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China não quer uma ordem mundial regida pela democracia

China não quer uma ordem mundial regida pela democracia

Por Brian Fonseca / Diretor do Instituto de Política Pública Jack D. Gordon, da Escola de Relações Internacionais e Públicas Steven J. Green, da Universidade Internacional da Flórida
fevereiro 13, 2020

Os países latino-americanos e caribenhos deveriam forçar a China a aceitar o Estado de Direito para preservar a integridade de suas instituições.

O envolvimento da China na América Latina é, sobretudo, o resultado da ascensão chinesa no século XXI como uma potência política e econômica global. O seu comércio total na região cresceu de US$ 17 bilhões em 2002 para quase US$ 306 bilhões em 2018, tornando-se efetivamente o segundo parceiro comercial mais importante desta zona e o primeiro para muitos países latino-americanos. O crescimento do país na região deriva majoritariamente de sua necessidade de ter acesso a recursos naturais e a diferentes mercados, essenciais para a manutenção de seu crescimento econômico. Ao mesmo tempo, Pequim também vê na região uma forma de ampliar sua influência política global sobre instituições multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio e as Nações Unidas, bem como organizações regionais, como a Comunidade dos Estados da América Latina e do Caribe e o Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Sob a perspectiva geopolítica estratégica, o envolvimento da China no hemisfério ocidental faz parte de seus esforços globais mais amplos, com o objetivo de moldar um mundo de acordo com o modelo político autoritário chinês. Pequim vê a ordem democrática mundial dominante como uma ameaça constante à sua própria sobrevivência como regime político autoritário. Os contínuos protestos violentos em Hong Kong, que são uma reação ao extremo poder de Pequim sobre as políticas daquele território, reforçam a ameaça constante que as liberdades democráticas representam para regimes autoritários como o da China. No entanto, apesar de haver intenções estratégicas e até mesmo ambiciosas quanto ao crescimento chinês, ainda existem elementos de oportunismo que guiam seu envolvimento global e hemisférico. As atividades da China em toda a América Latina e no Caribe variam em tamanho e em alcance e é importante que se tenha sempre em mente que a região é, de fato, parte de um esforço global de Pequim para aumentar sua influência econômica, política e de segurança, de um modo geral, e garantir bases geoestratégicas em importantes regiões de todo o mundo – como a América Latina e o Caribe.

Com esse objetivo, o seu crescente envolvimento econômico e político desafia os interesses estratégicos da América Latina e do Caribe em três áreas importantes. Primeiro, as práticas econômicas chinesas estão aumentando a dependência da China entre os países latino-americanos e caribenhos e representam um desafio à soberania das nações da região. Em segundo lugar, as práticas econômicas aliadas à proliferação das suas tecnologias de informação e vigilância reduzem a eficácia das instituições democráticas e expandem a influência da China nas áreas de economia, política e segurança. Em terceiro lugar, a complexa campanha de propaganda de Pequim está favorecendo as plataformas de mídia chinesas e regionais. Os Institutos Confúcio e as comunidades étnicas chinesas no resto do mundo tratam de diminuir o sentimento contra Pequim e aumentar seu poder de persuasão em toda a região.

Governos democráticos e autonomia política ameaçados
Nos últimos 15 anos, a China cresceu e se tornou um importante parceiro econômico de diversos países da América Latina e do Caribe. Seu envolvimento econômico na região incentivou e permitiu que muitas nações latino-americanas e caribenhas buscassem uma interferência maior em suas respectivas atividades diplomáticas e econômicas internacionais, em benefício de toda a região. Em troca, a China extrai matérias-primas e tem acesso aos mercados internacionais que alimentam seu próprio crescimento econômico e satisfazem as demandas internas de sua população. Não há nada intencionalmente maldoso em relação a isto e nem todos os seus envolvimentos econômicos têm por objetivo derrubar a soberania e a segurança das nações da região. Então, o que preocupa não é o fato de que a China esteja buscando laços econômicos na região; mais precisamente, o problema é que não está negociando de acordo com os princípios democráticos que a região lutou tanto para conquistar. Em muitos casos, suas práticas comerciais enfraquecem as instituições democráticas, que já enfrentam problemas, ao incentivar a corrupção e burlar a transparência e a prestação de contas – que são os pilares centrais da governança democrática. Os compromissos econômicos da China também enfraquecem o Estado de Direito e ignoram os importantes padrões ambientais e trabalhistas.

