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General Rafael Melara, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas de El Salvador: “O fenômeno do crime organizado transnacional nos afeta a todos igualmente”

General Rafael Melara, Chief of the Joint Staff of the Armed Forces of El Salvador: “Transnational organized crime affects all of us equally”

Por Dialogo
dezembro 24, 2014








Em 11 de fevereiro de 2014, o General de Divisão Rafael Melara Rivera foi incluído no Salão da Fama da Escola de Guerra dos Estados Unidos, situada no estado da Pensilvânia. Sua inclusão foi duplamente significativa, já que ele foi o primeiro militar salvadorenho e o primeiro graduado latino-americano entre os oficiais internacionais da Escola a receber semelhante distinção. Ela representa o impacto positivo que o general tem demonstrado a cada ano, não apenas em El Salvador, mas também no plano internacional. Conhecido como um líder estratégico, afável e conciliador, o General Melara ascendeu à sua posição atual graças a uma carga rigorosa de muito esforço em todos os graus e aos vários cursos de treinamento de preparação que um militar deve ter para conduzir as forças armadas de um país.

Nessa preparação, o General Melara teve outros treinamentos em diversas partes do mundo, que também contribuíram para sua formação profissional, acadêmica e intelectual. Além disso, o general fez parte do contingente que atuou no Iraque como parte da Força Multinacional durante a Operação Iraqi Freedom.

Em seguida, ele foi comandante do Grupo de Operações Especiais do Comando de Forças Especiais. Durante esse período, manteve intercâmbios constantes com as Forças Armadas dos EUA através dos destacamentos da Companhia A do Sétimo Grupo, no qual participou de diferentes modalidades – queda livre, mergulho de combate e combate próximo, entre outras. Não apenas participou de uma grande variedade de intercâmbios desse tipo como também da aprendizagem acumulada durante a experiência no barco de resgate e na preparação contra o crime organizado transnacional.

Toda essa experiência moldou o General Melara para que ele ocupasse a posição militar mais elevada nas Forças Armadas de El Salvador. Desde 31 de julho de 2013, ele atua como chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas de seu país.

Desde que assumiu essa posição, seu principal desafio tem sido a luta contra o crime organizado transnacional, que, segundo ele, “não é individual; deve ser um esforço comum e multinacional”. Em entrevista à Revista Militar Digital Diálogo em San Salvador, o General Melara compartilhou sua perspectiva sobre esse e outros temas.

DIÁLOGO
: As Forças Armadas e a Polícia Nacional Civil de El Salvador estão trabalhando lado a lado na luta contra o narcotráfico. Até três ou quatro anos atrás, não existia no país o conceito de que ambas as forças colaborassem. Como está funcionando essa colaboração para lutar contra o crime organizado transnacional e as maras [ gangues
]?

General de Divisão Melara
: Atualmente, as Forças Armadas de El Salvador têm uma participação muito ativa no território nacional. Trabalhamos em colaboração direta com a Polícia Nacional Civil (PNC) através de decretos executivos do presidente, segundo os quais damos assistência à PNC em centros penais e nos setores de imigração e aduana. Essa é a parte da mobilização atual que temos como Forças Armadas em âmbito nacional.

DIÁLOGO
: Poderia mencionar algumas das conquistas obtidas como parte desse trabalho conjunto nos últimos dois meses?

General de Divisão Melara
: Por exemplo, a Força Naval interceptou três embarcações em alto mar, uma com 500 quilos, outra com 226 e a última com 50 quilos de cocaína. Essa última interceptação foi realizada ontem [ 17 de dezembro
]. Posteriormente, o Grupo Conjunto Cuscatlán realizou os respectivos procedimentos e o trabalho da judicialização de todas as interceptações.

DIÁLOGO
: O que é o Grupo Conjunto Cuscatlán?

General de Divisão Melara
: O Grupo Conjunto Cuscatlán é uma organização em que existe uma interoperabilidade interinstitucional entre a Polícia Nacional, as Forças Armadas, a Procuradoria-Geral, a Comissão Executiva Portuária (CEPA) e outras instituições necessárias para agir contra o crime organizado transnacional. Essa dinâmica já está em funcionamento.

DIÁLOGO
: Ou seja, o trabalho das Forças Armadas termina com a interdição e aí entra a Polícia Federal?

General de Divisão Melara:
Sim, pode ser por parte da Polícia, através do Grupo Conjunto Antinarcóticos ou do Grupo Conjunto Cuscatlán, que também possui elementos tanto das Forças Armadas como da Divisão Antinarcóticos. Mas o principal é que o trabalho inicial de busca, interdição e controle, ou seja, a análise para verificar a quantidade e determinar se é droga ou não, é feito por agentes especializados.

