou no partido político de Maduro?

Gen Bda Ferreira: Não é verdade. As Forças Armadas continuam sendo uma instituição regida pelas normas de obediência, disciplina e subordinação, mas é preciso também acrescentar o medo e a extorsão. Os militares da Venezuela não têm a força nem o desejo para revoltar-se.

Diálogo: Essa destruição da FANB foi orquestrada pelo regime para garantir lealdade?

Gen Bda Ferreira: Realmente, os militares são tão vítimas quanto os demais venezuelanos, devido à destruição do aparato produtivo do país. A grande maioria dos militares está optando por contrabandear tudo o que for possível: vendem suas armas de serviço e munições; roubam combustível dos veículos oficiais para enviá-lo à Colômbia. Realmente, já não são uma força armada, são um grupo de corsários que estão tentando sobreviver. O governo perdoa todas essas faltas e crimes, mas a única coisa que não é perdoada é a insubordinação a Maduro.

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