Contra-ataque das redes lícitas

Countering Illicit Networks

Por Geraldine Cook/Diálogo
outubro 30, 2017

As redes criminosas internacionais são um dos maiores desafios para a segurança da América Latina e do Caribe. Seus delitos transpõem fronteiras e afetam a estabilidade da região. A necessidade de que os países se consolidem para coordenar medidas conjuntas para lutar contra o tráfico de drogas e de armas, a mineração ilegal, o terrorismo e o crime cibernético não pode ser adiada. Esse foi o sentimento unânime dos mais de 60 oficiais das forças armadas, policiais e especialistas de segurança e defesa da Argentina, do Brasil, Chile, da Colômbia, dos Estados Unidos, do Paraguai, Peru e Uruguai que participaram do “Seminário Regional Sul-Americano: Combate às Ameaças das Redes Transnacionais e Transregionais (T3N, por sua sigla em inglês)”. O Centro William J. Perry de Estudos Hemisféricos de Defesa organizou o evento em Lima, no Peru, de 26 a 28 de setembro. Da mesma forma, os participantes discutiram sobre as estratégias regionais para combater os problemas de segurança e a participação das forças militares nessa luta. “As redes ilícitas possuem muito dinheiro, são muito sofisticadas”, disse o General-de-Divisão do Exército dos EUA Joseph P. DiSalvo, subcomandante militar do Comando Sul, em seu discurso de abertura. Para eliminar as T3N, disse, “temos que ser capazes de compartilhar informações de maneira rápida, de compartilhar a inteligência e processá-las de forma igual, de nos assegurarmos de que se realize o vínculo local com o país específico – onde os criminosos atuam – e regional para poder desintegrar a rede de maneira efetiva”. O Gen Div DiSalvo compartilhou com os participantes sua preocupação com o problema da corrupção, já que essa é uma das táticas ilícitas mais utilizadas pelas T3N para cometer seus delitos. Ele fez um chamado urgente aos participantes para que ajudem a erradicá-la a partir de seus países. “O mais difícil é como reduzir o nível de corrupção.” “A corrupção corrói”, disse o Capitão-de-Mar-e-Guerra Víctor Gonzáles Jáuregui, assessor jurídico da Secretaria do Comando Geral da Marinha de Guerra do Peru. “Se não estabelecermos políticas para combater com firmeza a corrupção, vai ser difícil erradicar o crime organizado.” Ameaças à segurança regional Durante os três dias do seminário, os representantes dos países sul-americanos compartilharam lições aprendidas e examinaram as estratégias nacionais e regionais para evitar que as atividades criminosas continuem se expandindo. “Os problemas que Peru, Equador, Colômbia ou Chile enfrentam são os mesmos enfrentados pelo Panamá. Temos de trabalhar e continuar unidos para enfrentar essas ameaças”, disse o General-de-Brigada da Polícia Nacional da Colômbia William René Salamanca Ramírez, comandante da região sul-ocidental. Em sua opinião, o seminário é uma oportunidade excelente para trocar conhecimentos com outros países na luta contra as organizações criminosas e buscar estratégias governamentais para seu combate. Segundo o Gen Brig Salamanca, na Colômbia, uma das estratégias mais eficazes é a cooperação interinstitucional. Por exemplo, as forças militares e de polícia cooperam juntas para combater esse flagelo. “O mapa do crime na Colômbia nos fez trabalhar muito mais unidos para enfrentar a criminalidade”, disse. “O problema do crime organizado e do narcotráfico é um problema comum em toda a América Latina”, disse o Tenente-Coronel da Polícia Militar do Brasil Alexandre de Vasconcelos, subsecretário de Ordem Pública do Estado do Ceará. “No Brasil, as organizações criminosas que controlam o narcotráfico se desenvolveram de uma maneira muito intensa e forte”, disse. Por exemplo, o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho – duas das organizações criminosas mais fortes do Brasil – estimulam a formação de novos grupos criminosos no país. “Temos um total de quase 93 grupos criminosos que operam no Brasil, dedicados ao narcotráfico, que praticam tráfico de pessoas, ações especiais em crimes econômicos contra as pessoas do campo e em outros países como Bolívia, Paraguai e Colômbia.” Estratégia compartilhada “Vivemos todos os flagelos da criminalidade. Quando nos apresentam a problemática do Brasil, as prisões, por exemplo [conflito interno entre grupos criminosos], sentimos que estamos no caminho para isso”, disse o Capitão da Polícia da província de Buenos Aires Jorge Rodríguez, chefe da Unidade de Atividades Especiais da Superintendência de Inteligência Criminal. “Essa problemática é um alerta precoce; a experiência que eles possuem nos ajuda a evitá-la”, acrescentou. O Cap Rodríguez enfatizou que as redes internacionais para combater o crime internacional organizado são a única maneira de combater 100 por cento as T3N. “A única forma de ganhar é combatermos todos juntos, termos uma estratégia comum.” “O que falta para se conseguir uma estratégia regional?”, se perguntaram os participantes. “É uma questão de coordenação e de sistemas que exigem melhor organização”, respondeu o Cap Rodríguez. “Necessitamos de melhores sistemas com os quais possamos coordenar não só a operação mas também a inteligência. Creio que estamos bem perto de consegui-lo.” O Coronel (R) do Exército do Uruguai Heber Cappi Menchaca, pesquisador da área estratégica de defesa nacional, indicou que, além de adotar procedimentos, uma das estratégias é a adoção de uma série de normas internacionais que devem ser elaboradas de forma simultânea e aplicadas de forma homogênea na região. Em sua opinião, o crime organizado transnacional “é um fenômeno que possui grande versatilidade”, que pode ser contido com o trabalho coordenado regional. “As redes são ferramentas muito boas, mas é preciso potenciá-las”, disse o Contra-Almirante (R) da Marinha do Chile Arturo Fuenzalida, chefe da área de estudos do Centro de Estudos Estratégicos da Marinha do Chile. Disse, também, que o Chile quer contribuir com sua experiência para melhorar as redes lícitas para lhes permitir combater as redes ilícitas. No decorrer do seminário, os participantes se aprofundaram no que se refere à promoção da segurança inclusiva nas Américas e da segurança cibernética. “A mulher pode trazer outro tipo de liderança, empatia e outro tipo de racionalidade à paz e à segurança internacional”, disse em sua apresentação Tamara Lasic Valiñas, pesquisadora de assuntos estratégicos na Argentina. “A mulher, hoje em dia, está galgando posições em diferentes cenários, e a instituição militar não é exceção”, acrescentou. A mudança institucional nas forças militares da Argentina é evidente, pois 17,7 por cento do pessoal militar é feminino. Os oficiais das forças armadas e especialistas em segurança reiteraram seu compromisso de trabalhar em conjunto para ganhar a batalha contra as T3N. “Colômbia, Paraguai, Argentina, Chile, em geral, todos estamos preocupados com essas ameaças transnacionais, com o crescimento e invasão de nosso território, porque essas ameaças não têm capitais, não respeitam fronteiras, não têm nacionalidade”, disse o CMG Gonzáles. “O que lhes interessa é poder obter a maior quantidade de ganhos ilícitos.” Os participantes levaram consigo as propostas analisadas e as palavras iniciais do Gen Brig DiSalvo, “O enfoque que adotamos é um enfoque regional. Essa é a única forma pela qual vamos conseguir enfraquecer as T3N.”
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