Entrevista com o Contra-Almirante Brown, comandante do SOCSOUTH

Interview with RDML Brown, SOCSOUTH Commander

Por Dialogo
outubro 26, 2011


O Contra-Almirante Thomas L. Brown II trabalhou e estudou na América Latina nos últimos 20 anos. Aprendeu espanhol na década de 80, frequentou a Escola de Estudos Avançados Internacionais da Universidade Johns Hopkins e fez mestrado em Estudos Latino-Americanos, sendo em seguida designado para o Grupo de Assessoria Militar do Exército dos EUA em El Salvador. Mais tarde comandou a Unidade de Operações Navais Especiais (NSW) do Sub-Comando do Comando Sul dos EUA conhecido como SOCSOUTH.

Segundo suas próprias palavras, “a América Latina é um lugar fascinante” e agora, como comandante do SOCSOUTH em Homestead, Flórida, tem a oportunidade de trabalhar com os parceiros dos EUA no hemisfério para enfrentar problemas tais como o narcotráfico, a violência de grupos extremistas e demais desafios.

Na entrevista a seguir, concedida a Diálogo, o Contra-Almirante Brown fala sobre a missão do SOCSOUTH e a importância de se entender o idioma e a cultura da região.

DIÁLOGO: Qual é a missão do SOCSOUTH e sua relação com o SOUTHCOM?

Contra-Almirante Thomas L. Brown II: O SOCSOUTH é um quartel-general de operações especiais sob a responsabilidade do Tenente-Brigadeiro-do-Ar Fraser [comandante do SOUTHCOM]. O Ten Brig Fraser conta com um sub-comando para cada serviço, ou seja, o Comando Sul da Marinha dos EUA (COMMUNAVSO), o Comando Sul das Forças de Fuzileiros Navais (COMMARFORSO), e o SOCSOUTH, que representa seu elemento de comando das Forças de Operações Especiais (SOF) para planejar e conduzir operações especiais. Uma das diferenças entre o SOCSOUTH e os sub-comandos de serviço é que nós somos um comando conjunto sub-unificado, com membros de todos os serviços.

DIÁLOGO: Quais são as tarefas essenciais do SOCSOUTH?
C ALTE Brown: A missão do Comando das Áreas de Operações Especiais é planejar e executar tais operações, no nosso caso na América Latina e no Caribe. Isto abrange desde a realização de operações de Relações Civis (RC) até a possibilidade de operações especiais em apoio direto ou em parceria com nossos amigos da região, como fizemos com a Operação Willing Spirit, a operação para libertar os reféns norte-americanos em poder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) na Colômbia [2003-2008]. As atribuições das operações especiais são sempre uma surpresa, de Operações de Informações até as Relações Civis. O Comando de Operações Especiais dos EUA (SOCOM) tem uma brigada de Relações Civis que fornece elementos de apoio civil-militar empregados pelo SOCSOUTH para ajudar nossas nações parceiras e suas equipes durante seus esforços na região.

Empregamos rotineiramente nossas Forças Especiais dos 7º e 20º Grupamentos de Forças Especiais, Combatentes de Operações Especiais e os SEALs, principalmente da Equipe de Embarcações Especiais 22 e Equipe SEAL 18, comandos da Força Aérea e instrutores das Forças de Operações Especiais (SOF). Todo este potencial nos ajuda a capacitar nossos parceiros no combate aos perigosos agentes não-estatais, ou usando o termo citado por John Arquilla [um PhD em Relações Internacionais pela Universidade de Stanford que escreveu diversos artigos e livros sobre as guerras do futuro], as ‘redes obscuras’.

DIÁLOGO: O que as tropas dos EUA apreendem de sua participação nos exercícios multinacionais?

C ALTE Brown: Um dos valores fundamentais das forças de operações especiais é que elas têm uma sintonia cultural, trabalham com equipes pequenas e se mantêm em missões por longos períodos, estabelecidas em bases externas ou tradicionais, o que nos permite aprender e compreender o ambiente e as pessoas com quem trabalhamos. Através de nossos exercícios, adquirimos um conhecimento cultural mais elaborado, maior compreensão do potencial de nossas nações parceiras, e solidificamos os relacionamentos que nos permitem melhor sincronizar a capacidade e a eficiência de nossos parceiros contra o narcotráfico, os terroristas e outras ameaças afins. O bom relacionamento é vital nessa questão. Conhecer as pessoas e seus pontos de vista, e ao mesmo tempo compreender os poderes, fraquezas e necessidades de nossos parceiros nos auxilia a reforçar seu potencial e a ajudá-los a lidar com seus pontos fracos.

