Contraterrorismo no Equador: Ofensiva contra o domínio criminoso

A declaração do Equador de um “conflito armado interno” e sua medida sem precedentes de classificar 22 poderosas organizações criminosas locais como grupos terroristas representam uma mudança estratégica necessária na luta pela segurança. Essa decisão, validada por um crescente consenso regional e pelas designações dos Estados Unidos de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO), reconhece uma realidade geopolítica crítica: as organizações criminosas transnacionais (OCTs) evoluíram do contrabando com fins de lucro, para um ator não estatal que emprega violência política e desafia a soberania democrática em todo o hemisfério.

Quando o crime se torna terrorismo

A designação, anunciada no início de 2024 pelo presidente equatoriano, Daniel Noboa, após uma escalada maciça da violência, tem origem na adoção, por parte das gangues, de táticas destinadas a coagir o Estado e aterrorizar a população civil – características marcantes do terrorismo. A violência, que disparou após 2020, é alimentada pelo status do Equador como um importante centro logístico e de trânsito para o fluxo global de cocaína. Cartéis do México, da Colômbia e até mesmo dos Balcãs estabeleceram bases no país. De acordo com analistas de segurança e relatórios investigativos, essas redes criminosas aproveitam fortemente a posição do Equador como o maior exportador mundial de banana, usando contêineres marítimos cheios de frutas como cobertura para operações massivas de contrabando de cocaína.

“O Equador está enfrentando uma crise alarmante. Está cercado por Colômbia e Peru, onde operam os cartéis de drogas mais poderosos”, declarou à Diálogo Jorge Serrano, assessor da Comissão de Inteligência do Congresso do Peru, em uma entrevista em abril. “Ele também sofre a influência da Venezuela, onde o crime organizado mantém alianças com redes terroristas internacionais.”

Essa escalada criminosa ficou dramaticamente demonstrada em janeiro de 2024, quando o desaparecimento do líder de Los Choneros, José Adolfo “Fito” Macías Villamar, desencadeou uma onda de violência que incluiu atentados a bomba, sequestro de policiais e uma ocupação armada sem precedentes de uma emissora de televisão nacional, durante uma transmissão ao vivo.

Esses atos confirmaram que as gangues – incluindo Los Choneros (ligada ao Cartel de Sinaloa) e Los Lobos (ligada ao Cartel Jalisco Nova Geração) – buscam ativamente subverter e desestabilizar a governança política. Suas campanhas de terror são extensas, variando do assassinato do candidato presidencial Fernando Villavicencio, em agosto de 2023, supostamente orquestrado por Los Lobos, a assassinatos em massa dentro de prisões e ataques e ameaças contínuas contra autoridades públicas, juízes, promotores e suas famílias. Esses grupos reivindicam coerção territorial, impondo governança criminosa e controlando rotas de tráfico de drogas para o Pacífico, muitas vezes extorquindo empresas locais.

O presidente Noboa reafirmou recentemente o objetivo claro de segurança da medida e agradeceu aos Estados Unidos pelo apoio, afirmando que o objetivo era “eliminar de fato qualquer ameaça terrorista”.

Ferramentas estratégicas e cooperação regional

A classificação desses grupos como FTO pelos Estados Unidos, em setembro de 2025, não é meramente simbólica; ela serve como um catalisador para a cooperação em todo o continente, desbloqueando poderosas ferramentas legais e financeiras para todas as nações parceiras.

A designação de FTO aciona imediatamente sanções que congelam ativos e propriedades, negando às OCTs o acesso ao sistema financeiro dos EUA e pressionando as instituições financeiras estrangeiras a cessar as transações com os grupos designados. Essas sanções extraterritoriais são uma ferramenta essencial para todos os governos regionais que buscam interromper as cadeias globais de abastecimento e financiamento dessas organizações criminosas, afirmam think tanks como o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS). Além disso, a classificação como FTO eleva o status da ameaça, promovendo um compartilhamento de inteligência mais profundo e um planejamento militar coordenado entre as agências de contraterrorismo nas Américas.

Como afirmou o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, ao anunciar as designações em Quito, essa medida traz “todos os tipos de opções” para Washington trabalhar em conjunto com o governo do Equador, para eliminar essas ameaças. Antes da reunião, Rubio declarou nas redes sociais que o Equador e os Estados Unidos estão “alinhados como parceiros-chave para acabar com a imigração ilegal e combater o crime transnacional e o terrorismo”.

O apoio dos EUA tem sido demonstrado por meio de assistência operacional concreta. Isso inclui o intercâmbio acelerado de informações de inteligência; treinamento especializado em combate ao narcotráfico para unidades de elite, como a instrução sobre operações de assalto aéreo ministrada à 9ª Brigada de Forças Especiais do Equador, uma unidade de elite do Exército do Equador, em agosto de 2025. O Capitão Darwin Venegas, do Exército do Equador, da 9ª Brigada de Forças Especiais, resumiu o impacto, afirmando: “Somos os melhores, assim como as Forças Armadas dos EUA. Juntos, somos ainda melhores”.

A assistência também inclui uma ajuda material significativa, como mais de US$ 13 milhões em novos fundos de segurança e US$ 6 milhões para obter drones para a Marinha equatoriana. Essa cooperação estratégica também inclui expertise jurídica para acelerar a extradição de líderes criminosos importantes, como a extradição do líder de Los Choneros, conhecido como Fito, para os Estados Unidos, em julho de 2025, para responder a acusações federais relacionadas a drogas e armas.

Além dos Estados Unidos, os países vizinhos também reforçaram seu compromisso com a estabilidade da segurança do Equador. Colômbia, Peru e Chile, enfrentando as mesmas ameaças crescentes de grupos como o Tren de Aragua (TdA), intensificaram acordos bilaterais para impulsionar patrulhas coordenadas nas fronteiras, compartilhar inteligência sobre os movimentos das OCTs e sincronizar o combate aos fluxos financeiros ilícitos. Essa ação coletiva garante que as OCTs não possam simplesmente fugir através de uma fronteira para escapar da justiça, criando uma dissuasão unificada contra a expansão criminosa em toda a região andina.

Defesa unificada

A ação decisiva do Equador faz parte de uma tendência crescente e necessária em toda a América Latina, para redefinir a ameaça das OCTs e galvanizar a segurança hemisférica.

Essa mudança é evidenciada pelo consenso regional demonstrado pela designação pelos Estados Unidos do TdA, que opera em todas as Américas, como FTO, e uma entidade terrorista por governos como Argentina, Peru e Trinidad e Tobago.

Ao designar essas entidades como organizações terroristas, as nações parceiras estabelecem uma linguagem jurídica comum e uma frente unificada, reconhecendo que as OCTs modernas são ameaças sofisticadas e altamente organizadas contra a soberania do Estado. Esse alinhamento estratégico ressalta que a luta pela estabilidade em Guayaquil e na costa equatoriana é fundamentalmente uma defesa da ordem democrática para todo o hemisfério.

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