Grupos armados ilegais disputam controle da fronteira entre Venezuela e Colômbia

Grupos armados ilegais disputam controle da fronteira entre Venezuela e Colômbia

Por Diálogo
dezembro 18, 2019

Pelo menos 10 grupos armados ilegais de vários setores políticos disputam o controle do território venezuelano na zona limítrofe com a Colômbia, indicam relatórios do Centro Estratégico para a Segurança e Proteção da Pátria (CESPPA), instituição do regime de Nicolás Maduro.

Em novembro de 2018, o CESPPA fez um mapeamento detalhado dessas organizações nos estados de Zulia, Táchira, Apure, Bolívar e Amazonas, na fronteira com a Colômbia, com base em dados fornecidos pelas Regiões Estratégicas de Defesa Integral da Força Armada Nacional Bolivariana (FANB).

Segundo o relatório do CESPPA ao qual teve acesso a organização não-governamental (ONG) venezuelana FundaRedes, dedicada à promoção dos direitos humanos e da democracia, existem no estado de Zulia posicionamentos de três guerrilhas colombianas: as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), o Exército de Libertação Nacional (ELN) e o Exército Popular de Libertação. Foram também detectadas células de quadrilhas criminosas colombianas, como as redes narcotraficantes Clã do Golfo e os Rastrojos, além do grupo paramilitar Águias Negras.

Táchira é o estado onde opera o maior número de grupos, informou a FundaRedes, acrescentando que o documento do CESPPA mostra a presença dos Rastrojos, do Clã do Golfo, das Forças Bolivarianas de Libertação (FBL), um grupo guerrilheiro venezuelano, e do Trem de Aragua, uma quadrilha criminosa venezuelana muito violenta. O ELN é o grupo com maior presença, com cerca de 700 membros lotados em vários municípios do estado.

De acordo com a organização de investigação dos EUA InSight Crime, especializada em ameaças à segurança na América Latina e no Caribe, esses grupos estão por trás do aumento da violência no estado, com tiroteios frequentes e assassinatos (33 vítimas da violência apenas em outubro de 2019), para controlar o tráfico de pessoas e de drogas e o contrabando na fronteira.

Javier Tarazona, presidente da FundaRedes, explicou à Diálogo que em Zulia e Táchira o ELN controla uma emissora de rádio e uma publicação (Antorcha Elena) e, segundo suas investigações, também se dedica ao recrutamento de menores de idade. Suas atividades, declarou, incluem a extorsão de pecuaristas e agricultores e o controle do Comitê Local de Abastecimento e Produção (CLAP), que é o programa de distribuição de alimentos a preços subsidiados pelo governo.

David Smolansky, coordenador do Grupo de Trabalho sobre Migrantes Venezuelanos da Organização dos Estados Americanos, declarou que outra atividade lucrativa dos grupos criminosos é o controle da movimentação de pessoas e bens entre a Venezuela e a Colômbia, através de centenas de caminhos informais que cruzam as fronteiras. Smolansky disse que a atividade pode render até US$ 10.000 por dia.

Em Apure, continua a FundaRedes, foi percebida a presença das FARC e do ELN, que também controlam ali o programa do CLAP. Foi naquele estado que nasceram as FBL, mas o grupo está passando por um processo de divisão, afirmou Tarazona, com alguns membros que se mantêm próximos ao regime de Maduro e outros que o acusam de haver “traído” o projeto original de Hugo Chávez.

Segundo a FundaRedes, nos estados de Bolívar e Amazonas, onde se encontram as mineradoras de ouro do Arco Mineiro do Orinoco, operam as FARC e o ELN (com mais de 500 membros), que uniram forças para controlar os recursos da mineração.

Tarazona alertou que desde que os ex-líderes das FARC anunciaram a volta da luta armada, no final de agosto, uma grande parte dessa organização se retirou para a Venezuela. “Agora, não apenas querem ter homens armados, mas também consolidar uma economia paralela na Venezuela”, disse.

Segundo o Contra-Almirante (R) Carlos Molina Tamoyo, ex-diretor de Armamento da FANB, em exílio na Espanha, o regime de Maduro formou uma aliança com os líderes das FARC e do ELN.

“É evidente que as FARC e o ELN têm um ‘safe heaven’ [refúgio] no território venezuelano. São forças aliadas. A única maneira de mudar essa situação é a troca do regime”, disse.

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