Combate em múltiplos domínios e as guerras das próximas décadas

Combate em múltiplos domínios e as guerras das próximas décadas

Por Coronel Fernando Montenegro, das Forças Especiais do Exército Brasileiro e professor convidado da Academia da Força Aérea de Portugal
julho 15, 2021

A guerra híbrida de hoje abrange o conceito de combate em múltiplos domínios. Alguns chamam isso de guerras não militares. A vertente cibernética é uma delas e pode levar à neutralização ou degradação de muitos meios técnicos do inimigo ou das forças adversas. Já em 1998, os Estados Unidos e a Organização do Tratado do Atlântico Norte congestionaram os equipamentos eletrônicos na Sérvia antes de intervir lá e fizeram o mesmo em 2003 no Iraque.

Atualmente, quando o termo guerra cibernética é usado, remete a manobras agressivas em tempo de paz no ciberespaço. Essas ações permanecem limitadas porque, no momento, a arma cibernética é muito pouco controlável para permitir manobras maciças como, por exemplo, destruir os seis sistemas de informação que fazem as sociedades modernas funcionar: militar, saúde, bancos, transporte, abastecimento e energia. Uma ação dessas faz uma sociedade entrar em colapso sem ter disparado nenhum tiro, como os apagões de energia elétrica, por exemplo.

Vírus cibernético

Um fuzileiro naval dos EUA, designado para a Força-Tarefa Aérea-Terrestre de Propósito Especial – Resposta à Crise – Comando Central, participa do treinamento do Sistema de Aeronaves Não-Tripuladas (C-UAS, em inglês) na área de operações do Comando Central dos Estados Unidos, em 22 de junho de 2021. O treinamento envolveu a familiarização com os dispositivos C-UAS portáteis que são projetados para detectar e deter drones inimigos. (Foto do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA pela Sargento de Artilharia Melissa Marnell)

No entanto, existem armas cibernéticas limitadas muito eficazes.  O vírus Stuxnet, lançado em 2010 pelos americanos e israelenses contra os centros nucleares iranianos, destruiu dezenas de milhares de computadores.

Outro tipo de ação agressiva é entrar nos sistemas do Pentágono para roubar informações. Isso pode ser feito por pessoas comuns, por pequenos grupos ou por Estados. Os países mais evoluídos levam esse tipo de ataque bem a sério. O Livro Branco da Defesa do Brasil (2010) indica que os esforços sobre a segurança cibernética devem ser liderados pelo Exército Brasileiro; outros países, como a França,  estabeleceram uma prioridade desde 2008 em aporte de recursos financeiros para o segmento.

Em 2019, Israel foi o primeiro país a responder a um ataque cibernético com uma força militar. Após uma ofensiva cibernética do Hamás, os israelenses lançaram um ataque aéreo a um prédio na Faixa de Gaza, de onde vinham os ataques do grupo terrorista.

Emprego militar

Os cenários dos campos de batalha fragmentados também registram o acesso de novas armas a pequenos grupos de combatentes com capacidade de interferir em cenários tradicionalmente equilibrados.

Graças à internet, desenvolveu-se uma dinâmica de difusão generalizada de técnicas de emprego militar. Durante décadas, foi possível manter em sigilo conhecimentos de como produzir um artefato nuclear ou mesmo algum explosivo improvisado. Os drones, inicialmente menos ameaçadores, difundiram-se mais rápido, até mesmo porque já existia uma indústria de aeromodelos.

O uso ilegal de drones

É possível que, em breve, algumas contendas entre o Hezbollah e Israel ocorram no espaço aéreo do Oriente Médio entre drones armados. Nesse sentido, vale dizer que, facções de crime organizado já usam drones simples comprados no comércio para infiltrar telefones celulares em presídios do Brasil. As novas tecnologias também são mais leves e acessíveis.

A assimetria dos conflitos modernos se apresenta de várias formas. Para fabricar um helicóptero, são necessárias talvez centenas de pessoas, matemáticos, engenheiros, agentes de segurança, e haver toda uma indústria por trás. Forças irregulares normalmente não necessitam de armas sofisticadas como um sistema Astros de lançadores múltiplos de foguetes, um caça como o Gripen ou um submarino nuclear.  No entanto, eles precisam de fuzis e mísseis portáteis; e precisamente, esses dispositivos proliferam na superfície do planeta.

Embora a preocupação contra agentes químicos, biológicos, radiológicos e nucleares não ocupe sempre as manchetes de noticiários, não quer dizer que seja uma vertente obsoleta. As epidemias, como a do Coronavírus, mostram a necessidade de se ter militares e profissionais capacitados permanentemente mesmo em tempos de paz e mostram um breve ensaio de algumas hipóteses que não estão descartadas.

Vale relembrar que, uma pessoa mentalmente perturbada, uma facção terrorista extremista ou um líder inescrupuloso encurralado pode lançar mão da utilização de um desses vetores de forma inconsequente.

Guerra de narrativas

Cerimônia de criação do Comando Espacial dos EUA na Base da Força Aérea de Peterson, no Colorado, no dia 21 de outubro de 2020. (Comando Espacial)

Existe também outra dimensão dos combates: a guerra das narrativas, que ocorre no campo das operações psicológicas, onde se disputa a percepção que será predominante nos corações e mentes das pessoas. Numa democracia, isso tem importância capital, porque interfere diretamente nas urnas.