Pequim incentiva um misto de práticas econômicas e políticas projetadas para persuadir os países latino-americanos a se alinharem aos seus objetivos de política interna e externa. Além disso, usa o comércio e os investimentos como fatores de influência sobre os países da América Latina e do Caribe para que lhe ofereçam apoio político – como a Política de uma China Única –, bem como condições favoráveis aos seus negócios. Por exemplo, a China utiliza o atrativo do seu extenso mercado e meios de financiamento, frequentemente sob a direção de Pequim, para obter projetos de trabalho e entrar nos mercados, sob as suas próprias condições, e forçar parcerias, das quais pode roubar tecnologia essencial e usar seus recursos para avançar sua posição, especialmente em indústrias estratégicas como as de telecomunicações, agricultura, inteligência artificial, robótica e grandes volumes de dados, como sugere a Made in China 2025, uma política industrial do Estado lançada em maio de 2015, que busca fazer com que esse país se torne um criador de produtos e serviços de mais alta categoria e deixe de ser a “fábrica” do mundo. Como seria de se esperar, as empresas chinesas empreendem uma grande ofensiva contra funcionários públicos e a elite econômica na América Latina e no Caribe, através de subornos e acordos de recompensas que enfraquecem as recentes conquistas da região no combate à corrupção pública.

Vista aérea de um caminhão em uma estrada atravessando a zona sul inundada de Uyuni Salt Flat, na Bolívia, em 10 de julho de 2019. A Bolívia está se preparando para produzir lítio, essencial para a indústria eletromotriz da China. (Foto: Pablo Cozzaglio / AFP)

Os bancos chineses – China Development Bank e Export-Import Bank of China – tornaram-se os maiores credores da América Latina e desempenham um papel fundamental para seduzir e atrair as nações latino-americanas e caribenhas com empréstimos a juros razoáveis. No entanto, o acúmulo dessas dívidas é que pode, no decorrer do tempo, pesar sobre os governos e comprometer suas respectivas autonomias na tomada de decisões políticas, econômicas e de segurança. Na América Latina, os empréstimos acumulados entre 2005 e 2018 já passam de US$ 140 bilhões. A Venezuela, seguida por Brasil, Equador e Argentina, são os principais receptores desses empréstimos.

Tecnologias baratas e arriscadas
Os investimentos da China em telecomunicações, inteligência artificial e outras tecnologias fundamentais preocupam o hemisfério devido à vulnerabilidade da segurança que apresentam, com um potencial que poderia servir como plataforma de coleta inteligente de dados contra os EUA e seus parceiros, e às questões a respeito dos impactos gerais sobre a soberania e as normas digitais. Além disso, é provável que esse investimento na tecnologia de vigilância afete a soberania e as normas digitais da América Latina.

Em particular, a China instalou sistemas de vigilância na Argentina, Bolívia, Equador, Panamá e Uruguai. Segundo Evan Ellis, professor e pesquisador de estudos latino-americanos do Instituto de Estudos Estratégicos da Escola Superior de Guerra do Exército dos EUA, a disseminação desses sistemas pode normalizar o tipo de violação à privacidade que os Estados autoritários praticam contra sua população. Ellis acrescentou que esses sistemas podem ser utilizados para obter grandes quantidades de dados nos Estados Unidos e na região. É possível que haja acessos clandestinos aos sistemas de vigilância que permitem que a China obtenha informações, enquanto as autoridades nacionais estiverem usando essas tecnologias. Isso colocaria informações de cidadãos latino-americanos nas mãos do governo chinês.

Sufocando o sentimento contra Pequim
A China também empreende complexas campanhas de informação que enfraquecem as fontes de informação ocidentais, desafiam as narrativas do hemisfério e aumentam seu poder de persuasão. Para a China, as operações de informação na região são consideradas essenciais para combater movimentos dissidentes, tais como o Falun Gong, que isola ainda mais Taiwan (quase a metade dos países que reconhecem Taiwan como independente são da América Latina e do Caribe), encobrir as questões de direitos humanos chineses no Tibete e entre os muçulmanos uigures e combater os movimentos pró-democracia, como, por exemplo, na Venezuela.

Usando os meios chineses e regionais de comunicação e impulsionando os mais de 40 Institutos Confúcio na região, a China apresenta visões alternativas em vários tópicos. Também utiliza os Institutos Confúcio e as Salas de Aula Confúcio para divulgar o idioma mandarim, principalmente entre os membros de suas comunidades no exterior. Isto permite que Pequim se comunique com e através de comunidades étnicas chinesas vitais no mundo inteiro, para aumentar a influência orgânica nos países anfitriões. Além disso, promove seu Centro de Imprensa China-América Latina & Caribe, que recebe jornalistas latino-americanos na China para estadas prolongadas de cinco a seis meses, antes de voltar para casa. Considerando o sucesso dessas iniciativas, as pesquisas mostram um aumento constante da aprovação da China na região, que em alguns casos supera os EUA. Embora esse resultado não possa ser atribuído exclusivamente às suas operações de informação, é provável que as campanhas de propaganda chinesas tenham fortalecido sua imagem em geral na região.

Assim sendo, o que a região deveria fazer para preservar a integridade de suas instituições? Obrigar a China a obedecer ao Estado de Direito. O hemisfério trabalhou duro para aprofundar as reformas democráticas, criar resiliência em suas instituições políticas e econômicas, combater a corrupção, proteger seu meio-ambiente e lutar por práticas trabalhistas que fortaleçam as classes trabalhadoras em toda a região.

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