As organizações criminosas transnacionais (OCTs) estão travando uma guerra silenciosa contra os ecossistemas da América Latina, transformando a biodiversidade e os recursos naturais em uma economia ilícita multimilionária. Crimes como a mineração ilegal de ouro, o desmatamento e o tráfico de animais selvagens estão corroendo rapidamente a Amazônia e outros ambientes críticos, financiando grupos criminosos e alimentando violações dos direitos humanos em todo o continente.
A magnitude dessa ameaça exige uma resposta regional coordenada. Para enfrentar esse desafio, vários países da região intensificam as operações conjuntas regionais das forças de aplicação da lei e das forças armadas. Estas operações vão desde grupos de trabalho nacionais especializados, como a Operação Artemisa, da Colômbia, que destacou milhares de soldados para combater o desmatamento, até iniciativas internacionais, como a Operação Escudo Verde, na qual participaram forças do Brasil, Colômbia, Equador e Peru, e que tinham como objetivo lutar contra os crimes na Bacia Amazônica.
Entre as iniciativas mais significativas de 2025 está a Operação Madre Tierra VII, uma campanha internacional com duração de dois meses, liderada pela Interpol.
Operação Madre Tierra VII
Em maio e junho de 2025, autoridades de nove países latino-americanos uniram forças para realizar esta operação em grande escala, coordenada pelo Escritório Regional da Interpol para a América Central. A operação, que serviu para lembrar a magnitude e a complexidade em escala global dos crimes contra o meio ambiente, contou com a participação da Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá e República Dominicana.
Os resultados, anunciados no final de outubro, confirmaram a urgência do foco da operação. A iniciativa resultou em 225 prisões e deu início a centenas de novas investigações sobre redes de crime organizado.
“Os resultados destacam como as redes do crime organizado estão transformando as espécies e florestas protegidas em cadeias de commodities transcontinentais, com consequências profundas para os ecossistemas e a resiliência climática”, informou a agência Associated Press após o anúncio da Interpol.
Os resultados preliminares revelaram uma amplitude impressionante de atividades criminosas: 203 violações relacionadas ao desmatamento ilegal; 138 violações relacionadas ao tráfico de animais selvagens; 23 casos de mineração ilegal; 26 de pesca ilegal e 16 por crimes de poluição.
Madre Tierra VII resultou em apreensões significativas de contrabando, expondo o alcance global desses crimes. As autoridades confiscaram espécies protegidas vivas – incluindo aves, répteis, primatas e grandes felinos –, bem como 2,4 toneladas de barbatanas de tubarão e raia e madeira protegida de alto valor, como o pau-rosa. A investigação expôs rotas transnacionais que conectavam a América Latina a mercados tão distantes como a Europa e a Ásia.
O predomínio da mineração ilegal e do desmatamento
Embora os crimes ambientais sejam diversos, a mineração ilegal de ouro se tornou uma das atividades mais destrutivas e lucrativas para as OCTs. Impulsionada pelo aumento dos preços do ouro (que alcançaram mais de US$ 3.500 por onça, em 2025), ela frequentemente gera mais rendimentos para grupos criminosos em países como Peru e Colômbia do que o tráfico tradicional de drogas.
Essa convergência de crimes é profundamente alarmante. O Gabinete das Nações Unidas para Drogas e Crimes (UNODC) destaca que as facções de narcotraficantes se diversificaram para a mineração ilegal de ouro, aproveitando as rotas e infraestruturas de contrabando já estabelecidas.
“Os grupos do crime organizado têm se infiltrado cada vez mais nas cadeias de abastecimento de ouro, atraídos pelo valor crescente do metal e pela alta lucratividade do setor”, afirma o UNODC.
O custo ambiental é impressionante. A mineração ilegal invade florestas, empregando produtos químicos perigosos, como o mercúrio – estima-se que 30 toneladas sejam despejadas anualmente nos cursos de água da Amazônia – e causando um desmatamento significativo e uma destruição ecológica. De acordo com dados do UNODC, somente na última década houve um aumento de 625 por cento nas áreas de mineração ilegal em terras indígenas em toda a região amazônica, devastando comunidades indígenas em países como Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela.
“A mineração ilegal de ouro se tornou um dos principais fatores do desmatamento, da degradação do solo e da poluição”, destaca a Fundação para o Devido Processo (DPLF). “Sua expansão chega até mesmo a áreas naturais protegidas e reservas indígenas, com impactos profundos na saúde, coesão social e cultura das comunidades locais.”
Uma resposta estrutural e coordenada
Operações como Madre Tierra VII demonstram que ações coordenadas e baseadas em inteligência podem desmantelar essas complexas estruturas criminosas. No entanto, especialistas enfatizam que prisões por si só não são suficientes.
Oscar Soria, diretor executivo do think tank ambiental The Common Initiative, afirmou à AP que a operação mostra como os crimes ambientais na América Latina “integraram-se profundamente nas redes tradicionais do crime organizado”.
Soria insta a uma resposta estrutural que vá além das prisões e inclua uma governança mais sólida, uma melhor coordenação regional e esforços para recuperar territórios onde as redes criminosas prosperam na ausência do Estado.
Para enfrentar essa crise atual, os governos precisam tratar os crimes ambientais como um problema fundamental de segurança e financeiro, integrando a inteligência ambiental às alfândegas, aos esforços de combate à lavagem de dinheiro e à cooperação transfronteiriça, para desmantelar toda a cadeia de valor ilícita.