DIÁLOGO
: Isso foi parte da Operação MARTILLO?

General de Divisão Melara:
As interdições se inserem no contexto da Operação MARTILLO, mas também fizeram parte de outra operação, chamada Lionfish II [ mais de 27,5 toneladas de drogas foram apreendidas na operação Lionfish II, uma iniciativa liderada pela INTERPOL – a Polícia Internacional – contra o tráfico de drogas e armas de fogo por grupos do crime organizado na América Central e no Caribe
].

DIÁLOGO
: El Salvador deseja continuar participando da Operação MARTILLO?

General de Divisão Melara:
Claro que sim. El Salvador não apenas está interessado em seguir participando da Operação MARTILLO como também em que continuem de maneira permanente todos os esforços para que a luta contra o crime organizado transnacional seja efetiva. E, nesse caso, a Operação MARTILLO nos ajuda muito para que esse esforço seja mais decidido.

DIÁLOGO
: Voltando agora aos problemas internos, especificamente ao problema das maras. Nos últimos anos, houve uma trégua que aparentemente funcionou: o número de homicídios no país diminuiu. Porém, mais recentemente, elas parecem ter voltado a lutar entre si e o número de homicídios novamente está aumentando, de acordo com um recente estudo publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Por que El Salvador se encontra de novo entre os países da nossa região com índices muito altos de homicídio?

General de Divisão Melara
: Como Forças Armadas, não tivemos nenhuma participação no chamado Processo de Pacificação. Foi uma ação completamente policial, através de todas suas agências. Esse processo de pacificação, que o Ministério da Justiça e Segurança tentou realizar, deu seus frutos porque tínhamos evidências de que a maior quantidade de mortos se devia à luta entre as facções. Na medida em que o Ministério tentou buscar um processo de pacificação, viu-se uma redução notável dos índices de homicídio no país. Nós vemos com muito bons olhos qualquer processo que seja feito em benefício do país, desde que se respeite a participação independente de cada uma das instituições. Repito: nós, como Forças Armadas, não tivemos nenhuma participação na realização do processo de pacificação.

DIÁLOGO:
Mas existe atualmente uma participação forte das Forças Armadas de El Salvador na luta contra o narcotráfico. O senhor acredita que haverá alguma mudança com respeito à interoperabilidade entre as Forças Armadas e a Polícia?

General de Divisão Melara:
Do ponto de vista otimista, como Forças Armadas, gostaríamos que nossa participação nessa luta fosse cada vez menor, pois essa é uma missão própria da Segurança Pública. Mas, enquanto não existirem essas condições, o apoio decisivo das Forças Armadas à Polícia continuará através dos decretos executivos e seguiremos realizando-o com a melhor disposição e da forma que nos for ordenada. O principal é garantir a segurança de nossa população e, no momento, nossa participação ajuda a oferecer segurança à grande parte da população nacional porque estamos nas 33 zonas de maior índice de criminalidade. Nossas tropas estão mobilizadas nessas regiões e conhecemos o fenômeno da luta entre as facções criminosas.

DIÁLOGO
: O senhor está de acordo com a criação de forças-tarefas formadas por membros da Polícia e das Forças Armadas para que trabalhem em conjunto, pontualmente contra o narcotráfico? Ou seja, algo como o Comando Zeus, que ajuda a Polícia Nacional Civil a combater violentas gangues de rua, como a Mara Salvatrucha (MS-13) e a Barrio 18 (M-18), além de outros criminosos?

General de Divisão Melara:
A Força-Tarefa Conjunta Zeus foi uma opção de trabalho proposta há alguns anos, quando se decidiu que as Forças Armadas de El Salvador participariam de alguma maneira do esforço de luta contra a escalada da violência no país, especialmente contra o narcotráfico. O que ficou decidido foi que a Zeus teria de trabalhar nas zonas de maior índice de criminalidade ou realizando patrulhas ostensivas, operações anticriminais, registros de pessoas, captura em flagrante etc. E tem havido uma importante presença das Forças Armadas nesses lugares. Podemos dizer que, até o momento, o trabalho tem sido muito efetivo. Temos controle desses lugares, que antes tinham as maiores taxas de crime e agora têm as menores. Ou seja: onde nós estamos, há evidência de que a criminalidade diminuiu em todas as suas modalidades. Então, temos o exemplo da Zeus, que tem sido muito eficaz, e agora temos a missão de continuar colaborando com a Polícia nesse sentido. Dentro da mesma [ Força-Tarefa
] Zeus, também há o que chamamos de operações conjuntas, focadas sempre em áreas de grande criminalidade. Assim, estamos trabalhando de maneira interinstitucional: um esforço conjunto com a PNC, a Procuradoria, unidades especializadas e nós como Forças Armadas. Acreditamos que o apoio das Forças Armadas à Polícia Nacional tem sido contundente e decisivo e sabemos que deve continuar assim por mais um tempo.

