Em busca de uma proteção comum

In Search of a Common Shield

Por Dialogo
janeiro 16, 2013


Entrevista com o General Kenrick Maharaj, Chefe do Estado-Maior de Defesa de Trinidad e Tobago

Em Trinidad e Tobago, terra do carnaval mais alegre do Caribe, os tiroteios entre as gangues e as vendetas do narcotráfico motivaram o governo a decretar um estado de emergência no verão de 2011. No entanto, deste evento lamentável surgiu um vínculo sem precedentes entre a polícia e as Forças de Defesa que trabalharam unidas para pôr fim a uma crise que estava consumindo o país.

Um ano e meio depois do estado de emergência em Trinidad, os policiais e militares estão ainda colaborando para evitar um episódio como o de 2011? Em uma entrevista concedida a Diálogo durante a Conferência de Segurança das Nações do Caribe (CANSEC), em dezembro de 2012, o General Kenrick Maharaj, Chefe do Estado-Maior de Defesa de Trinidad e Tobago, respondeu a estas e outras perguntas sobre temas de cooperação regional no âmbito da segurança.

Diálogo: No ano passado, durante a CANSEC 2012 em São Cristóvão e Nevis, tivemos a oportunidade de conversar com o senhor sobre os desafios à segurança e à defesa enfrentados por Trinidad e Tobago. O que há de novo no panorama de segurança e defesa de seu país?

General Kenrick Maharaj: O que foi significativo no ano passado foi a mudança na liderança do Ministério da Segurança Nacional, e o novo ministro, o honorável Jack Warner, trouxe algumas perspectivas novas para o cenário da segurança nacional no que concerne seu estilo de liderança e prioridades. Tivemos que criar algumas regras e responsabilidades para aumentar nosso apoio às agências em Trinidad. O novo ministro elevou o nível de importância das intervenções sociais. Assim sendo, em apoio à Polícia, estivemos envolvidos nos últimos meses com algumas questões sociais e algumas comunidades de alto risco em Trinidad e Tobago, principalmente em Trinidad, concentrando nossos esforços na juventude. Foi interessante termos realmente um novo compromisso voltado para um aspecto da prevenção ao crime.

Diálogo: Durante o estado de emergência em Trinidad, em 2011, as Forças de Defesa e a Polícia trabalharam em conjunto. O país mantém esse modelo de cooperação?

Gen Maharaj: Devo admitir, sem necessariamente ser politicamente incorreto, que as relações entre a Polícia de Trinidad e Tobago e a Força de Defesa são excelentes. Existe realmente um fórum aberto a discussões sobre quaisquer questões, ao contrário do que havia há dez anos, quando existia um choque cultural na forma como os militares atuavam versus a forma como a Polícia atuava. Nós temos uma compreensão mútua melhor agora do que tínhamos anteriormente, o que gera relações mais amigáveis, não apenas no âmbito executivo, mas também no nível básico. Estamos em um nível maior de conforto, trabalhando lado a lado em patrulhas conjuntas, patrulhas móveis ou patrulhas a pé.

Diálogo: Como vocês conseguem trabalhar em conjunto sem ultrapassar as fronteiras?

Gen Maharaj: Tivemos que criar regras muito rígidas de comprometimento a partir da experiência do estado de emergência que mantivemos entre agosto e dezembro do ano passado. Meu responsável jurídico na Força de Defesa esteve muito envolvido com a criação de regras de comprometimento, garantindo um nível de responsabilidade e transparência na forma como agíamos na Força de Defesa em apoio à Polícia. E eu vou além disto, incluindo nosso envolvimento nos programas sociais, visto que trabalhar com os civis requer um tipo diferente de comprometimento.

Apesar do fato de termos dedicado mais recursos aos programas sociais, a Força de Defesa fez bem em manter o caráter de segurança nos ambientes aéreo e marítimo, para que a segurança de nossa fronteira não fosse prejudicada em termos de distribuição de recursos, considerando a natureza do ambiente da segurança nacional hoje, bem como nossos compromissos com a região. Não se trata apenas de Trinidad e Tobago. Felizmente não estamos utilizando todos os nossos recursos aéreos; os quatro helicópteros Augusta-Westland 139 recentemente adquiridos estão todos em operação. Eles fazem o patrulhamento marítimo, buscas e resgates… A força terrestre continua engajada com as fronteiras e todos os demais esforços que já mencionei. E nossa Guarda-Costeira continua a crescer. Nossa Guarda-Costeira está em processo de aquisição de embarcações de patrulhamento de longo alcance e faz amplos reparos em nossos interceptadores. Estamos no momento em processo de aquisição de novos equipamentos e embarcações de patrulhamento de longo alcance, para sermos capazes de oferecer apoio à região, bem como aquela dissuasão em nossa zona econômica exclusiva e em nossas águas litorâneas em geral.

