No coração verde do continente, onde convergem os territórios do Brasil, Peru, Colômbia e Equador, concentra-se um dos maiores desafios à segurança regional. O crime organizado tem presença ativa em 54 das 75 localidades fronteiriças da região amazônica, o que representa um alarmante 72 por cento das áreas limítrofes entre esses países, segundo uma investigação da organização jornalística peruana OjoPúblico e outros meios de comunicação latino-americanos.
Trata-se de estruturas criminosas transnacionais que não apenas traficam, mas também diversificam e administram negócios ilícitos interconectados. “O que estamos observando nas áreas fronteiriças são núcleos de criminalidade onde atividades como a coca, a mineração ilegal e o narcotráfico se alimentam mutuamente”, explicou à Diálogo o criminologista e investigador Bram Ebus, codiretor do projeto de investigação transfronteiriço Amazon Underworld e consultor do think tank International Crisis Group. “O dinheiro do narcotráfico é lavado com incursões em mineração ou aquisição de ouro, que é facilmente legalizado, por meio de negócios falsos. Esses fundos entram no mercado lícito.”

Fragmentação e estratégia criminosa
Nesse cenário, a fragmentação nas fronteiras tornou-se uma vantagem estratégica para os grupos do crime organizado. Relatórios como Narcotráfico em territórios indígenas da Amazônia peruana, elaborado pela Associação Interétnica de Desenvolvimento da Selva Peruana, pela Organização Regional AIDESEP Ucayali, pelo Instituto do Bem Comum do Peru e pela Amazon Watch, confirmaram que essas redes agora operam por meio de corredores dinâmicos que unem várias fronteiras.
“Quando há operações de um lado, os criminosos cruzam facilmente para o outro lado, para ficar fora da lei. Eles até transportam maquinário pesado pelo rio Puré, da Colômbia para o Brasil”, exemplificou Ebus. “É nessas zonas periféricas onde o crime organizado tem seu ninho, onde se encontra e se multiplica.”
Cooperação regional
Para frear a expansão do crime organizado, países da região amazônica estão dando cada vez mais prioridade à cooperação. Essa abordagem colaborativa está se mostrando ser crucial para reforçar as ações de suas forças de segurança.
Por exemplo, a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), que inclui Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela, estabeleceu um mecanismo específico de cooperação. Em junho, os ministros da Segurança Pública dos Estados membros da OTCA concordaram com este quadro para prevenir, investigar e julgar crimes transnacionais. Trata-se do primeiro cenário permanente com um mandato específico para a luta coordenada contra a criminalidade na região.
O secretário-geral da OTCA, Martín Von Hildebrand, destacou a urgência da situação. “A criminalidade na Amazônia não conhece fronteiras, flui como os rios, esconde-se e transforma-se como a floresta. Hoje, crimes transnacionais como o narcotráfico, a mineração ilegal, o tráfico de espécies, o desmatamento criminoso, a lavagem de dinheiro e o tráfico de pessoas são articulados com uma eficácia que contrasta com a fragmentação de nossas respostas.”
Os Estados Unidos também apoiam esses esforços, facilitando a cooperação e fortalecendo as ações das forças de segurança. Por exemplo, em junho, a Administração para o Controle de Drogas dos EUA (DEA) apoiou a Polícia Federal do Brasil, a Polícia Judiciária de Portugal e a Polícia Nacional da Espanha, para interceptar uma embarcação semissubmersível usada para transportar drogas para a Europa.
O Exercício de Operações Combinadas e de Rotação (CORE), patrocinado pelo Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM), é um exemplo da colaboração bilateral na região. O treinamento melhora a interoperabilidade entre ambos os exércitos na Amazônia, com exercícios conjuntos de patrulhamento na selva, assalto aéreo e navegação fluvial.
Operações conjuntas e avance tecnológico
As operações conjuntas são fundamentais na equação. Os exércitos da Colômbia e do Brasil demonstraram isso, ao desmantelar oito gangues de extração de ouro, que utilizavam grupos de mineração ilegal e tráfico de drogas nas fronteiras do rio Puré, informou o Exército da Colômbia. Com essa ação, foram enfraquecidas as finanças do grupo armado Comandos de Frontera, que deixará de receber US$ 25 milhões por ano.
“Conseguiram queimar pelo menos 70 dragas de mineração, o que é um resultado contundente e fruto da cooperação entre as forças de aplicação da lei dos dois países em uma zona fronteiriça”, destacou Ebus.
O Brasil também demonstrou a eficácia de combinar a inteligência territorial e a tecnologia aplicada. Em uma operação liderada pela Força Aérea Brasileira e pelo Comando do 9º Distrito Naval, foram identificados possíveis pontos logísticos para o armazenamento e distribuição de drogas ilegais.
Em outra operação, lançada em maio, mais de 20 órgãos estatais monitoram uma área de 3,2 milhões de hectares no território indígena Kayapó, muito afetado pela mineração ilegal. Para isso, foi utilizado o drone tático Nauru 500-C, criado pelo Centro Gestor e Operativo do Sistema de Proteção da Amazônia, vinculado ao Ministério da Defesa. De acordo com o governo brasileiro, o veículo otimiza as missões terrestres, substituindo imagens de satélite por um sistema ágil e em tempo real, o que supõe uma vantagem significativa em zonas sem estradas, onde predomina o transporte fluvial.
O Projeto de Monitoramento da Amazônia Andina (MAAP), um projeto da ONG Amazon Conservation, é outro exemplo da integração da ciência e da tecnologia. Suas ferramentas satelitais e de monitoramento estão produzindo informações precisas e rápidas, para identificar padrões da mineração ilegal e fortalecer a tomada de decisões.
Ebus conclui que o intercâmbio de inteligência, as ações com respostas conjuntas e o monitoramento binacional continuam sendo cruciais para a segurança da Amazônia.


