Entrevista com o General Ernesto Gonzalez Villareal, Comandante em Chefe das Forças Armadas do Equador

Interview with Ecuadorean General Ernesto González Villareal

Por Dialogo
outubro 07, 2011


Durante a 3ª Conferência Anual de Chefes de Defesa Sul-Americanos, realizada de 29 de agosto a 2 de setembro de 2011 em Santiago, no Chile, Diálogo conversou com alguns dos principais chefes militares da região, entre eles o Comandante em Chefe das Forças Armadas do Equador. O General Ernesto Gonzalez Villareal falou sobre o papel dos militares nos trabalhos de assistência humanitária, tanto no Equador como em outros países.

DIÁLOGO: Qual é a atual contribuição do Equador em termos de missões de ajuda humanitária, tanto local quanto regionalmente?

General González Villareal: As Forças Armadas do Equador estão trabalhando com afinco na questão da ajuda humanitária em vários países do mundo. Na Libéria, Darfur, Costa do Marfim, Sudão do Sul e Sudão Meridional, temos membros de nossas forças na qualidade de observadores militares.

No Haiti, nosso país está presente com dois contingentes, um deles trabalhando com a MINUSTAH em assistência humanitária, e o outro que foi enviado em função do terremoto que abalou esse país em 2010. Sobre este último, é preciso assinalar que o governo nacional tomou a decisão de enviar uma Companhia de Engenheiros Militares, a mesma que atualmente já completou um ano de permanência, executando diversas obras para apoiar a reconstrução e, fundamentalmente, a população. Além do contingente humano destacado para o Haiti, o Equador também contribuiu com o envio de maquinário, recursos econômicos e financeiros para apoiar a reconstrução do país; este grupo humano dedicou-se principalmente à recuperação de pontes, vias e canais.

Posso afirmar que, dentro de nossas possibilidades, vem sendo desenvolvido um trabalho muito importante, que é o apoio que o Equador pode fornecer com base em suas capacidades.

É importante destacar que também prestamos ajuda humanitária dentro de nosso país: as Forças Armadas constituem o principal organismo de apoio à Secretaria Nacional de Gestão de Riscos, frente a eventos que, em alguns casos, são comuns aos países da região, tais como inundações, erupções vulcânicas, terremotos e tsunamis.

Em diversas ocasiões a instituição militar prestou a assistência requerida pela população, tal como ocorreu no caso da erupção do vulcão Tungurahua, e o último alerta de tsunami – consequência do terremoto ocorrido na costa do Japão, e que afetou a costa do Equador – e em todas essas situações, as Forças Armadas tiveram uma participação muito ativa.

DIÁLOGO: O que o militar equatoriano traz de volta dessas missões, em termos de experiências pessoais, etc.?

General González Villareal: Primeiramente, o intercâmbio de experiências profissionais com outras Forças Armadas do mundo em relação a procedimentos, equipamentos, mas sobretudo um fortalecimento da formação pessoal. No caso específico do Haiti, aprendemos algumas lições que, sem dúvida, nos trarão muitos benefícios em futuras participações em casos similares, como por exemplo a importância de podermos atuar coordenadamente com outros países para multiplicar nossas capacidades para, desta maneira, proporcionar um melhor apoio ao povo. As Forças Armadas, com suas capacidades, constituem o instrumento ideal para apoiar a população em casos de desastres e ajuda humanitária.

Eu tive a oportunidade de estar no Haiti 48 horas depois do evento do terremoto, e a primeira preocupação foi determinar a situação em que se encontrava o contingente equatoriano, e felizmente nesse sentido não tivemos desgraças a lamentar; imediatamente a preocupação seguinte foi definir qual poderia ser a melhor contribuição de apoio a um país irmão que se encontrava em uma situação muito crítica.

DIÁLOGO: Com relação à possível criação de um organismo regional de ajuda humanitária transregional entre os países, como foi mencionado na conferência, qual é a opinião do Equador sobre isto?

General González Villareal: Sim, isto seria definitivamente positivo, nossos ministros da Defesa, a nível da UNASUR, definiram que todos os países devem dispor de unidades especiais para prestar cuidados e ajuda humanitária. Quer dizer, unidades especiais que disponham de uma organização, equipamentos, treinamento, capacidade técnica própria para estes tipos de contingências. As Forças Armadas dispõem de ótimas capacidades logísticas, ainda melhores se a elas acrescentarmos a disposição de unidades especializadas nesta questão.

Dispor deste tipo de unidades, junto a uma confluência de boa vontade, permitiria enfrentar da melhor maneira, e com melhores capacidades, a diversidade de fenômenos adversos e seus riscos.

DIÁLOGO: O senhor acha que os EUA, então, podem desempenhar um papel importante por terem a tecnologia, etc.?

General González Villareal: Não devemos nos esquecer de que o manejo, a gestão de riscos e a ajuda humanitária requerem a aplicação de um princípio de apoio mútuo, como acontece no caso do Haiti. Este princípio vai se complementando, primeiramente por parte do país afetado em função de seus recursos próprios, capacidades e, inclusive, dentro do mesmo país por regiões, ou seja, quando uma região é afetada, as demais regiões não afetadas acorrem em seu auxílio.

Na maioria das vezes, infelizmente, as próprias capacidades se encontram sobrecarregadas, então é necessária a aplicação de convênios regionais e internacionais que permitam otimizar a capacidade de apoio a um Estado afetado.

Este mesmo princípio de apoio mútuo pode ser aplicado em relação aos países da UNASUR, e nesta questão é muito importante o apoio que possam dar países como os Estados Unidos, organismos como a Junta Interamericana de Defesa e muitos outros, para melhorar as capacidades de reação em diferentes circunstâncias. Pessoalmente, não vejo empecilho para que todos esses sistemas se complementem, o importante é concentrar as capacidades nestes níveis, e que os esforços não se dispersem, como tem ocorrido até o momento. O grande desafio constitui, como já havia dito na conferência, unir os esforços da UNASUR, da Junta Interamericana de Defesa, que são organismos que podem desempenhar este papel.

DIÁLOGO: Há algo mais que o senhor queira acrescentar sobre este tema?

General González Villareal: O que posso acrescentar é que o tempo é curto, realizamos muitas conferências e é chegado o momento de passarmos à ação efetiva, de traçarmos uma planilha de direção, de impormos os compromissos de forma que, quando uma próxima emergência se apresentar, estejamos devidamente preparados e possamos dispor das capacidades para enfrentá-la.

DIÁLOGO: O Equador poderia ser um possível líder nessas ações, senhor General, e traçar esta direção?

General González Villareal: Sim, o Equador até há muito pouco tempo ocupava a Presidência Pró-Tempore da UNASUR através de nosso Primeiro Mandatário e do Conselho de Defesa Sul-Americano, por parte de nosso Ministro da Defesa Nacional, evidenciando-se importantes avanços, mas o período terminou; no entanto, acho que temos a capacidade de continuar contribuindo e liderando, quando a situação se apresentar.



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