A propaganda sempre foi um elemento fundamental na guerra. Não é à toa que facções como o as Forças Armadas Revolucionárias Colombianas-Exército Popular (FARC-EP), o Exército de Libertação Nacional (ELN), a Daesh, Aqmi (Al-Qaeda no Magrebe Islâmico) ou Aqpa (Al-Qaeda na Península Arábica) investem em profissionais, com um domínio técnico extraordinário em Tecnologia da Informação e publicidade. Já faz muito tempo que essas forças irregulares entenderam que não basta enviar SMS ou e-mails cheios de erros. Eles produzem vídeos e mensagens tecnicamente notáveis, com qualidade similar à de um canal de streaming.

Apesar de todas essas evoluções, as armas convencionais como aviões de caça, carros de combate e fragatas, comuns nas guerras clássicas, ainda têm seu lugar na atualidade. Nesse cenário, as circunstâncias têm apenas forçado a indústria bélica dos países a tornar esses equipamentos mais flexíveis para que se adaptem mais facilmente aos diferentes formatos de conflitos que vêm surgindo.

Armas nucleares

Em relação aos artefatos nucleares, as potências militares encontram-se diante de um paradoxo: essas armas têm muito pouca chance de serem usadas, mas é a própria existência delas que garante o estranho equilíbrio de que os países que as detêm não serão obrigados a usá-las. Em outras palavras: esses países estão empenhando parte de seus orçamentos para responder a suposições que não são atuais. Mas se não fizerem isso, talvez a hipótese se torne real. Abandonar essa opção é uma decisão difícil. Além disso, vale recordar que uma característica fundamental das tecnologias militares é que elas levam muito tempo para serem produzidas. Nenhum país constrói um avião, carro de combate ou míssil em duas semanas. É necessário competência tecnológica, planejamento, logística industrial e outras necessidades com muita antecipação.

No caso da tecnologia nuclear, muitos países provavelmente não abandonam o setor por razões estratégicas e técnicas. Abandonar a produção de determinados segmentos da indústria e da pesquisa científica significaria perder ou passar a ser defasado em relação a um determinado conhecimento rapidamente. Recuperar a vanguarda tecnológica levaria anos ou décadas.

No tocante ao espaço, podemos dizer que a tendência é que seja cada vez mais relevante. Em 2019, os Estados Unidos criaram o Comando Espacial, caracterizando uma militarização ostensiva do espaço. “Muitas coisas irão acontecer no espaço, porque o espaço é o mais novo domínio de guerra do mundo”, declarou o ex-presidente americano Donald Trump durante a assinatura do ato de criação do novo comando.

Por sua vez, no mesmo ano, Emmanuel Macron, presidente da França, também anunciou a criação de uma Força Espacial francesa.  Essas ações foram acompanhadas por protestos por parte da China e da Rússia, em que chegou a ser declarado que o consenso internacional sobre o uso pacífico do espaço estaria sendo violado.

A verdade é que uma grande parte dos sistemas de informação das sociedades atuais depende de cadeias de satélites em órbita, o que torna essa questão uma prioridade; particularmente, após a entrada dos chineses na corrida espacial poucas décadas atrás. No caso de uma guerra entre Estados, certamente os sistemas espaciais seriam um dos principais objetivos.

Guerras do futuro próximo

As estatísticas têm apresentado novos fatores de risco para os próximos quinze a vinte anos. Os europeus já estão chamando as migrações de bomba humana, depois que as ondas de refugiados se intensificaram a partir de 2015. Números recentes disponibilizados pela Organização das Nações Unidas indicam que o mundo tem cerca de 250 milhões de migrantes internacionais, ou seja, pessoas que vivem em países distintos dos que nasceram. Deste total, mais de 68 milhões encontram-se em situação de deslocamento forçado. O Brasil e a Colômbia estão recebendo o impacto de milhões de refugiados do regime ditatorial venezuelano, que levou a população da Venezuela a uma situação miserável.

Boa Vista, capital do estado de Roraima, foi salva de um colapso por causa da Operação Acolhida, em que o Ministério da Defesa do Brasil criou uma grande estrutura logística para gerenciar a crise no recebimento dos refugiados e a internalização de famílias na sequência.

As alterações decorrentes do impacto ambiental da ação do homem, como a urbanização, também são fatores adicionais de desestabilização. Pode-se visualizar futuras guerras alimentares e guerras pela água, por exemplo. Ainda não se sabe como serão alimentados os 10 bilhões habitantes previstos da Terra em 2050.

A apropriação de áreas ricas em recursos naturais provavelmente será uma questão importante nas próximas décadas; da mesma forma, recursos energéticos e alimentos também. A disputa pelo conhecimento de ponta tende a ser cada vez mais acirrada porque, se o acesso à tecnologia é um fator de poder, não há razão para que não deva ser a fonte de futuros conflitos.

É necessário que os estadistas sejam bem assessorados na prospecção de cenários para que possam garantir sempre as capacidades mínimas dos países para dar respostas aos diversos desafios que se apresentam. Por sua vez, também é essencial que as estruturas e instituições atuais busquem cada vez mais serem versáteis e terem a capacidade de serem empregadas em diversos contextos com o mínimo de custos.

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