DIÁLOGO
: O senhor acredita que essa mudança ocorrida nas Forças Armadas – não somente de El Salvador, mas também nas da Colômbia, do Brasil etc. – de apoiar a polícia na luta contra o narcotráfico e o crime organizado seja permanente?

General de Divisão Melara:
Não, não é permanente. Esse apoio sempre é catalogado como excepcional e contínuo, mas não permanente.

DIÁLOGO
: E com relação à participação salvadorenha de ajuda e resposta a desastres? El Salvador é conhecido mundialmente por sua participação e seu grande desenvolvimento nas forças de pacificação da ONU. Esse papel vem a ser permanente para as Forças Armadas do país?

General de Divisão Melara:
Além das missões constitucionais de defesa nacional e integridade do território, nós temos a obrigação de apoiar a paz e a tranquilidade pública, assim como de apoiar o país no caso de desastres e em obras de benefício público. Esses são mandatos constitutivos. Então, quando ocorre um desastre natural, por exemplo, algo constante em nosso país, seja terremoto, deslizamento, inundação... todos os recursos das Forças Armadas são colocados à disposição do país para fazer tudo o que esteja a nosso alcance em colaboração com as autoridades civis. No caso de emergências, o trabalho é dirigido pela Defesa Civil, embora as Forças Armadas destinem a maior quantidade de recursos. É uma tarefa que realizamos de maneira integral em todas as áreas de logística, recursos humanos, comunicações, busca e resgate, armazenamento, distribuição de diferentes recursos, entre outros. Esse também é, digamos, um trabalho temporário enquanto ocorrer o desastre, mas é uma missão constitucional de apoio, assim como estar prontos e preparados para qualquer emergência.

DIÁLOGO
: Poderia falar um pouco mais dessas participações internacionais das Forças Armadas de El Salvador?

General de Divisão Melara:
Nós também temos a missão de colaborar com a paz internacional. E temos feito isso como parte de uma política exterior e também como um agradecimento pelos processos de pacificação realizados em El Salvador, que terminaram em 1992 [ os Acordos de Paz de Chapultepec foram um conjunto de convênios firmados em 16 de janeiro de 1992 entre o governo de El Salvador e a Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN) no Castelo de Chapultepec, México, e acabou com 12 anos de guerra civil no país
]. Agora nós colaboramos para a paz internacional. Tanto assim que participamos de missões no Iraque, enviamos contingentes por três anos e meio ao Afeganistão e temos agora um contingente no Líbano – onde já temos uma presença de seis anos –, além de já estar há mais de dois anos no Haiti cuidando das obras de reconstrução do país.

DIÁLOGO
: El Salvador participa da Força Interina de Paz das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL)?

General de Divisão Melara
: Exatamente. Nossa participação ali é principalmente em conjunto com a Espanha, que, por ser membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), fez um pedido para que nós participássemos, embora não sejamos membros dessa organização.

DIÁLOGO
: El Salvador tem interesse em algum dia ser líder e não apenas participante de alguma dessas missões de paz da ONU, como ocorre com o Brasil na Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (MINUSTAH)?

General de Divisão Melara
: Antes de responder, quero mencionar que El Salvador faz parte de um batalhão da República do Chile no Haiti, que por sua vez integra a MINUSTAH, com uma companhia de infantaria mecanizada, realizando atividades de segurança e patrulhamentos. Atualmente, estamos em preparação e em desenvolvimento até que todos os recursos estejam disponíveis e a parte legal esteja afinada, buscando não ainda ser líderes de uma missão como essa, mas buscar uma missão independente. Poderia ser a Missão de Pacificação das Nações Unidas em Mali (MINUSMA). Aproveito para mencionar que, na preparação para essa missão, recebemos o apoio do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, através do Comando Sul (SOUTHCOM) e do Grupo Militar norte-americano em El Salvador.

DIÁLOGO
: Houve inclusive uma preparação organizada pelo SOUTHCOM especificamente para o combate ao ebola, que terminou no início de dezembro, para a missão salvadorenha em Mali e conjuntamente com os militares uruguaios, certo?

