Irã e Venezuela: uma parceria estratégica

Irã e Venezuela: uma parceria estratégica

Por Joseph Humire*
junho 10, 2021

O presidente colombiano Iván Duque mostrou descontentamento ao afirmar, em agosto de 2020, que o regime de Nicolás Maduro na Venezuela estava tentando adquirir mísseis de médio a longo alcance da República Islâmica do Irã. A afirmação surgiu por ocasião do aumento da cooperação comercial Teerã-Caracas em 2020, que enviou mais de 2,35 milhões de barris de gasolina ao regime de Maduro, em troca de pelo menos 9 toneladas de ouro, equivalentes a US$ 500 milhões, para o Irã.

À primeira vista, esse intercâmbio comercial parece ser transacional e oportunista, baseado nas necessidades dos dois regimes. Após uma avaliação mais minuciosa, no entanto, essa cooperação comercial mostra dimensões militares e se baseia em uma rede de empresas de fachada do exército clérigo do Irã, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI). Além de oportunistas, Irã e Venezuela criaram uma parceria estratégica que beneficia a ambos e serve para fortalecer o regime de Maduro e reduzir a desvantagem geográfica natural do Irã com os Estados Unidos.

A era Chávez

O Irã já atuava na Venezuela antes da ascensão de Hugo Chávez, na virada do século. Ainda assim, sua presença se restringia primordialmente à atividade cultural, diplomática e talvez de inteligência. Durante o mandato de Chávez, o papel do Irã na Venezuela aumentou e passou a incluir um relacionamento militar nada transparente.

De 2004 a 2013, o Irã assinou vários acordos de cooperação energética e militar com a Venezuela. A maioria desses acordos foi superfaturada, não entregue como foi prometido, e nunca foi materializada sob uma perspectiva comercial. No entanto, esses acordos realmente cumpriram um propósito estratégico para ajudar o Irã a contornar as sanções internacionais e o embargo de armas da ONU em 2007. De acordo com um ex-subsecretário do tesouro dos EUA, “o Irã tenta ocultar suas atividades de aquisições por trás de um labirinto de entidades, enganando principalmente as que ainda negociam com o Irã, ao facilitar transações ilícitas para o transporte de itens referentes aos mísseis de duplo uso”.

O Irã tenta ocultar suas atividades de aquisições por trás de um labirinto de entidades, enganando principalmente as que ainda negociam com o Irã, ao facilitar transações ilícitas para o transporte de itens referentes aos mísseis de duplo uso”, ex-subsecretário do tesouro dos EUA.

 

Parte da rede ilícita global de aquisições do Irã se encontra na Venezuela. Uma linha de fundos binacional, bancária e de crédito foi criada entre o Irã e a Venezuela, dando à República Islâmica uma presença financeira maior na América Latina. As estimativas conservadoras, somando-se os valores declarados de conhecidas joint ventures, capitalizações, empréstimos e investimentos, indicam que o regime iraniano acessou mais de US$ 16 bilhões através do sistema financeiro venezuelano, nesse período de tempo. Isso ocorreu através de cerca de 270 acordos bilaterais derivados de mais de 60 projetos e 80 ou mais empresas iranianas na Venezuela. Uma fração foi usada em projetos militares conjuntos que, à época, sofreram duras sanções dos Estados Unidos e da Europa, devido ao seu potencial uso duplo nos programas de armas estratégicas do Irã.

Esses projetos militares conjuntos administrados pelo Ministério da Defesa e Logística das Forças Armadas do Irã, bem como pela empresa militar venezuelana CAVIM, ocultaram as transações financeiras de entidades iranianas sancionadas, através da indústria petrolífera da Venezuela. Um grande número de empresas de fachada ligadas ao CGRI começou a operar na Venezuela, incluindo as Indústrias Químicas Parchin, proeminentemente classificadas na Resolução 1747 do Conselho de Segurança da ONU como uma entidade envolvida com os programas iranianos de mísseis e armas de destruição massiva (WMD, em inglês). Por sua vez, a Aviação Qods, outra empresa de fachada do CGRI, se instalou próximo à base aérea El Libertador, em Maracay, no estado venezuelano de Aragua, para ensinar aos militares venezuelanos como fabricar veículos aéreos não tripulados (VANT). O diagrama a seguir mostra apenas uma pequena parte do complexo industrial militar Venezuela-Irã, que realiza projetos conjuntos sobre VANTs, motores para jatos, fabricação de munições e peças para helicópteros, estabelecendo um esquema de evasão às sanções que remonta aos anos do chavismo, que precederam as atividades “comerciais” atuais do Irã na Venezuela.

A era Maduro

Um trabalhador da companhia petrolífera estatal venezuelana PDVSA balança uma bandeira iraniana, enquanto o petroleiro de bandeira iraniana Fortune atraca na refinaria El Palito, em Puerto Cabello, estado de Carabobo, ao norte da Venezuela, em 25 de maio de 2020. (Foto: Getty Images)

A morte de Chávez, em 2013, levantou especulações quanto ao declínio dos vínculos estratégicos entre Teerã e Caracas. Isso não foi assim. Após um período de transição de dois anos, a cooperação conjunta Irã-Venezuela se reativou em 2015, quando Maduro visitou Teerã por duas vezes e, em 2016, quando Hassan Rouhani fez sua primeira e única viagem à Venezuela, para participar da cúpula anual de Movimento Não-Alinhado na Ilha Margarita. Uma série de acordos bilaterais foi assinada entre os dois países sobre ciência, nanotecnologia, petróleo e agricultura.