Diálogo: Seu país está trabalhando com outros países do Caribe na criação dessa proteção comum, para que cada um se resguarde contra o crime organizado transnacional e outras ameaças?

Gen Maharaj: Como somos países em pequenas ilhas, de modo geral, algumas são menores do que as outras e possuem recursos limitados. Trinidad e Tobago é uma das economias fortes e, portanto, temos um potencial maior. Até agora a colaboração tem sido voltada a conseguir a maior eficácia possível, dentro dos recursos disponíveis. Trinidad e Tobago precisou assumir a liderança, então nossa vigilância de litoral estendeu-se até Santa Lúcia. Temos cobertura de radar em Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas, Granada, e o que já está instalado em Trinidad e Tobago. De modo geral, os estados membros do CARICOM mantêm um bom relacionamento. Acontece que temos um desafio quanto à disponibilidade dos recursos. Trinidad reconhece a assistência recebida dos parceiros internacionais, bem como dos vizinhos e parceiros regionais, mas devemos compreender e reconhecer os níveis de capacitação da região, e prestar o tipo de assistência que possa garantir que, de modo geral, a proteção que buscamos estabelecer na região baseie-se num apoio mútuo e em quem possui os recursos que possam ajudar naquela situação.

Diálogo: Como o senhor classificaria o relacionamento entre a Força de Defesa de Trinidad e Tobago e o Exército dos Estados Unidos?

Gen Maharaj: Temos muitos anos de uma forte amizade com os Estados Unidos, com o Canadá e com o Reino Unido, com parceiros internacionais. Nos 50 anos de nossa independência esses laços só se fortaleceram, criamos muitos mecanismos de cooperação. Durante a Copa Mundial de Críquete 2007, que eu descreveria como um evento precipitado, foram criados diversos instrumentos legislativos para reforçar a colaboração regional e estender muito a colaboração regional entre a região do CARICOM e com os Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, apenas citando esses três parceiros internacionais. Não quero excluir a França e outros países dessa questão porque todos são parceiros, tanto quanto a Austrália, a África do Sul… todos são fortes parceiros nossos para segurança, e pretendemos continuar a fortalecer cada vez mais essas parcerias.

Diálogo: Em uma de suas participações na CANSEC 2013 o senhor mencionou a importância de se seguir o modelo criado para a segurança da Copa Mundial de Críquete em 2007, realizada em diferentes locais nos diversos países do Caribe. O senhor poderia falar um pouco mais sobre isto?

Gen Maharaj: Falarei sobre a Copa Mundial de Críquete 2007 até morrer. O valor do legado da Copa Mundial de Críquete, nem todos os benefícios permanecem hoje em dia. No final do evento, as leis foram arquivadas. Espero realmente que um dia, futuramente, revisemos essas leis, porque foram elas que fizeram a história de sucesso da Copa Mundial de Críquete 2007. Era desejo da região chegar a alguns acordos comuns sobre como lidamos com a segurança regional. Assim sendo, esse evento precipitado que foi a Copa Mundial de Críquete 2007 mobilizou um apoio regional, um apoio regional unificado. Gosto muito de ver o espírito desse comprometimento voltar à tona. Ele não deve, necessariamente, ficar restrito a um evento, ele deve fazer parte da cena, parte de um pensamento que define quem somos no contexto da região. Se precisarmos refazer a legislação para apoiar ou fortalecer a cooperação, a colaboração, que isto seja feito. Se for preciso elaborar novos memorandos de compreensão, isto não será um problema. Assim, os efeitos residuais desse episódio bem-sucedido moram em mim, e morarão em mim até que eu morra como um cidadão da região, mais do que como um cidadão da república de Trinidad e Tobago.

Diálogo: Como o senhor vê o espírito de colaboração entre os países participantes da CANSEC?

Gen Maharaj: Como disse o Sr. Francis Forbes [diretor executivo interino da CARICOM IMPACS] durante a conferência, existem idiossincrasias na região, mas isto não significa que não tenhamos as condições para continuar o compromisso mútuo respeitosamente. Essas condições estão lá, e a região tem uma história de cooperação, portanto confiamos em nossos parceiros tão amigáveis, e estamos nos comunicando para assegurar que seremos capazes de transformar tudo isto no sucesso que poderemos atingir em relação a qualquer questão de importância regional.



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