General de Divisão Melara
: Sim. Nós vamos a um continente onde infelizmente existe a ameaça do ebola, e todos os esforços conjuntos que forem feitos para tentar minimizar os efeitos dessa doença, fazendo preparativos e demais são importantes. Além do treinamento com os uruguaios e do apoio do SOUTHCOM já mencionado, nossos pilotos foram treinados em voos no deserto, coisa que não temos aqui, para que pudessem aprender e tirar lições para essa missão [ MINUSMA
].

DIÁLOGO
: Voltando à nossa região: há intenção por parte de El Salvador de trabalhar de forma ainda mais estreita – e principalmente com a Guatemala e Honduras –, no intercâmbio de inteligência e treinamentos conjuntos, especialmente na luta contra o narcotráfico?

General de Divisão Melara
: A Conferência das Forças Armadas Centro-Americanas é uma organização de caráter militar em que se encontram as Forças Armadas de El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e República Dominicana. Um dos seus eixos principais é a luta contra o crime organizado transnacional, ou seja, a luta contra as ameaças atuais que não são mais de caráter nacional e, sim, internacional. O fenômeno do crime organizado transnacional nos atinge a todos por igual. Dessa maneira, realizamos um intercâmbio permanente tanto em âmbito binacional como regional nessa luta e na busca por unir esforços.

DIÁLOGO
: Poderia citar um exemplo?

General de Divisão Melara
: Com Honduras, temos o que chamamos de patrulhamento binacional. Nós do lado de El Salvador e as Forças Armadas hondurenhas do lado de seu país. E fazemos isso de forma permanente. Temos constante contato com eles em toda a fronteira, e tudo o que possa afetar esse trabalho conjunto está sendo minimizado. Além disso, também há um intercâmbio permanente de informação sobre quais são as ameaças que eles têm, quais são as que nós temos e as que temos em comum, para poder enfrentar esses problemas. E isso também tem a ver não apenas com o tráfico de drogas mas também de pessoas e de armas e com o combate ao terrorismo, além de outros males. Trabalhamos atualmente nos pontos fronteiriços mais inabilitados, que chamamos de pontos cegos. Temos um programa muito similar com a Guatemala. E mantemos comunicação permanente com os países de nossa região e outros, como os EUA.

DIÁLOGO
: Há algo mais que gostaria de acrescentar?

General de Divisão Melara
: Principalmente, quero dizer que nossas Forças Armadas são apolíticas, que estamos decididos a manter o estado de direito e que as autoridades legalmente constituídas merecem todo o nosso respeito. Nossa missão sempre deve seguir o que está em nossa Constituição, e posso afirmar que estamos trabalhando nesse sentido. Nossas Forças Armadas são uma instituição permanentemente a serviço do Estado, tudo em benefício de nosso país. O intercâmbio de adestramento, informação etc. com os EUA também é muito importante, e sempre que precisamos tivemos seu apoio. Nossa relação militar com os EUA sempre foi excelente e esperamos que continue assim e seja duradoura.







Em 11 de fevereiro de 2014, o General de Divisão Rafael Melara Rivera foi incluído no Salão da Fama da Escola de Guerra dos Estados Unidos, situada no estado da Pensilvânia. Sua inclusão foi duplamente significativa, já que ele foi o primeiro militar salvadorenho e o primeiro graduado latino-americano entre os oficiais internacionais da Escola a receber semelhante distinção. Ela representa o impacto positivo que o general tem demonstrado a cada ano, não apenas em El Salvador, mas também no plano internacional. Conhecido como um líder estratégico, afável e conciliador, o General Melara ascendeu à sua posição atual graças a uma carga rigorosa de muito esforço em todos os graus e aos vários cursos de treinamento de preparação que um militar deve ter para conduzir as forças armadas de um país.

Nessa preparação, o General Melara teve outros treinamentos em diversas partes do mundo, que também contribuíram para sua formação profissional, acadêmica e intelectual. Além disso, o general fez parte do contingente que atuou no Iraque como parte da Força Multinacional durante a Operação Iraqi Freedom.

Em seguida, ele foi comandante do Grupo de Operações Especiais do Comando de Forças Especiais. Durante esse período, manteve intercâmbios constantes com as Forças Armadas dos EUA através dos destacamentos da Companhia A do Sétimo Grupo, no qual participou de diferentes modalidades – queda livre, mergulho de combate e combate próximo, entre outras. Não apenas participou de uma grande variedade de intercâmbios desse tipo como também da aprendizagem acumulada durante a experiência no barco de resgate e na preparação contra o crime organizado transnacional.