Até 2017, o CGRI usava a Venezuela como centro de transbordo de minerais, metais e materiais e tecnologia estratégicos, adquiridos em toda a América Latina para apoiar seus crescentes programas de armas e WMD no Irã. Mais importante ainda, em 2015 o Irã marcou o ano de 2020 no seu calendário, após assinar o Plano de Ação Intergral Conjunto (JCPOA, em inglês). O Irã entendeu que teria apenas uns poucos anos para legitimar sua marca “comercial” na Venezuela, caso quisesse aproveitar o término do embargo de armas da ONU, em 18 de outubro de 2020.

Enquanto o Irã colhia os bônus financeiros do acordo nuclear JCPOA, a economia venezuelana entrava em colapso. Apesar de dominar uma das maiores reservas mundiais de petróleo, a Venezuela enfrentava uma enorme escassez de combustível. Foi o que abriu as portas para que em 2020 o Irã enviasse combustíveis, alimentos, técnicos, e até inaugurasse seu primeiro supermercado em Caracas, legitimando sua aparentemente inofensiva atividade comercial, para fortalecer sua presença militar no futuro. Em 2020, o Irã construiu uma ponte aérea e marítima no Atlântico, apoiada em uma rede do CGRI nos países do terceiro mundo e criando diversas rotas entre o Irã e a Venezuela. Exemplos disso são a Argélia e a Sérvia, usadas como paradas de reabastecimento da rota aérea, e a África do Sul, como um ponto alternativo de circum-navegação da rota marítima entre o Irã e a Venezuela.

A ponte marítima permite que o CGRI ponha em prática uma infinidade de táticas de evasão marítima, tais como trocas de bandeiras, nomes, pinturas, e o desligamento dos transponders no meio da viagem para que os navios iranianos possam chegar à Venezuela. No entanto, as cargas de alguns navios-tanques iranianos foram apreendidas em 2020 graças aos esforços civis de confisco por parte dos Estados Unidos. Ainda assim, o Irã continua tentando legitimar sua presença na Venezuela.

Para o Irã e o regime de Maduro, é essencial passar de um esquema de evasão às sanções, implementado durante os anos do chavismo, para uma estratégia de resistência às sanções apoiada em uma narrativa conjunta de vitimização para deslegitimar o uso e a eficácia das sanções norte-americanas e internacionais. Se for bem-sucedido, o Irã poderá fortalecer sua presença militar na Venezuela, pois o regime de Maduro tenta ameaçar seus vizinhos na Guiana, Brasil e Colômbia.

A força multipolar

A estratégia expansionista do regime de Maduro na América Latina e no Caribe tem o apoio de agentes estatais externos. No dia 6 de novembro de 2020, Maduro anunciou a criação de uma nova Comissão Científico-Militar nas Forças Armadas da Venezuela para modernizar os sistemas de armas do país. Embora Maduro não tenha especificado quais sistemas serão atualizados, ele mencionou que esse novo conselho contará com assessores da Rússia, da China e do Irã. O recente acordo estratégico por 25 anos de Teerã com Pequim e a extensão de um acordo de armas por 20 anos com Moscou provavelmente beneficiarão a comissão de defesa da Venezuela, estabelecendo uma força militar multipolar no país que fortalecerá o regime de Maduro.

Em janeiro de 2019, o ministro da Defesa do Irã, Amir Hatami, foi a Caracas para participar da posse do segundo mandato de Maduro, fortalecendo a cooperação de defesa entre o Irã e a Venezuela. Mais tarde, naquele mesmo ano, quando a crise humanitária venezuelana se enrijecia, as Forças Armadas da Venezuela participaram dos Jogos Militares Internacionais Rússia 2019 junto com a Rússia e a China. No final do ano, a Rússia, o Irã e a China realizaram, pela primeira vez, exercícios navais conjuntos no Golfo de Omã e no Oceano Índico. Mais recentemente, o trio realizou exercícios navais similares no norte do Oceano Índico, em meados de fevereiro de 2021.

Até agora, essa cooperação militar conjunta se mantém no outro lado do mundo. Enquanto isso, a Rússia continua aumentando sua presença empreiteira militar na Venezuela, enquanto a China apoia veladamente. Entretanto, o Irã parece ser o pivô dessa nova força multipolar, criando sua ponte aérea e marítima para a Venezuela, fazendo sua parceria estratégica com o regime de Maduro, talvez o investimento de maior sucesso fora do Oriente Médio.

 

Joseph M. Humire é especialista em ameaças transnacionais nas Américas e diretor-executivo do Centro para uma Sociedade Segura e Livre, um grupo de reflexão sobre segurança nacional com base em Washington, D.C. Ele também é coautor do livro A penetração estratégica do Irã na América Latina (Iran’s Strategic Penetration of Latin America – Lexington Books, 2014). 

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