Instituições fortes são o antídoto contra a desinformação

Instituições fortes são o antídoto contra a desinformação

Por Laura Boyette-Álvarez, gerente sênior de programas para a América Latina e o Caribe do Instituto Republicano Internacional
junho 23, 2021

É de entendimento geral que a era da internet representou uma mudança significativa na forma como os cidadãos obtêm suas informações, e que as redes sociais propiciaram mais oportunidades para a proliferação da desinformação e de informação errônea. Embora isso possa ser verdade, não leva em conta que as mesmas oportunidades exploradas por atores maliciosos também estão disponíveis para que as fontes legítimas preencham a carência de informações.

A desinformação prospera onde as instituições são fracas e a confiança pública é baixa, o que perpetua essa realidade. As instituições governamentais e outras autoridades precisam atender à demanda pública por informação para prover informações oportunas, úteis e transparentes, de forma proativa. Caso contrário, outros aproveitarão essa oportunidade e as consequências serão graves.

Observações da história recente

A desinformação vem realmente crescendo na internet, durante a última década, na América Latina. Em grande parte, as pessoas dependem muito das redes sociais para se informar, tanto por preferência, bem como devido a medidas concretas que direcionam o tráfico para o Facebook, o WhatsApp ou outras plataformas (como a prática conhecida como “dados a custo-zero” para esses aplicativos). A natureza dessas plataformas de mídia social como empresas privadas em busca de lucro levou ao uso dos algoritmos que beneficiam histórias sensacionalistas e de um único clique, frequentemente povoadas de informação errônea ou desinformação; e as pessoas tendem a considerar mais verossímeis casos compartilhados por familiares ou amigos nas redes sociais do que informações recebidas vindas de outras fontes.

No final de 2019, antes que a pandemia atingisse o mundo colocando a região em lockdown, os cidadãos latino-americanos estavam no auge do que parecia ser uma onda crescente de demanda pública por transparência e reformas dos sistemas econômicos que deixaram milhões de pessoas sofrendo, bem como um futuro mais igualitário. O Departamento de Estado dos EUA detectou um aumento na desinformação proveniente de fora da região, à medida que manifestações se expandiam pelo hemisfério, ainda que na ocasião isso representasse apenas uma pequena fração de todo o universo de conteúdos. Na verdade, a maioria das postagens nas redes sociais foi legitimamente compartilhada por pessoas verdadeiras, que refletiam os eventos que se desenvolviam na região.

A desinformação prospera quando há instituições fracas e baixa confiança popular, especialmente onde a corrupção está enraizada e supurou durante décadas, interrompidas, ocasionalmente, por manifestações públicas e exigências de mudanças. As instituições eleitorais muitas vezes não têm a verba necessária, o que se tornou ainda mais grave durante a pandemia da COVID-19. Quando os recursos dos governos são limitados, o voto presencial requer adaptações importantes aos procedimentos e infraestruturas eleitorais normais. Devido à falta de recursos dessas instituições, suas estratégias de comunicação são fracas. Quando há um vácuo de informação, a desinformação prolifera. Quando as instituições eleitorais reagem a histórias individuais falsas e tentam revidá-las uma a uma, a confiança popular só faz definhar.

A crise eleitoral na Bolívia de 2019 a 2020 é um bom exemplo a ser analisado. Após a votação anulada em 2019 e a mudança de paradigma marcada pela saída de Evo Morales, as novas eleições presidenciais realizadas em 2020 seriam necessariamente um momento eleitoral dramático e sensível. Para piorar o cenário político, a chegada da pandemia da COVID-19 criou mais oportunidades de desinformação. A data das eleições foi remarcada três vezes devido à pandemia, o que levantou suspeitas em grande parte do país. O principal órgão eleitoral boliviano, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), não tinha uma estratégia abrangente de comunicação e não pode oferecer uma informação oportuna ou útil, abrindo caminho para que os atores malignos enchessem o vácuo de informação com rumores, acusações de negligência eleitoral e fraude. Os especialistas concluíram que foram os partidos políticos e a sociedade civil os que, em última análise, forneceram aos eleitores as informações necessárias para o exercício de seus deveres cívicos.

O remédio: instituições mais fortes e mais transparentes

Em toda a região, os amantes da democracia e da estabilidade precisam investir no fortalecimento das instituições democráticas, através de:

— Aperfeiçoamento das comunicações institucionais. O foco em estratégias de comunicação mais efetivas e transparentes deve ser o componente central de qualquer esforço de combate às campanhas de desinformação. Estratégias fortes de comunicação e campanhas eficientes de conscientização popular podem não ser o uso mais interessante dos recursos, mas são o que há de mais eficaz para combater a desinformação e garantir que os cidadãos tenham uma informação precisa e oportuna. Quando as instituições governamentais compartilham informações transparentes em uma base consistente, o espaço para a disseminação das campanhas de desinformação diminui consideravelmente.

— Fortalecimento da relação entre as partes interessadas e do seu compromisso para resolver o problema. Quando o governo, as instituições de justiça, as forças de segurança, os partidos políticos, a sociedade civil, o setor privado (incluindo o de telecomunicações) e os meios de comunicação social se conhecem e confiam uns nos outros, é mais fácil descobrir o impostor. Quando a polarização e a desconfiança estão impregnadas em uma sociedade, os atores malignos tirarão vantagem. Uma abordagem holística para a resolução de problemas através de esforços coletivos, apoiada pelas evidências, significa sabedoria das partes interessadas.

— Reforma ou esclarecimento de leis e regulamentações. Leis e regulamentações pouco claras permitem interpretações e compreensões errôneas. Nas eleições gerais de 2021 no Equador, uma disputa criada pela rejeição da candidatura de um líder da oposição devido a problemas técnicos causou uma maior polarização no país, alimentada por campanhas de desinformação, alegando que as autoridades eleitorais estavam em conluio com candidatos específicos. Em El Salvador, processos eleitorais desnecessariamente complicados antes das eleições legislativas de 2021 geraram incertezas quanto ao processo de votação, abrindo as portas para a desinformação, que busca aumentar os votos inválidos.

— Compromisso com um comportamento ético. Seguir as regras deveria ser o mínimo requisito para as autoridades governamentais, mas elas cometem enganos com demasiada frequência. As sociedades civis do Equador e do Panamá tiveram algum sucesso para assegurar compromissos de políticos em períodos eleitorais através de pactos éticos, incluindo um pacto de ética digital, sob o qual se comprometem a não promover informações falsas, ainda que seja em benefício próprio.

— Concessão de poder aos cidadãos para que sejam consumidores críticos dos meios de comunicação social. Todos os países da região devem se concentrar em reformar seus sistemas educacionais para dar prioridade às aulas de educação cívica e alfabetização audiovisual, para garantir que seus cidadãos tenham as ferramentas adequadas para serem consumidores de informação essencial.

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