Toda essa experiência moldou o General Melara para que ele ocupasse a posição militar mais elevada nas Forças Armadas de El Salvador. Desde 31 de julho de 2013, ele atua como chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas de seu país.

Desde que assumiu essa posição, seu principal desafio tem sido a luta contra o crime organizado transnacional, que, segundo ele, “não é individual; deve ser um esforço comum e multinacional”. Em entrevista à Revista Militar Digital Diálogo em San Salvador, o General Melara compartilhou sua perspectiva sobre esse e outros temas.

DIÁLOGO
: As Forças Armadas e a Polícia Nacional Civil de El Salvador estão trabalhando lado a lado na luta contra o narcotráfico. Até três ou quatro anos atrás, não existia no país o conceito de que ambas as forças colaborassem. Como está funcionando essa colaboração para lutar contra o crime organizado transnacional e as maras [ gangues
]?

General de Divisão Melara
: Atualmente, as Forças Armadas de El Salvador têm uma participação muito ativa no território nacional. Trabalhamos em colaboração direta com a Polícia Nacional Civil (PNC) através de decretos executivos do presidente, segundo os quais damos assistência à PNC em centros penais e nos setores de imigração e aduana. Essa é a parte da mobilização atual que temos como Forças Armadas em âmbito nacional.

DIÁLOGO
: Poderia mencionar algumas das conquistas obtidas como parte desse trabalho conjunto nos últimos dois meses?

General de Divisão Melara
: Por exemplo, a Força Naval interceptou três embarcações em alto mar, uma com 500 quilos, outra com 226 e a última com 50 quilos de cocaína. Essa última interceptação foi realizada ontem [ 17 de dezembro
]. Posteriormente, o Grupo Conjunto Cuscatlán realizou os respectivos procedimentos e o trabalho da judicialização de todas as interceptações.

DIÁLOGO
: O que é o Grupo Conjunto Cuscatlán?

General de Divisão Melara
: O Grupo Conjunto Cuscatlán é uma organização em que existe uma interoperabilidade interinstitucional entre a Polícia Nacional, as Forças Armadas, a Procuradoria-Geral, a Comissão Executiva Portuária (CEPA) e outras instituições necessárias para agir contra o crime organizado transnacional. Essa dinâmica já está em funcionamento.

DIÁLOGO
: Ou seja, o trabalho das Forças Armadas termina com a interdição e aí entra a Polícia Federal?

General de Divisão Melara:
Sim, pode ser por parte da Polícia, através do Grupo Conjunto Antinarcóticos ou do Grupo Conjunto Cuscatlán, que também possui elementos tanto das Forças Armadas como da Divisão Antinarcóticos. Mas o principal é que o trabalho inicial de busca, interdição e controle, ou seja, a análise para verificar a quantidade e determinar se é droga ou não, é feito por agentes especializados.

DIÁLOGO
: Isso foi parte da Operação MARTILLO?

General de Divisão Melara:
As interdições se inserem no contexto da Operação MARTILLO, mas também fizeram parte de outra operação, chamada Lionfish II [ mais de 27,5 toneladas de drogas foram apreendidas na operação Lionfish II, uma iniciativa liderada pela INTERPOL – a Polícia Internacional – contra o tráfico de drogas e armas de fogo por grupos do crime organizado na América Central e no Caribe
].

DIÁLOGO
: El Salvador deseja continuar participando da Operação MARTILLO?

General de Divisão Melara:
Claro que sim. El Salvador não apenas está interessado em seguir participando da Operação MARTILLO como também em que continuem de maneira permanente todos os esforços para que a luta contra o crime organizado transnacional seja efetiva. E, nesse caso, a Operação MARTILLO nos ajuda muito para que esse esforço seja mais decidido.

DIÁLOGO
: Voltando agora aos problemas internos, especificamente ao problema das maras. Nos últimos anos, houve uma trégua que aparentemente funcionou: o número de homicídios no país diminuiu. Porém, mais recentemente, elas parecem ter voltado a lutar entre si e o número de homicídios novamente está aumentando, de acordo com um recente estudo publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Por que El Salvador se encontra de novo entre os países da nossa região com índices muito altos de homicídio?

