Comunidade Siona do Equador e da Colômbia em perigo de extinção devido ao narcotráfico

Comunidade Siona do Equador e da Colômbia em perigo de extinção devido ao narcotráfico

Por Julieta Pelcastre/Diálogo
janeiro 20, 2021

A comunidade Siona, localizada às margens do Rio Putumayo, na Colômbia, e na província de Sucumbíos, no nordeste do Equador, está sob risco de extinção devido à presença de grupos armados, paramilitares e do narcotráfico, segundo a reportagem A violência do narcotráfico destrói as florestas e encurrala os Siona na fronteira do Equador e da Colômbia, publicada no dia 3 de dezembro de 2020 pela plataforma de jornalismo ambiental Mongabay Latam.

Depois de monitorar via satélite esse território indígena binacional, a Mongabay Latam, em coordenação com o veículo de comunicação GK do Equador, revelou que entre janeiro e outubro de 2020 a ONG Global Forest Watch (GFW) registrou cerca de 4.157 alertas de desmatamento ao longo da fronteira entre a Colômbia e o Equador. Apenas na comunidade de Buenavista, na Colômbia, se concentram 4.027 desses alertas.

Nessa foto de outubro de 2020 é notório o desmatamento da zona habitada pela comunidade Siona, devido ao cultivo ilegal de folha de coca, que destrói as florestas na fronteira da Colômbia e do Equador. (Foto: Ministério do Meio-Ambiente da Colômbia)

“Encontramos áreas de desmatamento afastadas das estradas, o que pode indicar a presença [de plantações] de coca”, disse Mikaela Weisse, gerente da GFW, à Mongabay Latam. O monitoramento também confirmou que essas áreas estão relacionadas ao corte de árvores praticado pelos narcotraficantes, para construir laboratórios ilegais para a fabricação de cocaína.

Cerca de “400 hectares desmatados seriam produto do cultivo ilegal de folha de coca por parte dos grupos armados e narcoparamilitares”, diz a reportagem. Essa não é a única ameaça ao povo Siona; ele também enfrenta o impacto ambiental causado pelos narcolaboratórios, que utilizam químicos altamente tóxicos.

A Tenente-Coronel Liz Cuadros, chefe do Centro de Estudos Estratégicos contra o Narcotráfico, da Polícia Nacional da Colômbia, disse à revista colombiana Semana, no dia 26 de novembro, que “os danos ao ecossistema são incalculáveis. A contaminação das águas por ácido sulfúrico (utilizado na fabricação de cocaína) é algo que nos preocupa cada dia mais”.

Outra ameaça que afeta os Siona são as minas antipessoais instaladas por grupos armados que buscam controlar o espaço fronteiriço para o cultivo e a venda de coca, segundo o site da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos.

A presença desses artefatos explosivos não só causou o deslocamento forçado dos indígenas, mas também confinou os Siona a poucas áreas conhecidas, tornando proibitivamente arriscadas as práticas tradicionais, como a caça, a pesca e a busca por alimentos, informa o site da ONG dos EUA de direitos humanos Amazon Frontlines.

Além disso, em abril, os grupos armados disseram aos Siona que quem se contaminasse com a COVID-19 seria executado, de acordo com a Mongabay Latam. A ameaça espalhou medo e alarmou toda a região. Há muitos anos essa comunidade amazônica convive com a violência, acrescentou o site.

Entre os grupos criminosos identificados na região de fronteira de Sucumbíos e Putumayo, estão as dissidências das frentes 48 e 49 das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), Los Comuneros e La Constru, “os quais não apenas se dedicam ao narcotráfico, mas também mantêm redes para transporte de substâncias, como precursores químicos e gasolina, entre outras”, informa o portal da InSight Crime, organização de investigação e jornalismo especializada em crime organizado na América Latina e no Caribe.

“No território, há uma lógica de recrutamento forçado ou de ameaça aos membros da comunidade: ‘ou vocês plantam coca ou terão que ir embora, ou colaboram conosco ou terão que ir embora’”, disse na reportagem María Espinosa, assessora legal das comunidades Siona, do Equador e da Colômbia. “É urgente a implementação de medidas acordadas, imediatas e eficazes, para enfrentar o recrutamento forçado de meninos/as e adolescentes, o que já vem ocorrendo”, disse no Twitter o grupo indígena Siona ZioBain Buenavista-Wisuya, da Colômbia, no dia 20 de novembro.

A reportagem da Mongabay Latam concluiu que os esforços dos Siona para cuidar de seu território são enormes, mas não são suficientes para deter a perda de florestas e seu próprio desaparecimento como povo.

“Aconteça o que acontecer, estou disposta a lutar por minha comunidade”, garante Adiela Jinet Mera Paz, a jovem líder apresentada no dia 23 de junho de 2020 em um curta-metragem da revista digital The New Yorker, intitulado Siona: Defensores da Amazônia sob Ameaça.

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