Conexões sujas

Por Dialogo
julho 01, 2011



Heroína do Afeganistão para o México? Pode até parecer improvável, mas em um
esforço para expandir o comércio ilícito, os narcotraficantes mexicanos estão
contrabandeando heroína afegã através de uma longa e arriscada viagem de cerca de
14.000 quilômetros. no processo, esses traficantes estão intensificando alianças em
todo o mundo para manter o comércio de drogas já estabelecido e encontrar novas
rotas e fornecedores para heroína, cocaína e outros produtos químicos.
“As organizações mexicanas chegam ao mercado turco com contatos
estabelecidos, principalmente através de empresas ou companhias onde ocupam posições
minoritárias”, disse Edgardo Buscaglia, professor do instituto tecnológico Autônomo
do México e especialista em crime organizado, ao jornal mexicano El Universal.
“Vemos que eles estão tentando operar fora do mercado mexicano, não só com as drogas
que passam pelo México, mas assumindo posições de poder como protagonistas no
mercado mundial de narcóticos”, acrescentou Buscaglia.
Estas novas alianças surgem num momento em que os cartéis mexicanos estão
lutando, no México e na América central, para controlar territórios e rotas de
drogas do narcotráfico para os Estados Unidos. Embora o México seja o terceiro maior
produtor de heroína do mundo, a demanda no hemisfério ocidental é ainda maior do que
a oferta. Pelo fato de o Afeganistão produzir 90 por cento da oferta mundial de
ópio, parte de suas 307 toneladas de heroína é traficada para o mercado
norte-americano.
Lucros que motivam
Os cartéis de drogas mexicanos estão expandindo sua participação no mercado
global de opiáceos, incluindo o comércio de heroína e ópio, no intuito de explorar
mais estoques e participar de um lucrativo mercado de drogas. Existem 15 milhões de
consumidores de opiáceos em todo o mundo, gerando lucros de US$ 55 bilhões no
comércio de heroína e de US$ 7 a US$ 10 bilhões no comércio de ópio, de acordo com o
relatório Mundial sobre Drogas de 2010 das nações Unidas.
A expansão dos cartéis mexicanos no movimento subversivo internacional não é
novidade. há vários anos eles estão envolvidos no tráfico de drogas para a Europa,
oriente Médio e África, de acordo com a Junta internacional de Fiscalização de
Entorpecentes das nações Unidas. os cartéis mexicanos também têm recrutado membros
de gangues da América central e caribe para ajudar a administrar os negócios na
Europa.
O cartel de Sinaloa é um dos grupos do narcotráfico mais perigosos no México,
de acordo com a inSight, uma organização com bases em Bogotá e Washington D.c. que
se dedica a analisar o crime organizado nas Américas. o traficante fugitivo Joaquín
“El chapo” Guzmán loera, líder do cartel, tem uma riqueza estimada em US$1 billhão,
segundo a revista Forbes. Ele foi capturado na Guatemala em junho de 1993, mas em
janeiro de 2001 escapou de um presídio de segurança máxima no México. Além de lucrar
com uma extensa rede de traficantes de drogas, o cartel desenvolveu uma grande rede
de assassinos. o Departamento de Estado dos EUA está oferecendo uma recompensa de
até US$ 5 milhões por informações que levem à captura de Guzmán.
Segundo o jornal americano The Wall Street Journal, “[o cartel] contrabandeia
uma grande parte da maconha, heroína, cocaína e metanfetaminas que acaba nas ruas
americanas e tem ligações com o crime organizado em 23 países”. o modus operandi do
cartel de Sinaloa em países estrangeiros é estabelecido através de empresas
fantasmas e emissários, disse Buscaglia, que é também o diretor do centro
internacional de Desenvolvimento Econômico e Jurídico. “não que Guzmán, o ‘El
chapo’, viaje para a turquia, mas as operações são feitas em nome de empresas com as
quais ele já estabeleceu relações, seja através de exportação ou importação, ou da
compra de pacotes”, disse Buscaglia.
As operações do cartel de Sinaloa e as relações no oriente Médio permitem que
a organização transporte heroína e dinheiro sem detecção por parte das autoridades.
A conexão entre as máfias turcas e o cartel de Sinaloa vai além do mero mercado de
produção de drogas, explicou Buscaglia. o cartel mexicano está ganhando influência
em outras atividades ilícitas. “Eles trocam drogas por armas ou seres humanos. Eles
comercializam contêineres com artigos ilegais. todas as variações imagináveis”,
afirmou Buscaglia.
Onde a aliança termina
Os cartéis mexicanos não são as únicas organizações criminosas transnacionais
que buscam expandir suas operações. organizações criminosas internacionais,
incluindo as máfias turcas, estão de olhos abertos para o êxito da indústria de
heroína no Afeganistão. como a heroína afegã é contrabandeada através dos países
vizinhos, a turquia tornou-se um das mais populares rotas do tráfico afegão para o
mercado europeu, afirmou o jornalista italiano Matteo tacconi, que é especialista em
assuntos internacionais na Europa e na antiga União Soviética. De acordo com
tacconi, as fronteiras da turquia são difíceis de controlar devido ao terreno
acidentado e, em alguns lugares, inacessível, que faz fronteira com oito países da
Eurásia. Estes desafios facilitam que os traficantes façam o contrabando de drogas
para a turquia via irã e saiam através da Península Balcânica.
“A máfia turca não é nenhuma novata no mercado da heroína. tem desempenhado
um papel de muito destaque ao longo de décadas”, disse tacconi. Atualmente, “a
turquia continua a ser um país na rota obrigatória da heroína afegã enviada para a
Europa”. Quando se trata do negócio das drogas, os traficantes turcos são conhecidos
pela ligação com outras organizações criminosas na região da Península Balcânica,
incluindo as máfias albanesa e búlgara.
A Agência contra o crime organizado, a principal organização do governo do
reino Unido para assuntos relacionados a drogas, terrorismo, criminalidade e
imigração, informou em seu relatório de Avaliação de Ameaça do reino Unido
2009-2010, que “os traficantes turcos continuam a dominar o mercado da heroína na
Europa e reino Unido”. combater as crescentes conexões dos cartéis mexicanos com os
seus colegas turcos constitui um desafio de segurança e estabilidade às autoridades.
como observa Buscaglia, “eles são empresários” e qualquer empresa se torna mais
vulnerável no momento em que desbrava novos mercados e muda o curso das
operações.


Custo de heroína por quilograma

A heroína é o ópio ilícito mais consumido no mundo. O preço por quilograma
aumenta à medida que atravessa fronteiras internacionais.
PAÍS - QUILOGRAMA

Afeganistão: Menos de US$ 3.000
Colômbia : US$ 10.000
México : US$ 35.000
Turquia : US$ 10.300 a US$ 11.800
Europa Central e Oeste : US$ 44.300
Estados Unidos : US$ 45.000 a US$ 70.000
Canadá : US$ 119.000


Fonte: Relatório Mundial Sobre Drogas da onU 2010


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