DIÁLOGO: Qual a importância de se conhecer a cultura e o idioma da região?

C ALTE Brown: Pela minha experiência por ter trabalhado em diferentes partes do mundo, o SOUTHCOM tem um papel ímpar na América Latina, e nesta região se espera que os estrangeiros também falem o idioma. Por isso, para se chegar aos objetivos, é importante ter um certo nível de fluência no idioma e compreender as diferenças culturais. Algumas pessoas podem ter mais facilidade de comunicação do que outras, e podem se fazer entender ou aprender sem conhecer o idioma, mas aí é um desafio muito maior. Assim sendo, eu diria que saber o idioma e conhecer a cultura são essenciais para a missão aqui. A liderança do Comando de Operações Especiais dos EUA vem sempre enfatizando a importância do domínio do idioma, bem como o conhecimento da região e da cultura como uma estratégia de investimento, e o SOUTHCOM se beneficia com a capacitação que as Forças de Operações Especiais trazem para a área de operações.

DIÁLOGO: Como as novas tecnologias utilizadas pelos narcotraficantes, como os semissubmersíveis, afetam sua missão?

C ALTE Brown: Trabalhamos com afinco para nos mantermos atualizados quanto às novas tecnologias ou técnicas utilizadas pelos traficantes e pelas organizações criminosas transnacionais e os narcoterroristas como os membros das FARC costumam transportar as drogas e outras mercadorias ilícitas. Levamos isto em consideração na forma como treinamos e reforçamos nossas parcerias. Estamos sempre atentos a isto quando trabalhamos com as equipes norte-americanas nos diversos países, e em estreita colaboração com os mesmos, tentando moldar nosso treinamento e demais esforços para aumentar o potencial contra as ameaças, sempre que estas ‘redes obscuras’ adotam novas tecnologias de comunicações, transportes, e outras.

DIÁLOGO: O senhor poderia falar sobre as Forças Especiais no SOCSOUTH?

C ALTE Brown: O termo genérico para isto a que você se refere são forças de operações especiais, ou SOF, o que inclui as Forças Especiais do Exército, os Combatentes de Operações Especiais da Marinha (SWCC), as Equipes de Operações Especiais dos Fuzileiros Navais dos EUA e os pelotões SEAL, bem como as operações especiais da Força Aérea com sua 6ª Escola de Operações Especiais (SOS) para aumentar a capacidade de parceria na aviação, e a Equipe de Controle de Combate e membros de paraquedistas de resgate.

No entanto, temos uma gama muito mais abrangente de capacitações, diferentes das que acabei de mencionar, e que não são aquilo que as pessoas normalmente imaginam em relação às SOF pelo que é mostrado nos filmes. Tão importante quanto – se é que não mais importante – é o fato de que o SOCSOUTH está na vanguarda do emprego das Relações Civis, das Operações de Informações e da liderança intelectual acadêmica para solucionar os complexos problemas das operações ilegais.

Nossos conhecimentos básicos sobre um determinado território giram em torno do comando e das influências das ações deste território. Mas é importante mencionar que contamos com as Relações Civis e Operações de Informações para destacar o poder da ação direta, ou os ataques tradicionais de comando. Os combatentes e oficiais, os homens e mulheres que trabalham no SOCOM, devem ser aqueles que sabem como empregar todas estas ferramentas para solucionar problemas complexos. Esta é a tarefa número um nas guerras não tradicionais, onde temos uma vantagem competitiva sobre as forças militares tradicionais.

DIÁLOGO: Que tipo de participação tem o SOCSOUTH na Assistência Humanitária/Ajuda para Desastres (HA/DR)?

C ALTE Brown: Depois do terremoto no Haiti, as forças de operações especiais estiveram entre as primeiras a chegar ao local. Ainda que não seja uma missão primordial das operações especiais, e não é no que minhas forças se enfocam todos os dias, podemos chegar com muita rapidez e operar com poucas pessoas em ambientes hostis, especialmente com nossas forças de Operações de Informações e Relações Civis, contribuindo significativamente com ajuda humanitária e assistência para desastres no caso de uma situação de crise.

DIÁLOGO: Seria uma boa solução se fosse criada uma organização transnacional para enviar tropas de Assistência Humanitária/Ajuda para Desastres?

C ALTE Brown: É uma boa ideia, e da maneira como vejo o Tenente-Brigadeiro-do-Ar Fraser abordar o problema, acredito que isto esteja em sintonia com sua concepção de colaboração e formação de equipes na região. É melhor termos uma solução regional, um espaço onde possamos nos reunir e descobrir a melhor forma de ajudar em uma determinada situação de emergência.



Boa reportagem
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