General de Divisão Melara
: Como Forças Armadas, não tivemos nenhuma participação no chamado Processo de Pacificação. Foi uma ação completamente policial, através de todas suas agências. Esse processo de pacificação, que o Ministério da Justiça e Segurança tentou realizar, deu seus frutos porque tínhamos evidências de que a maior quantidade de mortos se devia à luta entre as facções. Na medida em que o Ministério tentou buscar um processo de pacificação, viu-se uma redução notável dos índices de homicídio no país. Nós vemos com muito bons olhos qualquer processo que seja feito em benefício do país, desde que se respeite a participação independente de cada uma das instituições. Repito: nós, como Forças Armadas, não tivemos nenhuma participação na realização do processo de pacificação.

DIÁLOGO:
Mas existe atualmente uma participação forte das Forças Armadas de El Salvador na luta contra o narcotráfico. O senhor acredita que haverá alguma mudança com respeito à interoperabilidade entre as Forças Armadas e a Polícia?

General de Divisão Melara:
Do ponto de vista otimista, como Forças Armadas, gostaríamos que nossa participação nessa luta fosse cada vez menor, pois essa é uma missão própria da Segurança Pública. Mas, enquanto não existirem essas condições, o apoio decisivo das Forças Armadas à Polícia continuará através dos decretos executivos e seguiremos realizando-o com a melhor disposição e da forma que nos for ordenada. O principal é garantir a segurança de nossa população e, no momento, nossa participação ajuda a oferecer segurança à grande parte da população nacional porque estamos nas 33 zonas de maior índice de criminalidade. Nossas tropas estão mobilizadas nessas regiões e conhecemos o fenômeno da luta entre as facções criminosas.

DIÁLOGO
: O senhor está de acordo com a criação de forças-tarefas formadas por membros da Polícia e das Forças Armadas para que trabalhem em conjunto, pontualmente contra o narcotráfico? Ou seja, algo como o Comando Zeus, que ajuda a Polícia Nacional Civil a combater violentas gangues de rua, como a Mara Salvatrucha (MS-13) e a Barrio 18 (M-18), além de outros criminosos?

General de Divisão Melara:
A Força-Tarefa Conjunta Zeus foi uma opção de trabalho proposta há alguns anos, quando se decidiu que as Forças Armadas de El Salvador participariam de alguma maneira do esforço de luta contra a escalada da violência no país, especialmente contra o narcotráfico. O que ficou decidido foi que a Zeus teria de trabalhar nas zonas de maior índice de criminalidade ou realizando patrulhas ostensivas, operações anticriminais, registros de pessoas, captura em flagrante etc. E tem havido uma importante presença das Forças Armadas nesses lugares. Podemos dizer que, até o momento, o trabalho tem sido muito efetivo. Temos controle desses lugares, que antes tinham as maiores taxas de crime e agora têm as menores. Ou seja: onde nós estamos, há evidência de que a criminalidade diminuiu em todas as suas modalidades. Então, temos o exemplo da Zeus, que tem sido muito eficaz, e agora temos a missão de continuar colaborando com a Polícia nesse sentido. Dentro da mesma [ Força-Tarefa
] Zeus, também há o que chamamos de operações conjuntas, focadas sempre em áreas de grande criminalidade. Assim, estamos trabalhando de maneira interinstitucional: um esforço conjunto com a PNC, a Procuradoria, unidades especializadas e nós como Forças Armadas. Acreditamos que o apoio das Forças Armadas à Polícia Nacional tem sido contundente e decisivo e sabemos que deve continuar assim por mais um tempo.

DIÁLOGO
: O senhor acredita que essa mudança ocorrida nas Forças Armadas – não somente de El Salvador, mas também nas da Colômbia, do Brasil etc. – de apoiar a polícia na luta contra o narcotráfico e o crime organizado seja permanente?

General de Divisão Melara:
Não, não é permanente. Esse apoio sempre é catalogado como excepcional e contínuo, mas não permanente.

DIÁLOGO
: E com relação à participação salvadorenha de ajuda e resposta a desastres? El Salvador é conhecido mundialmente por sua participação e seu grande desenvolvimento nas forças de pacificação da ONU. Esse papel vem a ser permanente para as Forças Armadas do país?

General de Divisão Melara:
Além das missões constitucionais de defesa nacional e integridade do território, nós temos a obrigação de apoiar a paz e a tranquilidade pública, assim como de apoiar o país no caso de desastres e em obras de benefício público. Esses são mandatos constitutivos. Então, quando ocorre um desastre natural, por exemplo, algo constante em nosso país, seja terremoto, deslizamento, inundação... todos os recursos das Forças Armadas são colocados à disposição do país para fazer tudo o que esteja a nosso alcance em colaboração com as autoridades civis. No caso de emergências, o trabalho é dirigido pela Defesa Civil, embora as Forças Armadas destinem a maior quantidade de recursos. É uma tarefa que realizamos de maneira integral em todas as áreas de logística, recursos humanos, comunicações, busca e resgate, armazenamento, distribuição de diferentes recursos, entre outros. Esse também é, digamos, um trabalho temporário enquanto ocorrer o desastre, mas é uma missão constitucional de apoio, assim como estar prontos e preparados para qualquer emergência.

