COVID-19 acelera a depressão econômica na Nicarágua

COVID-19 acelera a depressão econômica na Nicarágua

Por Julieta Pelcastre / Diálogo
abril 08, 2020

A economia da Nicarágua retrocedeu 10 por cento nos últimos dois anos e se prevê que cairá novamente, devido à interminável crise sociopolítica; além disso, o impacto do coronavírus (COVID-19) poderá acelerar negativamente sua economia, garante o relatório Impacto Econômico da COVID-19 na Nicarágua, publicado pela ONG Fundação Nicaraguense para o Desenvolvimento Econômico e Social (FUNIDES).

A FUNIDES informa que os possíveis efeitos seriam a queda da demanda de produtos de exportação, que afetaria os rendimentos do país. O relatório prevê a redução de remessas e investimentos estrangeiros e um número menor de turistas. Os efeitos ocorreriam em um momento em que a economia do país está em seu terceiro ano de recessão econômica.

As pessoas usam máscaras faciais como precaução contra a disseminação do novo coronavírus, o COVID-19, em um mercado em Manágua. (Foto: Inti Ocon / AFP)

“Para que o país possa enfrentar devidamente a pandemia do coronavírus, é urgente que o Estado busque uma solução negociada para a crise político-social que afeta o país desde abril de 2018, para recuperar a confiança na democracia, melhorar a atividade econômica e restabelecer os laços de cooperação com outras nações”, disse à Diálogo Mario Arana, presidente da Câmara de Comércio Americana da Nicarágua. A vice-presidente Rosario Murillo anunciou o primeiro caso positivo da COVID-19 no país no dia 18 de março.

Nenhum país poderá combater a pandemia sem a cooperação global e regional, advertiu a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe. A COVID-19 terá efeitos devastadores na economia mundial e esses efeitos serão, com toda certeza, mais intensos e distintos do que os sofridos durante a crise financeira global de 2008-2009, e atingirá com mais força a América Latina, assegura a FUNIDES.

Em 2020, a economia nicaraguense acumula dois anos de queda: 5,7 por cento em 2019 e 3,8 por cento em 2018, diz o Fundo Monetário Internacional (FMI). “Nesse período, a economia retrocedeu oito anos”, disse à Diálogo Néstor Avendaño, diretor da companhia nicaraguense Consultores para el Desarrollo Empresarial.

O Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento informam que não concederam novos recursos nem assinaram novos contratos para que a Nicarágua financie seus programas de investimento público, bem como a balança de pagamentos. Por outro lado, o relatório da FUNIDES assegura que o coronavírus aumentará o desemprego e os índices de pobreza.

“Mais de 1,4 milhão de pessoas não podem gerar renda no país. Se a recessão aumentar, poderemos declarar a Nicarágua em depressão econômica”, disse Avendaño. “Enquanto isso, o setor de turismo, seguido pelos setores da construção, do comércio e financeiro sofrem o efeito da crise e da imagem negativa do país”, acrescentou Arana.

A Câmara Nicaraguense da Micro, Pequena e Média Empresa estima que em 2018 e 2019 mais de 1.000 empresas fecharam suas portas. O coronavírus será mais um golpe para o turismo, declarou à Voz da América a presidente da Câmara Nicaraguense de Turismo Lucy Valenti.

“A economia criativa, democrática e vitoriosa que se promove na Nicarágua ajuda a impulsionar o país”, disse a vice-presidente Murillo diante da crise. “A prioridade do regime que se proclama ‘cristão, socialista e solidário’ não são os seres humanos, tampouco a economia, mas unicamente a arrecadação de impostos e a manutenção do esquema de extorsão que mantém à tona as finanças públicas para abastecer a folha de pagamento da repressão”, escreveu em um editorial o jornalista nicaraguense Carlos F. Chamorro, no jornal espanhol El Diario.

“O líder sandinista não demonstra interesse em abordar questões urgentes, como a pandemia do coronavírus e a paz no país. Não haverá uma negociação econômica sem que se solucione o problema político”, finalizou Arana. “Ortega não tem a capacidade para recuperar a economia nem a governabilidade.”

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