Estratégia de defesa do Caribe: Ciência forense como arsenal contra o crime organizado

As forças de segurança do Caribe estão intensificando seus esforços para combater o crime organizado, concentrando sua estratégia no fortalecimento das capacidades em técnicas forenses que permitam aplicar a justiça com base em evidências. Esse avanço estratégico foi possível em grande parte graças à cooperação internacional e, em particular, ao apoio contínuo dos Estados Unidos e da União Europeia.

Fortalecimento da justiça através de alianças internacionais

Cerca de 40 oficiais seniores de 10 países caribenhos concluíram recentemente um rigoroso treinamento em investigação de cenas de crime, no âmbito do Programa da Aliança do Caribe e da União Europeia para a Justiça. Essa iniciativa, conhecida como PACE Justice, é um programa emblemático de reforma da justiça criminal regional, financiado pela União Europeia e executado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O programa tem como objetivo fortalecer os sistemas judiciais e promover a justiça centrada nas pessoas em todo o Caribe.

A capacitação especializada em investigação de cenas de crime ocorreu no final de 2025, na sede do Sistema Regional de Segurança (RSS), em Barbados. Foi ministrada pelo PNUD e pelo Gabinete das Nações Unidas para Drogas e Crimes (UNODC), em colaboração com o RSS e a Agência da União Europeia para o Cumprimento da Lei.

As avaliações prévias realizadas pelo PNUD identificaram tanto a gestão da cena do crime, como o desenvolvimento de casos de investigação, como áreas críticas para o fortalecimento dos sistemas judiciais no Caribe.

Em resposta a esses desafios, o workshop integral se concentrou em aperfeiçoar estratégias avançadas de investigação, fortalecer a coleta de evidências, a documentação forense e o uso de ferramentas modernas de investigação.

“As condições estruturais para que essa agenda de capacitação e aprimoramento forense seja sustentável ao longo do tempo devem contemplar reformas legais”, disse à Diálogo o Dr. Randy Seppersad, especialista em crime organizado e coordenador da Unidade de Criminologia da Universidade das Índias Ocidentais, em Trinidad e Tobago. “Deve haver cooperação entre promotores e policiais, intercâmbio de informações entre países do Caribe, financiamento, vontade política, entre outros pontos.”

“Em geral, nos países do Caribe, quando se interage com os órgãos de aplicação da lei, encontra-se muita vontade e experiência, mas, com bastante frequência, quando olhamos para os governos em geral, costuma faltar essa liderança, esse impulso e essa orientação”, refletiu.

Excelência forense

A iniciativa do PNUD se soma a outros esforços internacionais, particularmente dos EUA, focados no estabelecimento de capacidades forenses de longo prazo. Os Estados Unidos, por meio do Departamento de Assuntos Internacionais contra o Narcotráfico e Aplicação da Lei (INL), forneceram um financiamento substancial para impulsionar a capacidade técnica da região. Esse apoio inclui um compromisso de US$ 2,2 milhões, para fortalecer os laboratórios forenses em todo o Caribe Oriental, incluindo Santa Lúcia, segundo indicou a Embaixada dos EUA em Bridgetown.

Após esse investimento, o INL designou o Laboratório de Ciências Forenses de Santa Lúcia como Centro Regional de Excelência. Esse reconhecimento, anunciado oficialmente em outubro de 2023, reconhece a condição do laboratório como centro forense líder no Caribe, após ter obtido uma rigorosa acreditação internacional.

Graças a esses esforços, o Laboratório de Ciências Forenses de Santa Lúcia recebeu a certificação da Associação Americana de Acreditação de Laboratórios (A2LA). Essa conquista é significativa, pois o tornou a primeira e única instituição forense credenciada dentro da Organização dos Estados do Caribe Oriental e a segunda em toda a região da Comunidade do Caribe (CARICOM). A acreditação significa que o laboratório atende aos mais altos padrões internacionais de competência e garantia de qualidade.

“Os Estados Unidos têm sido, há muito tempo, os principais benfeitores e apoiadores da região do Caribe em questões de crime e segurança, e os países caribenhos sempre estiveram muito abertos a colaborar com os Estados Unidos”, afirmou Seppersad. “É um fato que os Estados Unidos estão muito à frente, em comparação com o Caribe, em aspectos como capacidades de inteligência e capacidades técnicas.”

Resposta a uma ameaça criminosa ressurgente

O fortalecimento das capacidades forenses no Caribe é uma resposta direta ao ressurgimento do crime organizado na região.

Vanessa Cárdenas, investigadora em crime organizado do Observatório de Assuntos Internacionais da Universidade Finis Terrae, no Chile, explicou as mudanças nas rotas das drogas. “O Caribe, que era uma das rotas tradicionais das drogas da Colômbia para os Estados Unidos, na época de Pablo Escobar, tanto para o Cartel de Medellín, quanto para o de Cali, utilizando países caribenhos, teve depois um declínio”, ressaltou. “Esse declínio ocorreu quando o aumento do patrulhamento dos EUA no Caribe reforçou o vínculo entre os cartéis colombianos e mexicanos, priorizando as rotas terrestres pela América Central.”

“Hoje, no entanto, com o Pacífico fortemente patrulhado e as rotas terrestres também muito mais vigiadas, o Caribe voltou a ser uma opção atraente”, acrescentou Cárdenas.

Como reflexo dessa tendência, a região se transformou em um ponto estratégico para os contrabandistas de drogas, com a participação de grupos como o Tren de Aragua.

Essa renovada ameaça provocou uma forte resposta hemisférica e as nações parceiras rapidamente alinharam seus esforços para combater o narcoterrorismo. Vários países da região, entre eles Argentina, Equador e Trinidad e Tobago, classificaram o Tren de Aragua e outras organizações criminosas transnacionais como ameaças terroristas.

Futuro da cooperação e vigilância reforçada

A profissionalização contínua da ciência forense e o fortalecimento da cooperação internacional marcam um ponto de inflexão na luta contra o crime organizado no Caribe. Embora os desafios estruturais persistam, a região está utilizando a justiça baseada em evidência como uma ferramenta eficaz para a segurança e a paz.

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