DIÁLOGO
: Poderia falar um pouco mais dessas participações internacionais das Forças Armadas de El Salvador?

General de Divisão Melara:
Nós também temos a missão de colaborar com a paz internacional. E temos feito isso como parte de uma política exterior e também como um agradecimento pelos processos de pacificação realizados em El Salvador, que terminaram em 1992 [ os Acordos de Paz de Chapultepec foram um conjunto de convênios firmados em 16 de janeiro de 1992 entre o governo de El Salvador e a Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN) no Castelo de Chapultepec, México, e acabou com 12 anos de guerra civil no país
]. Agora nós colaboramos para a paz internacional. Tanto assim que participamos de missões no Iraque, enviamos contingentes por três anos e meio ao Afeganistão e temos agora um contingente no Líbano – onde já temos uma presença de seis anos –, além de já estar há mais de dois anos no Haiti cuidando das obras de reconstrução do país.

DIÁLOGO
: El Salvador participa da Força Interina de Paz das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL)?

General de Divisão Melara
: Exatamente. Nossa participação ali é principalmente em conjunto com a Espanha, que, por ser membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), fez um pedido para que nós participássemos, embora não sejamos membros dessa organização.

DIÁLOGO
: El Salvador tem interesse em algum dia ser líder e não apenas participante de alguma dessas missões de paz da ONU, como ocorre com o Brasil na Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (MINUSTAH)?

General de Divisão Melara
: Antes de responder, quero mencionar que El Salvador faz parte de um batalhão da República do Chile no Haiti, que por sua vez integra a MINUSTAH, com uma companhia de infantaria mecanizada, realizando atividades de segurança e patrulhamentos. Atualmente, estamos em preparação e em desenvolvimento até que todos os recursos estejam disponíveis e a parte legal esteja afinada, buscando não ainda ser líderes de uma missão como essa, mas buscar uma missão independente. Poderia ser a Missão de Pacificação das Nações Unidas em Mali (MINUSMA). Aproveito para mencionar que, na preparação para essa missão, recebemos o apoio do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, através do Comando Sul (SOUTHCOM) e do Grupo Militar norte-americano em El Salvador.

DIÁLOGO
: Houve inclusive uma preparação organizada pelo SOUTHCOM especificamente para o combate ao ebola, que terminou no início de dezembro, para a missão salvadorenha em Mali e conjuntamente com os militares uruguaios, certo?

General de Divisão Melara
: Sim. Nós vamos a um continente onde infelizmente existe a ameaça do ebola, e todos os esforços conjuntos que forem feitos para tentar minimizar os efeitos dessa doença, fazendo preparativos e demais são importantes. Além do treinamento com os uruguaios e do apoio do SOUTHCOM já mencionado, nossos pilotos foram treinados em voos no deserto, coisa que não temos aqui, para que pudessem aprender e tirar lições para essa missão [ MINUSMA
].

DIÁLOGO
: Voltando à nossa região: há intenção por parte de El Salvador de trabalhar de forma ainda mais estreita – e principalmente com a Guatemala e Honduras –, no intercâmbio de inteligência e treinamentos conjuntos, especialmente na luta contra o narcotráfico?

General de Divisão Melara
: A Conferência das Forças Armadas Centro-Americanas é uma organização de caráter militar em que se encontram as Forças Armadas de El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e República Dominicana. Um dos seus eixos principais é a luta contra o crime organizado transnacional, ou seja, a luta contra as ameaças atuais que não são mais de caráter nacional e, sim, internacional. O fenômeno do crime organizado transnacional nos atinge a todos por igual. Dessa maneira, realizamos um intercâmbio permanente tanto em âmbito binacional como regional nessa luta e na busca por unir esforços.

DIÁLOGO
: Poderia citar um exemplo?

