Nos últimos cinco anos, o Equador deixou de ser um mero ponto de trânsito de drogas, para se tornar um dos mais importantes centros internacionais de narcotráfico do hemisfério, enviando cocaína da Colômbia e do Peru para a América do Norte e a Europa, informou em um relatório recente InSight Crime, uma organização com sede em Washington, que estuda o crime organizado na América Latina. As autoridades equatorianas têm combatido incansavelmente as organizações criminosas transnacionais mexicanas, colombianas, europeias e de outros países que se instalaram nesse país para cometer crimes.
“O Equador sempre foi um ponto de trânsito de drogas, nunca um país produtor. Mas essa primeira condição cresceu abruptamente nos últimos anos, tornando-se um território estratégico para a cadeia de valor do mercado de cocaína”, disse à Diálogo Daniel Pontón, professor da Escola de Segurança e Defesa do Instituto de Altos Estudos Nacionais do Equador. “Isso significa que o narcotráfico no Equador está crescendo cada vez mais, oferecendo serviços de logística, como armazenamento, estocagem, transporte, introdução de narcóticos em navios e uma série de mecanismos que as organizações criminosas utilizam para introduzir produtos ilegais nos principais mercados consumidores.”

Como várias organizações do crime transnacional usam a região para suas atividades ilícitas, elas também competem por rotas estratégicas para o narcotráfico. Durante 2024, uma via de expansão foi a que conectou os países produtores Colômbia, Peru e Bolívia, passando por rotas terrestres do Brasil ou da Venezuela; e por via fluvial por Paraguai, Uruguai e Argentina, com destino ao norte da África, informou em um relatório a Fundação Internacional e para Iberoamérica da Administração e Políticas Públicas do governo da Espanha.
Outra rota importante é a que utiliza a cadeia de portos equatorianos, pois movimentam um grande volume de carga. Estima-se que 50 por cento da tonelagem de drogas que são traficadas para o norte sai pelo porto mais movimentado do país: Guayaquil. Quando há grande movimentação nos portos, a carga é contaminada com narcóticos, tornando quase impossível o rastreamento, devido ao grande número de contêineres, esclareceu o site de notícias equatoriano Primicias.
No entanto, as autoridades estão trabalhando a todo vapor com os poucos recursos disponíveis, para alcançar sucessos retumbantes. Em novembro de 2024, por exemplo, a Espanha, com o apoio da inteligência equatoriana, efetuou a maior apreensão de cocaína da história do país. Essa operação é a segunda maior intervenção em toda a Europa – a maior em um único contêiner – e uma das mais significativas em nível mundial, pois foram apreendidas 13 toneladas de cloridrato de cocaína, que estavam escondidas em caixas de bananas provenientes do Equador, um dos principais produtos de exportação diária daquele país, explicou o site de notícias equatoriano Expreso.
Cadeia produtiva
A Colômbia continua a ser o maior produtor mundial de folhas de coca, segundo o relatório de novembro Cultivos de Coca 2023, do Gabinete das Nações Unidas para Drogas e Crimes (UNODC). “Em 2023, as plantações aumentaram em 10 por cento, colhendo um total de 253.000 hectares, para atingir uma produção de 2.664 toneladas de cocaína pura”, informou UNODC. Isso equivale a mais de 354.342 campos de futebol profissional. “Um terço dessa droga produzida nos departamentos colombianos próximos ao Equador é traficado através dessas fronteiras, ou seja, cerca de 390 toneladas de cocaína por ano”, informou o site de notícias equatoriano Nexo Digital.
“Cerca de 89,5 por cento da [colheita da] folha de coca está nos mesmos territórios em que esteve nos últimos 10 anos; no entanto, a diferença entre as zonas de concentração e desconcentração continua a ampliar-se”, informou UNODC.
“Há sempre um risco significativo nessa situação, sempre que a folha de coca seja produzida nos limites do lado colombiano, onde há obviamente um alto nível de vulnerabilidade”, acrescentou Pontón. “O crime organizado no Equador se especializou: seu território é uma espécie de ecossistema para a exportação de drogas, mas não para sua produção. Sob essa lógica, embora o Equador não tenha condições de desenvolver cultivos, temos que olhar para ele com muito cuidado, usando o monitoramento sistemático, porque sempre haverá um risco.”
Parceiro completo
O crime organizado na região não se dedica apenas ao narcotráfico, mas também se estende ao tráfico de pessoas, extorsão, sequestro, mineração ilegal, extração ilegal de madeira, tráfico de animais silvestres e contrabando. Essas atividades são acompanhadas de violência, homicídios e recrutamento forçado.
Como o governo equatoriano buscou no início de 2024 a ajuda de nações parceiras em sua guerra contra o crime organizado, os Estados Unidos responderam prontamente e reiteraram seu apoio ao longo do ano. Recentemente, no início de dezembro de 2024, os Estados Unidos capacitaram no Equador mais de 60 representantes da lei especializados nesses crimes, com o apoio do Departamento de Assuntos Internacionais contra o Narcotráfico e Aplicação da Lei, do Departamento de Estado e do Departamento de Segurança Interna dos EUA, informou a Embaixada dos EUA no Equador.
Como parceiro integral na região, os Estados Unidos também transferiram recentemente duas embarcações para reforçar as operações antidrogas da Marinha do Equador, informou o jornal equatoriano La República. Enquanto isso, o Comando Sul dos EUA entregou, em 21 de novembro, um barco, duas caminhonetes e acessórios, para apoiar o trabalho das Forças Armadas do Equador na luta contra atividades ilícitas na fronteira norte do país, informou a Embaixada dos EUA.


