A crescente participação da China na indústria petrolífera da Venezuela, destacada pelo recente contrato com China Concord Resources Corp (CCRC), levanta importantes preocupações de segurança. Esse acordo não é apenas uma transação econômica, mas uma medida estratégica que reforça o regime de Nicolás Maduro, questiona a eficácia das sanções internacionais e amplia a influência geopolítica de Pequim na região.
Apoiar um regime e minar as sanções
O contrato com a CCRC fornece uma tábua de salvação crucial para o regime de Maduro. Enquanto as sanções internacionais são projetadas para limitar o acesso do regime aos mercados internacionais e sua capacidade de se financiar, a China oferece uma alternativa vital. O acordo com a CCRC canaliza investimentos muito necessários para o setor petrolífero venezuelano, que atravessa dificuldades, o que prejudica diretamente a eficácia das campanhas de pressão internacional para alcançar uma mudança democrática.
De acordo com fontes citadas por Reuters, o regime de Maduro assinou um contrato com a CCRC para o desenvolvimento de campos petrolíferos, no qual a empresa chinesa se comprometeu a investir mais de US$ 1 bilhão, com o objetivo de atingir uma produção de 60.000 barris diários de petróleo bruto até o final de 2026. Esse contrato está protegido pela Lei Constitucional Antibloqueio, promulgada em 2020, para garantir o sigilo dos contratos públicos e ajudar o país a contornar as sanções internacionais.
No início de 2024, a CCRC começou a negociar sua participação nas jazidas Lago Cinco e Lago Lagunillas. Em maio, assinou um contrato de repartição de produção por 20 anos com o regime de Maduro, segundo informou um executivo da empresa que falou com Reuters.
De acordo com Juan Fernández, diretor da associação civil Gente del Petróleo, o acordo é uma forma de “participação produtiva”, concebida para obter um benefício compartilhado com Petróleos de Venezuela – PDVSA. “Mas, quando falam em investir US$ 1 bilhão, não é algo imediato; levará anos para se concretizar totalmente”, afirmou à Diálogo.
De acordo com Fernández, a CCRC não possui experiência relevante no setor petrolífero e sugeriu que a China poderia estar associada a capitais dos Emirados Árabes Unidos ou de outros países da região, buscando assim reduzir os riscos de investir em um regime não reconhecido pela comunidade internacional.
Em seu site, a CCRC se descreve como uma empresa dedicada ao comércio de “matérias-primas” e à “gestão de riscos de mercado”, sem especificar detalhes sobre sua experiência na indústria do petróleo. O acordo em si tem um objetivo estratégico: fornecer à China uma fonte de energia confiável e fortalecer sua presença em uma região de importância geopolítica.
Desafio para a estabilidade regional
A crescente influência da China desafia a estabilidade do Hemisfério Ocidental. O acordo da CCRC faz parte de uma tendência mais ampla em que Pequim se alinha com governos antidemocráticos, proporcionando-lhes um escudo econômico e político contra a pressão internacional.
Os primeiros sinais sobre a crescente participação chinesa na indústria petrolífera venezuelana foram divulgados por Iván Freites, secretário de profissionais e técnicos da Federação Única de Trabalhadores Petrolíferos da Venezuela. Em conversa com Diálogo, Freites relatou que, em junho passado, uma série de acontecimentos provocou um importante revés. A delegação da China, que tinha chegado à Venezuela para contratar pessoal destinado a trabalhar nos andaimes da refinaria de Amuay, suspendeu seus esforços ao descobrir que os “andaimeiros” tinham em média 63 anos, enquanto os andaimes podiam alcançar 80 metros de altura. Isso significava que careciam do número necessário de trabalhadores para concluir os reparos e, desde então, nenhum trabalho mais foi realizado, explicou Freites.
Perspectivas e limites do acordo
A Fundação Andrés Bello, especializada no estudo da influência chinesa na América Latina, informou que a estratégia inicial da CCRC previa a reativação de 100 poços de petróleo, ampliando para 400 em fases posteriores, com o objetivo de garantir um fornecimento estável de petróleo para a China. Isso está em consonância com a estratégia mais ampla da China de garantir recursos energéticos e estabelecer alianças estratégicas.
No entanto, Fernández destacou que a produção prevista de 60.000 barris por dia está longe de satisfazer a demanda da China, que gira em torno de 14 milhões de barris por dia. Além disso, o petróleo bruto venezuelano é de viscosidade tão alta que só pode ser processado em algumas refinarias especializadas.
“Se ocorrer uma mudança política na Venezuela, será necessário revisar todos os contratos da indústria petrolífera com base na Lei Antibloqueio”, alertou Fernández, destacando os riscos legais e políticos desses acordos tão opacos.
A opacidade e os riscos em torno dos acordos entre a Venezuela e as empresas chinesas levantam questões sobre o futuro da indústria petrolífera nacional e a soberania energética do país. Enquanto isso, trabalhadores e especialistas observam com preocupação o avanço desses contratos secretos, que muitos consideram uma forma de domínio estrangeiro.