General de Divisão Melara
: Com Honduras, temos o que chamamos de patrulhamento binacional. Nós do lado de El Salvador e as Forças Armadas hondurenhas do lado de seu país. E fazemos isso de forma permanente. Temos constante contato com eles em toda a fronteira, e tudo o que possa afetar esse trabalho conjunto está sendo minimizado. Além disso, também há um intercâmbio permanente de informação sobre quais são as ameaças que eles têm, quais são as que nós temos e as que temos em comum, para poder enfrentar esses problemas. E isso também tem a ver não apenas com o tráfico de drogas mas também de pessoas e de armas e com o combate ao terrorismo, além de outros males. Trabalhamos atualmente nos pontos fronteiriços mais inabilitados, que chamamos de pontos cegos. Temos um programa muito similar com a Guatemala. E mantemos comunicação permanente com os países de nossa região e outros, como os EUA.

DIÁLOGO
: Há algo mais que gostaria de acrescentar?

General de Divisão Melara
: Principalmente, quero dizer que nossas Forças Armadas são apolíticas, que estamos decididos a manter o estado de direito e que as autoridades legalmente constituídas merecem todo o nosso respeito. Nossa missão sempre deve seguir o que está em nossa Constituição, e posso afirmar que estamos trabalhando nesse sentido. Nossas Forças Armadas são uma instituição permanentemente a serviço do Estado, tudo em benefício de nosso país. O intercâmbio de adestramento, informação etc. com os EUA também é muito importante, e sempre que precisamos tivemos seu apoio. Nossa relação militar com os EUA sempre foi excelente e esperamos que continue assim e seja duradoura.
Como posso opinar sobre o personagem que chegou a Havana? Estamos orgulhosos de contar com oficiais militares como o general Rafael Melara, a quem felicito por sua honrosa distinção pelo Exército dos Estados Unidos em nível latino-americano. o crime se tornou organizado por motivos que os governos não se organizaram Gostei muito da entrevista, revelou-me parcerias e convênios existentes com os Estados Unidos, que eu desconnhecia. É importante para a América do Sul e Central, conhecer os procedimentos e tecnologias avançadas usadas no primeiro mundo.O papel das Fôrças Armadas de um país é constitucionalmente, defender sua soberania e sua liberdade.
Mas em casos especiais a cooperação é sempre bem vinda, em casos de catástrofes naturais, como no Haiti, a ajuda torna-se fundamental e necessária. Acredito até se houvesse vontade política das grandes potências o Haiti já estaria reconstruído. Não seria favor algum, outros países desenvolvidos, ajudar na reconstrução. Realmente não seria uma ajuda e sim um imenso investimento social e humano. O retorno para ambas as partes seria compensador, pois não haveria a necessidade de êxodo da papulação.
No caso do Brasil, a solução para a Segurança e o término da violência, começa pela Educação e estende-se através da obrigatorieda do Serviço Militar, à partir dos 16 anos de idade, para ambos os sexos (com possibilidade de Plano de Carreira), após 2 anos de engajamento. Com relação as crianças de 05 até 15 anos, escola em tempo integral com todas as matérias convencionais, mais: música, dança, teatro, artes plásticas.
O mais importante ensinar desde o 1º ano, cantar o Hino Nacional antes de entrar na aula.
Educação social e política, ética e noções de cidadania. Gentil de Jesus Stocker Excelente trabalho feito pelo general de divisão Melara, cuja capacidade conheço em primeira mão, depois de ter compartilhado do desenvolvimento do curso de Segurança e Desenvolvimento Nacional. Efusivos cumprimentos, bem como ao tenente-coronel Gutierrez Sariles, porque eu estou ciente do excelente trabalho de equipe de que goza o general Melara. Parabéns. Sentimo-nos orgulhosos de que o nosso país e os Estados Unidos da América do Norte reconhecem o valor e dedicação demonstrados pelo general de divisão Melara, dando-lhe o reconhecimento muito merecido. Efusivos parabéns, desejando-lhe muitos mais sucessos em nível profissional e pessoal. Parabéns. Eu conheço o General Melara e é um dos melhores generais dos últimos tempos. Ele sempre foi um bom oficial e de muita nobreza e cavalheirismo. Parabéns, meu general. Eu não conheço o General Melara, pelo que eu vejo ele é um militar profissional e respeitador da democracia. Parabéns, general. Eu gosto de toda essa informação que proporcionam a muitos leitores. Tudo o que foi discutido é muito verdadeiro, a Força Aérea Salvadorenha é uma instituição armada que merece o respeito de todos os salvadorenhos, ela superou o período pós-guerra e hoje, com o vigor renovado, é uma instituição importante dentro da ação democrática do país. Temos que levar em conta a enorme gama de trabalho que ela realiza com um orçamento pequeno, que é um aspecto que precisa de atenção.
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