Marinha da Colômbia combate desnutrição infantil em La Guajira

Colombian Navy Battles Childhood Malnutrition in La Guajira

Por Dialogo
abril 05, 2016





A Marinha colombiana implantou um plano de assistência humanitária para ajudar comunidades de Alta Guajira, no departamento de La Guajira, onde a desnutrição infantil atinge níveis alarmantes. Em 2015, 30 em cada 100.000 crianças de até 5 anos morreram por causas associadas à condição.

A Marinha forneceu água potável, que é muito escassa na região, além de alimentos, tratamentos médicos e matérias-primas para o estabelecimento de projetos de produção sustentável nessas comunidades, como parte das Jornadas de Apoio ao Desenvolvimento, conforme diretrizes do governo. O Contra-Almirante Evelio Ramírez, Comandante da Força Naval do Caribe, disse a Diálogo
que os deveres das Forças Armadas incluem um componente de assistência social. Os militares prestam ajuda às populações mais vulneráveis, especialmente durante situações de alto risco como a crise atual.

“Desde setembro de 2015, a Marinha concentra esforços na zona de Alta Guajira, cujas comunidades estão entre as de mais difícil acesso e [para as quais] o transporte marítimo é a melhor opção”, diz o C Alte Ramírez. “Nesta região não há presença permanente do Estado, as condições geográficas são adversas, o terreno é desértico, os municípios são remotos e as vias de acesso são limitadas, e por isso a emergência tem sido maior. Além disso, a população é majoritariamente indígena.”

No total, a Marinha já fez cinco Jornadas de Apoio ao Desenvolvimento e beneficiou 6.000 pessoas, oferecendo tratamento de saúde integral, 400.000 litros de água, 66 toneladas de comida e material escolar e uma tonelada de roupas e sapatos. O número de moradores que recebem assistência é especialmente alto por causa das dificuldades de acesso às cidades remotas da região.

Um ano em Alta Guajira


A cada 40 ou 45 dias, a Marinha faz uma Jornada de Apoio ao Desenvolvimento em La Guajira. Trata-se de uma iniciativa das Forças Armadas para reunir os esforços do governo e de empresas privadas na promoção da saúde e do bem-estar dos colombianos em lugares distantes dos centros urbanos. Os eventos são organizados desde os anos 70 e prosseguem em todo o país. Mas os esforços da Marinha se concentraram em Alta Guajira no ano passado.

Em 16 de setembro, a Marinha fez a primeira Jornada de Apoio ao Desenvolvimento nos setores de Castillete e Puerto López em Alta Guajira. Graças à iniciativa, 1.425 pessoas receberam 200 quilos de Bienestarina, um suplemento nutricional produzido pelo Instituto Colombiano do Bem-Estar Familiar (ICBF) que contém leite de vaca e uma mistura de farinhas de diferentes grãos. A Marinha também transportou 37.000 litros de água a uma cidade onde não chove há mais de dois anos.

“Para ajudar os moradores de La Guajira de maneira efetiva, reunimos os alimentos, donativos, caminhões-pipa, profissionais de saúde e todo o restante da ajuda em Cartagena”, diz o C Alte Ramírez. ”Saímos em um barco cheio, com 200 toneladas de capacidade de carga, e fomos para Puerto López-Guajira, onde organizamos as jornadas em toda a costa da península. Embora o mar apresente condições adversas em 98% das vezes, com ventos de 30 nós e ondas de dois metros de altura, o esforço vale a pena porque o o acesso terrestre às populações é ainda mais difícil devido à ausência ou ao estado precário das estradas.”

As Jornadas de Apoio ao Desenvolvimento duram entre três e quatro dias. Em cada evento, as autoridades oferecem tratamento médico, odontológico, pediátrico, psicológico e oftalmológico, entre outros serviços prestados por voluntários. Os programas também incluem trabalho de alvenaria e carpintaria, bem como de outros profissionais que podem rapidamente construir e reparar estruturas básicas como poços, parques e escolas.

Impacto do El Niño


A geografia de Alta Guajira se tornou mais árida devido à ausência de chuvas por mais de um ano. Os reservatórios de água e a produção de comida também foram atingidos pelo fenômeno El Niño.

A cultura predominante de La Guajira é a do povo indígena wayúu, que fala o wayuunaiki – um dos idiomas oficiais do departamento desde 1992. Segundo o censo demográfico de 2005, em La Guajira viviam 619.135 habitantes, 45% deles indígenas, representando 20% da população indígena do país.

Em 2010, a taxa de mortalidade infantil das comunidades indígenas de La Guajira era de aproximadamente 42 mortes por 1.000 nascimentos vivos, de acordo com um estudo sobre o perfil sociodemográfico do departamento publicado pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), agência da Organização das Nações Unidas (ONU). “Ao se comparar com os totais nacionais [de mortalidade infantil], observa-se que as taxas deste departamento são sistematicamente superiores, e as diferenças são maiores nas taxas relativas à mortalidade infantil. Isso significa que há uma maior probabilidade de morte prematura entre as crianças de La Guajira”, afirma o estudo.

A desnutrição aguda exerce um impacto sobre a taxa de mortalidade infantil de La Guajira, de acordo com o Ministério da Saúde. Em 2015, cifras preliminares indicaram que a desnutrição aguda levou a 30 mortes a cada 100.000 crianças menores de 5 anos, duas a menos que em 2013 e 10 a mais que em 2011. Em 2016, já houve 10 mortes nessa faixa etária, a maioria dentro da comunidade wayúu.

A Colômbia assegura o direito à saúde aos povos indígenas e possui uma legislação especial para os serviços que lhes são prestados, informa a CEPAL. As Jornadas de Apoio ao Desenvolvimento integram os serviços que o governo oferece a essas comunidades.

Marinha apoia projetos de produção na região


A Ação Social Naval de San Andrés, grupo formado por esposas voluntárias de oficiais ativos e inativos da Marinha, criou uma organização chamada Tecedores de Sonhos para ajudar a combater a pobreza na área através de oportunidades para empreendedores. “Tradicionalmente, as comunidades wayúu têm feito produtos de artesanato, como mochilas e redes tecidas com lãs e fios”, diz Clarena Hernández, presidente da Ação Social Naval. “Com os Tecedores de Sonhos, queremos incentivar essa valiosa tradição […] e estabelecê-la como um projeto produtivo.”

A Marinha articula canais de comércio para os artesãos, a maioria deles mulheres, para garantir a sustentabilidade do Tecedores de Sonhos. O C Alte Andrés Vásquez afirma que os Tecedores de Sonhos criarão um ciclo logístico de prosperidade econômica porque as famílias se organizarão em cooperativas de artesanato, o que facilitará a gestão eficiente dos pedidos.

“A ideia é ajudar as comunidades a prosseguir em seu processo artesanal com clientes que comprarão um produto final com preço justo. isso revigorará o ciclo de comércio, já que [as comunidades] não devem depender de doações para subsistir.”
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