O auge da cocaína colombiana e a prolongada crise política e econômica na Venezuela reforçaram drasticamente o Caribe como rota principal para o tráfico de drogas, especialmente cocaína, para os Estados Unidos e a Europa.
Em 2024, as Antilhas Francesas registraram apreensões recordes, incluindo uma de 10,5 toneladas de cocaína na costa da Martinica. Entre os membros da tripulação havia dois colombianos e um venezuelano. Também foram registrados números recordes na República Dominicana, com a descoberta de 9,5 toneladas de cocaína em dezembro de 2024 e 1,5 toneladas em julho de 2025. Da mesma forma, apreensões importantes foram realizadas em outras ilhas, particularmente em Barbados, onde foram descobertas 3,5 toneladas de cocaína em novembro de 2023, em um barco de pesca com tripulação venezuelana.
“O Caribe é uma das rotas de saída da cocaína da Colômbia, tanto diretamente, como através da Venezuela”, explica à Diálogo o analista de segurança holandês Douwe den Held. Segundo o especialista, a rota se consolidou graças ao aumento da produção de cocaína na Colômbia e ao fato de que, nas pequenas economias insulares, os lucros do narcotráfico permitem comprar rapidamente proteção e influência.
O Relatório Mundial sobre Drogas 2025 do Gabinete das Nações Unidas para Drogas e Crimes (UNODC) revelou que a produção mundial de cocaína atingiu um recorde de 3.708 toneladas em 2023. A Colômbia, sozinha, representou mais de 67 por cento do cultivo mundial de folhas de coca, com um aumento de 53 por cento na produção de cocaína naquele ano.
O papel da Venezuela e das ilhas ABC
A crise na Venezuela alimentou simultaneamente uma operação paralela de tráfico de pessoas, na qual grupos criminosos aproveitam as mesmas rotas marítimas para transportar migrantes – muitas vezes vulneráveis à exploração sexual e ao trabalho forçado – para destinos próximos, como as ilhas ABC (Aruba, Bonaire, Curaçao), Trinidad e Tobago e mais além.
De acordo com um relatório da Insight Crime, o estado venezuelano de Falcón, próximo às Antilhas Holandesas e à região colombiana de Catatumbo, onde se cultiva coca e se produz cocaína, tornou-se um dos principais centros de partida para o tráfico de drogas e pessoas. Aqui, os grupos criminosos locais operam com impunidade, supostamente com o apoio dos altos comandos militares venezuelanos, também conhecidos como o Cartel dos Sóis.
Enquanto grupos como o Cartel da Guajira dominam o corredor ocidental, o estado costeiro de Sucre, não muito longe de Trinidad e Tobago, é alvo do grupo terrorista venezuelano Tren de Aragua (TdA). Embora a principal atividade do TdA seja a extorsão e o tráfico de pessoas, ele está cada vez mais envolvido no tráfico de cocaína, muitas vezes atuando como subcontratado de organizações maiores. Além disso, grupos armados colombianos, como o Exército de Libertação Nacional (ELN) e dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), mantêm presença física nos estados fronteiriços venezuelanos (Zulia e Apure), o que estabiliza ainda mais a cadeia de abastecimento.
“Levar cocaína para a Venezuela é bastante simples: há amplas áreas de cultivo no lado colombiano da fronteira e, cada vez mais, também no lado venezuelano”, diz den Held. Ao contrário de outros países que transportam a droga em contêineres, na Venezuela essa opção geralmente não está disponível. Por isso, grande parte da cocaína sai do país em pequenas embarcações, muitas das quais viajam pelo Caribe.
Cooperação entre máfias estrangeiras
A apreensão, em julho de 2025, de 4,8 toneladas de cocaína a bordo de um cargueiro de cimento perto da Martinica, que resultou na prisão de um cidadão sérvio ligado ao cartel dos Balcãs, confirmou o crescente interesse de poderosas organizações estrangeiras na rota do Caribe.
“Graças ao elevado turismo, é relativamente fácil passar despercebido. Muitas pessoas chegam do exterior e ficam por muito tempo, alegando motivos legítimos, como migração ou aposentadoria. Isso facilita aos traficantes de drogas operarem sem levantar suspeitas”, diz den Held.
A presença das máfias italianas, em particular a Camorra e a ‘Ndrangheta, tem sido registrada principalmente na República Dominicana e nas Antilhas Holandesas. A ‘Ndrangheta, em particular, usa sua sofisticada rede global para enviar cocaína sul-americana através dos principais portos europeus, como Roterdã e Antuérpia, criando fortes laços implícitos com os facilitadores de transporte locais.
