Oficial da Marinha do Brasil é primeira mulher do país a operar em Abyei

First Female Brazilian Navy Officer to Serve in Abyei

Por Taciana Moury/Diálogo
abril 12, 2018

A Capitão-Tenente da Marinha do Brasil (MB) Maria Aparecida de Almeida está ajudando a escrever a história de pioneirismo das mulheres na instituição. A oficial será a primeira militar brasileira a participar de uma missão de paz na área de Abyei, no Sudão do Sul. Ela vai operar como observadora militar na Força Interina de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) para Abyei (UNISFA, em inglês).

A UNISFA foi estabelecida em 27 de junho de 2011 pela Resolução do Conselho de Segurança 1990. O principal foco da missão da ONU é o de proteger os civis, além de outras responsabilidades, como facilitar o fornecimento de ajuda humanitária, monitorar e verificar a desmobilização das Forças Armadas Sudanesas, de modo que a área fique desmilitarizada. Durante o período em que permanecer em Abyei, de março de 2018 a março de 2019, a CT Maria Almeida vai ser responsável por monitorar, verificar e reportar às autoridades competentes o cumprimento do que está estabelecido para a missão.

Segundo informações da ONU, o conflito territorial de 50 anos na região obrigou mais de 100.000 pessoas a abandonar o lugar. A UNISFA conta com um total de 4.841 profissionais responsáveis pela segurança do local, dos quais são 4.791 militares e 50 agentes de polícia, além do apoio de instituições civis.

Pouco antes de viajar, a CT Maria Almeida explicou à Diálogo que Abyei é uma região petrolífera situada na fronteira entre o Sudão e o Sudão do Sul e um dos principais pontos de tensão desde o acordo de paz, assinado em 2005. “É uma área de fronteira bastante disputada em função de razões político-sociais e econômicas, além de desavenças entre a etnia Misseriya, de origem nórdica e de religião muçulmana, e a etnia Dinka Ngok, de origem sulista e de religião cristã”, declarou. “Em Abyei, a predominância da população é da etnia Dinka Ngok.”

A CT Maria Almeida disse que está muito motivada com a oportunidade de fazer parte da missão. “Além da satisfação profissional e pessoal, minha expectativa é a de desenvolver um trabalho em que eu possa contribuir para a garantia e a preservação dos direitos humanos e da paz entre os povos durante uma função operativa”, destacou.

A preparação envolveu treinamentos no Brasil e no exterior

A preparação da oficial para a missão aconteceu na Escola de Operações de Paz de Caráter Naval, localizada no Centro de Instrução Almirante Sílvio de Camargo, na cidade do Rio de Janeiro. “Minha preparação foi realizada por meio de um estágio ministrado por militares experientes em missões de paz. Tenho certeza de que as lições aprendidas contribuirão para as atividades que desempenharei durante a missão de paz”, disse a CT Maria Almeida.

Além desse estágio realizado no Brasil, a oficial ainda vai participar de mais dois cursos antes de efetivamente exercer a função. O primeiro curso, Treinamento de Iniciação, será realizado durante uma semana em Entebbe, Uganda, com as primeiras informações sobre a missão, principalmente relacionadas à parte de segurança. O outro, também de uma semana, será em Abyei, Sudão, na própria área da missão. “Vou ter conhecimento sobre situações específicas que acontecem no local; além disso, vou ser submetida a testes de língua inglesa e de direção em veículo com tração 4 X 4”, contou.

Importância da mulher na área de conflito

A CT Maria Almeida destacou que cada vez mais a ONU incentiva a participação de mulheres nas áreas de conflitos das missões de paz. “Nessas regiões elas são mais vulneráveis à violência de uma forma geral. É de extrema importância a incorporação feminina nas missões. O processo de acolhimento e apoio entre o mesmo gênero tende a ser mais efetivo”, reforçou. Ela disse que foi exatamente o aumento das mulheres nas atividades de campo durante as missões da ONU que gerou a oportunidade de participar dessa missão em Abyei. “É a primeira vez que irei participar de uma missão no exterior.”

Sobre o desafio de ser a primeira militar brasileira a atuar na função em Abyei, a CT Maria Almeida disse estar feliz e confiante. Ela acha importante que seja despertado o interesse de outras mulheres militares pelas missões de paz e aconselhou que quem tiver o desejo de participar de uma atividade mais operacional, tem que ter confiança. “Somos capazes, independente de quaisquer circunstâncias, até mesmo de um perigo eminente. Acreditem que os obstáculos nos fazem mais fortes e que confiar é ter a certeza de que conseguiremos o nosso objetivo”, ressaltou.

A oficial comemorou a ampliação do espaço das mulheres na MB, com a autorização para o ingresso nas turmas de formação de oficiais na Escola Naval. “É uma inequívoca demonstração de que a Marinha é uma instituição atenta às mudanças sociais. Foi a primeira das três forças a incorporar mulheres em suas fileiras”, exemplificou. “Essa conquista mostra que a Marinha reconhece a competência que nós temos para cumprirmos qualquer tarefa que nos for apresentada.”

A CT Maria Almeida ingressou na MB em 1998 como marinheira, mas sempre buscou a progressão profissional como militar. Em 2004 tornou-se sargento, após uma seleção interna. Graduada em Ciências Contábeis, a militar foi promovida a oficial em 2010, também por meio de seleção interna. Durante sua trajetória profissional exerceu funções mais direcionadas à área financeira, como supervisora da Execução Financeira, analista contábil das Organizações Militares Prestadoras de Serviços, gestora patrimonial, gestora financeira, encarregada de licitações, pregoeira e ajudante de ordens.

Participação do Brasil em missões de paz

O Brasil tem tido cada vez mais participação nas operações de paz mantidas pela ONU, segundo informações do Ministério da Defesa (MD). “Cerca de 250 brasileiros, dentre militares das Forças Armadas e policiais, contribuem para promover ou manter a paz em regiões de conflito”, anunciou o MD em seu site oficial.

Desde o início da participação do Brasil em operações de paz, o país já esteve presente em cerca de 50 missões da ONU, tendo enviado aproximadamente 50.000 militares ao exterior. Além do Sudão do Sul, os brasileiros também atuam em missões no Chipre, na República Centro-Africana, no Saara Ocidental, na República Democrática do Congo, na Guiné Bissau e no Sudão, como observadores militares e oficiais de Estado-Maior.
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