O Brasil enfrenta um fenômeno alarmante: a sofisticação do mercado ilegal de armas. As forças de segurança redobraram seus esforços para frear a expansão de uma indústria armamentista criminosa que, segundo a revista brasileira Fórum, vai além do esquema tradicional de contrabando de armas complexas pré-fabricadas. As redes criminosas migraram para um modelo mais avançado e industrializado. Agora, oficinas clandestinas montam armas a partir de fragmentos e peças avulsas, incorporam componentes impressos em 3D e empregam cadeias logísticas próprias, semelhantes às linhas de produção industrial.
Do contrabando à produção nacional: O boom das “armas fantasmas”
A gravidade da transformação é inegável. “Sim, a evidência é inequívoca. As recentes apreensões, que incluem não apenas armas completas fabricadas em instalações industriais ilegais, mas também grandes quantidades de peças, kits de conversão e peças impressas em 3D, indicam uma clara transição”, explicou à Diálogo Roberto Uchôa, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. “A capacidade de montar, modificar e até mesmo fabricar armas dentro do território nacional, as chamadas armas fantasmas, representa uma nova e perigosa autonomia militar para essas organizações.”
Um caso emblemático ocorreu no final de outubro de 2025, quando a Polícia Civil do Rio de Janeiro executou uma operação precisa contra o grupo do crime organizado Comando Vermelho (CV). Nos complexos das favelas do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, foram apreendidos 120 fuzis montados com peças provenientes tanto do contrabando, quanto de compras legais na internet, segundo o jornal O Globo. O grupo se abastecia por meio de uma rede de fábricas clandestinas em Minas Gerais e São Paulo.
Modernização criminosa e produção industrial
O crescimento da indústria ilegal de armas no Brasil não é recente, mas adquiriu novos matizes. “O ano de 2017 foi um ano de expansão generalizada do crime organizado e de guerras entre gangues. O resultado foi um aumento significativo da demanda por armas […], mas, naquele momento, os criminosos não tinham boas alternativas locais para conseguir rifles. As armas caseiras tinham a vantagem de serem mais baratas e não rastreáveis”, contextualizou Bruno Langeani, consultor sênior do Instituto Sou da Paz, do Brasil, em entrevista à Insight Crime. A partir de 2023, o surgimento de fábricas clandestinas com maquinário sofisticado, incluindo impressoras 3D, permitiu a produção industrial de rifles. “Esse novo método não depende de peças externas; os criminosos produzem tudo em suas fábricas”, destacou Langeani.
Em 2023, a Polícia Federal detectou uma fábrica clandestina de fuzis equipada com maquinário industrial em Belo Horizonte, operando sob a aparência de uma marcenaria. A descoberta abriu novas linhas de investigação e, em 15 de outubro de 2025, a polícia desmantelou uma estrutura criminosa com capacidade para fabricar 3.500 rifles por ano, utilizando equipamentos de alta precisão e componentes importados, principalmente da China.
O CV não é o único grupo que aproveita essa tendência. O Primeiro Comando da Capital (PCC), a maior e mais poderosa organização criminosa do Brasil, também é muito capaz de utilizar essas redes nacionais de armas fantasmas. A força do PCC reside em sua estrutura transnacional e corporativa, que lhe permite obter financiamento e logística em grande escala. Por exemplo, operações importantes em 2025, como a Operação Carbono Oculto, foram dirigidas contra o PCC, por infiltrar-se no setor de combustíveis do Brasil para lavar bilhões, o que demonstra os profundos recursos financeiros disponíveis para financiar tanto o tráfico de armas em grande escala, quanto a sofisticada fabricação nacional de armas ilegais.
