Estado Islâmico, uma ameaça fundamentalista para o ocidente

Islamic State, a Fundamentalist Threat to the West

Por Dr. Hugo Harvey, Strategic Studies Institute, Chilean Army War College
julho 22, 2016

ISIS. O mundo todo conhece essa sigla. Basta a pronúncia para que a imagem de morte, decapitações e atrocidades sem limites venham à mente. No entanto, uma grande quantidade de perguntas ainda persiste sobre a sua origem, as possíveis formas de controle dos seus excessos, em outras palavras, o significado da sua presença para o mundo em geral e para o ocidente em particular. O ISIS ou Estado Islâmico não é apenas um grupo terrorista, menos ainda um Estado como o seu nome pretende convencer. Trata-se de uma organização política e militar que mantém uma interpretação radical do Islamismo como filosofia política e pretende impor tal visão do mundo por meio da força, tanto aos muçulmanos como aos não muçulmanos. Expulso do al-Qaida, por ser demasiadamente extremista, o ISIS alega ser o guia legítimo de todos os muçulmanos sunitas em todo o mundo. Ele estabelece o que considera ser um Estado que inclui grandes extensões de território na Síria e no Iraque, governados a partir de Raqqa na Síria. O grupo já teve vários nomes. Começou como um agrupamento denominado Jamaat al-Tawhid wa-i-Jihad (JTWJ), fundado em 1999 por Abu Musa al-Zarqawi. Tal nome permaneceu até 2004, quando foi alterado para al-Qaida na Terra dos Dois Rios (mais popularmente conhecido como al-Qaida no Iraque, ou AQI). Em 2006 passou a se denominar Majlis Shura al-Mujahidin (MSM) (traduzido como Conselho da Shura para os Mujahidins), e até 2013 foi denominado Estado Islâmico do Iraque (EII). Finalmente, adquiriu o nome que todos nós conhecemos, Estado Islâmico do Iraque e al-Sham (EIIS), onde “al-Sham” refere-se à “Grande Síria”, ou seja, incluindo o Líbano, a Jordânia, a Palestina e Israel. Daesh é o acrônimo árabe do seu nome completo: al-Dawla al-Islamiya fi al-Iraq wa al-Sham. O presidente francês François Hollande, junto com o presidente norte-americano Barack Obama e o secretário de Estado John Kerry referem-se ao grupo desta forma, o que tem várias explicações. Em primeiro lugar trata-se de negar legitimidade ao grupo e não associá-lo a “Estado”, como eles pretendem fazer causando confusão entre as pessoas. Em segundo lugar, para evitar que seja associado ao islamismo, o que parece ter sido um dos objetivos dos atentados em Paris: conseguir uma repressão contra os muçulmanos, dando início a uma espiral ou escalada da violência. No entanto, o mais importante é que Daesh também possui uma conotação negativa. De fato, dependendo da conjugação árabe, pode significar “pisar ou esmagar com os pés” ou “intolerante”, coisa que o ISIS rechaça proibindo que se refiram a eles com semelhante expressão. Desde maio de 2010, tem sido liderado por Abu Bakr al-Baghdadi, mas até 2004 a única imagem conhecida do mesmo estava em um ficha policial resultado da sua estada em cativeiro dos EUA, no Campo Bucca, durante a ocupação do Iraque. Na sequência, dia 5 de julho de 2015, ele apareceu no púlpito da Grande Mesquita de al-Nuri em Mosul, onde deu um sermão do mês de Ramadã, como o primeiro califa desde gerações. Foi assim que, em pouco tempo, passou de guerrilheiro perseguido a uma posição autoproclamada de “comandante” de todos os muçulmanos. Contudo, seria um erro afirmar que o islamismo é uma religião que promove o ódio e a morte. Nenhuma religião faz isso. O que acontece é que alguns muçulmanos interpretam erroneamente a mensagem apresentada no contexto de 1.400 anos atrás. Por exemplo, a escravidão existia na época de Maomé, mas o Alcorão a limita, e oferece certos direitos aos escravos, autorizando-os a comprar sua própria liberdade, e exortando seus donos a libertá-los. Na Bíblia ocorre algo similar em Efésios 6:5-9, quando os deveres dos escravos e seus amos são referidos. Mas, na atualidade, sendo a escravidão ilegal, tais palavras tornam-se irrelevantes. Esse é o problema com o Daesh, ao interpretar tudo em forma literal não entende que em 14 séculos as circunstâncias históricas e sociais mudaram, e parte do que foi dito pelo profeta era apropriado para o contexto em que vivia.
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