A máfia albanesa também está presente, incluindo uma facção de Montenegro, conhecida como o clã Kotor, que faz parte do núcleo da rede de cartéis dos Balcãs. A detenção na República Dominicana, em 2024, de Dennis Goedee, líder da chamada Mocro Mafia (de origem marroquina, que opera na Holanda), revelou ainda que este grupo colabora com gangues locais da ilha de Curaçao, concretamente os No Limit Soldiers (NLS), importante organização de tráfico de drogas com sede em Curaçao.
Há também indícios da participação da máfia turca, em particular no setor hoteleiro e de hospitalidade do Caribe holandês, que oferece oportunidades ideais para a lavagem de dinheiro e o estabelecimento de bases logísticas.
Graças à presença desses grupos transnacionais, muitas ilhas funcionam agora como zonas de trânsito, de onde a cocaína é enviada em pequenas embarcações para centros como Porto Rico, República Dominicana ou Jamaica. De lá, a droga parte em contêineres ou aviões para os mercados finais da Europa e dos Estados Unidos.
A lavagem de dinheiro na era digital
Paralelamente ao narcotráfico, também estão sendo desenvolvidas operações sofisticadas de lavagem de dinheiro. Essas atividades são visíveis, porque muitas vezes são desproporcionais em relação à economia legal das ilhas.
“A indústria do jogo está muito presente, especialmente em áreas com alta concentração de cassinos, como a ilha de Curaçao, que é um território autônomo da Holanda, onde operam muitos cassinos online”, diz den Held.
Além disso, vários países do Caribe apostaram em moedas digitais apoiadas pelo Estado. Enquanto o Sand Dollar das Bahamas continua em vigor, a moeda regional DCash (usada em Granada, Antígua, São Cristóvão e Santa Lúcia) foi oficialmente encerrada em janeiro de 2024, embora esteja previsto seu relançamento. A introdução inicial dessas moedas digitais, apesar de sua estabilidade oficial, suscitou a preocupação de que a tecnologia subjacente pudesse ser explorada para facilitar transações criminosas, devido à dificuldade de rastrear sua origem no setor informal.
Segundo den Held, outro mecanismo importante é um sistema bancário paralelo, muitas vezes gerido por comunidades chinesas conhecidas como redes fei qian ou “dinheiro voador”, que operam à margem do sistema formal e são fundamentais para transferências rápidas e ilícitas de dinheiro entre a América, a Europa e a Ásia. Esse sistema, utilizado tanto por cartéis latino-americanos, quanto por máfias europeias, permite lavar dinheiro sujo por meio de empresas fictícias. Na ilha de Bonaire, nas Antilhas Holandesas, por exemplo, com uma população de apenas 34.000 habitantes, estima-se que existam cerca de 40 supermercados de propriedade chinesa, muitas vezes com poucos indícios de atividade em seu interior, suspeitos de serem pontos de lavagem de dinheiro.
Resposta global contra o narcotráfico
A crescente sofisticação do crime organizado exigiu um nível sem precedentes de colaboração internacional em matéria de interdição e aplicação da lei.
A Força-Tarefa Conjunta Interagencial Sul (JIATF-Sul), liderada pelos Estados Unidos e que inclui 22 nações parceiras, bateu recordes em 2025. No final de agosto de 2025, a JIATF-Sul havia contribuído para a apreensão de 402,7 toneladas métricas de cocaína, superando em muito o recorde anual anterior. Essas operações de interdição marítima geralmente contam com a participação de parceiros caribenhos e resultaram em apreensões em grande escala, incluindo a maior descarga de drogas da história da Guarda Costeira dos EUA, em agosto de 2025, com mais de 34,5 toneladas métricas, que foi o culminar de 19 interdições no Caribe e no Pacífico.
Em uma demonstração de cooperação localizada, os Estados Unidos e a República Dominicana realizaram sua primeira missão conjunta contra o narcotráfico em setembro de 2025, de acordo com a Direção Nacional de Controle de Drogas (DNCD). Essa operação permitiu recuperar 1.000 quilos de cocaína de uma lancha rápida, que havia sido detectada e destruída graças ao intercâmbio bilateral de informações de inteligência, o que destaca a mudança para uma aplicação direta e conjunta da lei contra alvos transnacionais.
A rota caribenha das drogas é uma ameaça não apenas para os países de destino, mas também para as ilhas por onde passa. “A maioria desses países não tem capacidade para combatê-la e ela é acompanhada por muita violência”, afirma den Held.
No entanto, os recentes sucessos nas operações conjuntas fornecem um caminho claro para uma defesa eficaz. A resposta coordenada, baseada no intercâmbio de inteligência e na integração operacional entre as forças locais, os Estados Unidos e os parceiros europeus, resultou na interrupção da cadeia de abastecimento e na apreensão de volumes recordes de narcóticos. Ao reforçar esses modelos de cooperação multinacional e interinstitucional, os governos regionais estão melhorando sua capacidade para enfrentar o crime organizado global e proteger suas comunidades.