A prevalência dessa nova fabricação nacional depende em grande parte da facilidade para importar componentes através de canais comerciais legais. O Observatório de Complexidade Econômica (OEC) dos Estados Unidos forneceu um número revelador que ilustra esse enorme volume: somente em setembro de 2025, a China exportou armas, munições e acessórios no valor de US$ 956.000 para o Brasil. Esse fluxo legítimo em grande escala fornece ampla cobertura às redes criminosas para importar secretamente os sofisticados componentes industriais, máquinas e peças necessárias para suas fábricas fantasmas de armas.
Deficiências no registro e na inteligência de dados
Um obstáculo crucial para enfrentar o mercado ilícito de armas é a falta de dados estruturados sobre as apreensões. O estudo Fogo cego: o auge das armas de fogo de estilo militar em meio a falhas normativas e falta de dados no Brasil, publicado em Londres pela Revista de Economias Ilícitas e Desenvolvimento, indica que os dados sobre armas apreendidas não são coletados nem organizados adequadamente, o que limita os esforços para diagnosticar e combater o mercado ilegal.
A pesquisa, focada na região sudeste do Brasil, entre 2019 e 2023, ressalta a necessidade de cooperação interinstitucional, inteligência centralizada e fortalecimento das unidades forenses, principalmente diante da proliferação de armas fantasmas e submetralhadoras artesanais.
Duas grandes limitações afetam a produção de dados: em primeiro lugar, a falta de coleta e organização de informações essenciais, especialmente sobre armas privadas ou modificadas; e, em segundo lugar, problemas de qualidade nos dados existentes, como registros inconsistentes e bases de dados não estruturadas. Essas deficiências dificultam a compreensão e o combate eficaz ao mercado ilícito.
O armamento como ativo estratégico
“O armamento deixou de ser um mero instrumento de defesa nas transações ilícitas e tornou-se o principal ativo estratégico”, ressalta Uchôa. “O rifle ostentoso não é apenas uma arma de guerra; ele regula a vida social nas comunidades, garante a extorsão, a cobrança por serviços, como gás, internet e ‘segurança’, e silencia a população.”
Fundamentalmente, a demanda por essas armas de fabricação nacional e de contrabando está indissoluvelmente ligada à crise dos narcoestados da região. Tanto o PCC quanto o CV dependem da rota internacional da cocaína, que se origina na região andina. A expansão desses grupos brasileiros para a Amazônia e para as zonas fronteiriças explora diretamente a instabilidade e a corrupção ao longo da fronteira venezuelana, onde o Cartel dos Sóis fornece trânsito e impunidade para os envios de drogas. O comércio de armas por drogas e a capacidade de garantir a segurança da região fronteiriça são, portanto, fundamentais para a sobrevivência e o crescimento industrial das facções criminosas do Brasil.
Estratégias para uma abordagem integral
O combate à violência derivada do boom de armas artesanais de longo alcance exige uma abordagem multifatorial. No curto prazo, Uchôa recomenda a “criação de forças operativas permanentes, dedicadas exclusivamente ao controle do fluxo de armas, autopeças e munições, com ênfase na investigação financeira, para rastrear fundos e descapitalizar os compradores”. Além disso, ele sugere um investimento maciço em tecnologia de controle, como scanners não intrusivos em portos, aeroportos, centros de distribuição postal e rodovias, bem como um controle rigoroso dos arsenais públicos e do comércio legal, para conter o desvio de recursos.
Um passo nessa direção é a recente criação do Escritório Emergencial de Combate ao Crime Organizado, que busca reduzir a burocracia, melhorar a inteligência estatal e lançar operações integradas para desarticular os líderes criminosos, segundo a Agência Brasil.
O negócio de armas deixou de ser um simples apêndice do narcotráfico; hoje, o Brasil enfrenta uma indústria criminosa autônoma, tecnologicamente avançada, com investimentos próprios e uma produção cada vez mais descentralizada. Dada a natureza transnacional das principais organizações criminosas do Brasil e sua profunda dependência do tráfico de drogas andino, essa capacidade de fabricação nacional representa uma ameaça de proliferação em toda a região sul-americana.



