A conversa a seguir, realizada originalmente em meados de 2025, oferece uma visão oportuna das mudanças estruturais nas relações hemisféricas, que continuam a definir o panorama atual.
Nas últimas duas décadas, a China transformou sua presença na América Latina e no Caribe, passando de uma relação comercial centrada no intercâmbio de produtos, a uma estratégia de longo alcance, com dimensões econômicas, políticas, tecnológicas e de segurança. O que antes parecia ser um intercâmbio pragmático de produtos básicos e capital tornou-se uma complexa rede de influência, que agora afeta infraestruturas críticas, instituições democráticas, sistemas de informação e diplomacia regional.
Eric Farnsworth, sócio da Continental Strategy – uma empresa de consultoria especializada em política e comércio entre os Estados Unidos e a América Latina – e ex-vice-presidente de Americas Society/Council of the Americas, além de observador de longa data de assuntos hemisféricos, vem alertando sobre essa mudança, desde os estágios iniciais da expansão da China no Hemisfério Ocidental. Em uma análise de 2017, ele descreveu a entrada da China na região como o desenvolvimento mais significativo nas relações hemisféricas do século XXI, uma avaliação que, em sua opinião, só se tornou mais relevante com o tempo.
Nesta entrevista exclusiva à Diálogo, Farnsworth oferece uma análise abrangente do crescente envolvimento da China na América Latina e no Caribe. Ele examina como a China transformou laços econômicos em influência estratégica, como projetos de infraestrutura e tecnologia têm implicações para a segurança nacional e por que a governança democrática, a transparência e o Estado de Direito estão cada vez mais em risco, à medida que a influência chinesa se expande.
Diálogo: Em 2017, o senhor descreveu a entrada da China na América Latina e no Caribe como o tema mais importante deste século nos assuntos hemisféricos. O senhor ainda mantém essa avaliação hoje em dia?
Eric Farnsworth, sócio da Continental Strategy e ex-vice-presidente de Americas Society/Council of the Americas: Sim, mantenho essa avaliação. Em todo caso, diria que os problemas se tornaram ainda mais intensos. Houve uma mudança fundamental no Hemisfério Ocidental, devido à entrada da China na região, do ponto de vista econômico, financeiro, político, diplomático e de segurança. Todo o espectro das relações hemisféricas mudou, como resultado da presença da China. Com o tempo, à medida que os laços econômicos se aprofundaram em praticamente todos os países da América Latina, a influência da China sobre esses países também aumentou. Essa influência pode assumir a forma de coerção econômica, condicionando o acesso ao mercado ou o investimento a determinados comportamentos políticos. Também pode assumir a forma de influência política, por exemplo, no comportamento de votação nas Nações Unidas, em fóruns internacionais ou nas relações bilaterais.
Além disso, o envolvimento da China se manifesta internamente nos países, por meio de investimentos que têm implicações diretas nas normas ambientais, nos esforços anticorrupção, na governança democrática, na liberdade de imprensa e nas práticas trabalhistas, particularmente no que diz respeito à origem dos trabalhadores e a quem é empregado em grandes projetos. Essas questões não são temporárias, são estruturais. Os países da região devem reconhecer os riscos reais que acompanham o envolvimento com a China.
Diálogo: O senhor também ressaltou que o que começou como relações comerciais transacionais evoluiu para um compromisso geoestratégico mais profundo. Quais são os indicadores mais claros dessa mudança? Como os interesses estratégicos da China estão se materializando na prática, através de projetos de infraestrutura, tecnologias de vigilância, alinhamento político ou outros canais? E o senhor diria que os interesses da China na região sempre foram estratégicos, e que o comércio era apenas um componente de uma ambição mais ampla?
Farnsworth: Sim. O relacionamento realmente começou no início dos anos 2000, por volta de 2003 ou 2004, com visitas de alto nível de líderes chineses à região e o reconhecimento da China das oportunidades que oferecia o Hemisfério Ocidental. Inicialmente, o foco era principalmente econômico, impulsionado pela necessidade de comércio e aquisição de matérias-primas e produtos primários, para alimentar o rápido crescimento da China. Fundamentalmente, essa história não é sobre a América Latina, é sobre a China, seus interesses, suas necessidades e sua estratégia global. Naquele momento, a China crescia em um ritmo de 6, 7 e até 8 por cento anual e precisava de matérias-primas de todo o mundo. A China já era muito ativa na África, muitas vezes sem chamar a atenção de muitos observadores. Sua entrada no Hemisfério Ocidental veio mais tarde, mas, uma vez lá, ela rapidamente reconheceu a magnitude das oportunidades e começou a construir esse relacionamento.
A China cometeu erros no início, mas, desde então, tornou-se altamente sofisticada na forma como se relaciona com os países da América Latina. Pode-se argumentar que sempre houve uma dimensão estratégica, mas essa estratégia claramente evoluiu ao longo do tempo. À medida que a China reconheceu a profundidade das oportunidades na região, suas ambições se expandiram. Agora vemos frequentes engajamentos políticos de alto nível, incluindo visitas de Estado de vários dias do presidente Xi Jinping e outros líderes chineses de alto escalão. A presença da China se tornou normalizada no nível político. Simbolicamente, isso se reflete na diplomacia entre líderes, mas o simbolismo por si só não explica o alcance do que está acontecendo.
Um exemplo particularmente oportuno e ilustrativo é a abertura do Porto de Chancay, no Peru, inaugurado durante as reuniões da APEC em novembro [2024]. Trata-se de um projeto de infraestrutura de grande porte e representa um grande avanço nas capacidades da China no Hemisfério Ocidental. Economicamente, há argumentos a favor, já que o Peru mantém uma relação comercial substancial com a China. No entanto, o porto tem um uso potencialmente duplo e poderia acomodar navios militares. Mais importante ainda, Chancay não é o objetivo final. O que estamos ouvindo agora é sobre o desenvolvimento de uma infraestrutura de transporte que conecte o Brasil com o Peru, possivelmente cruzando a Amazônia, para transformar Chancay em um centro estratégico para grande parte da América do Sul. Isso permitiria que as mercadorias chegassem à China pelo Pacífico, em vez de viajar pelo Atlântico, economizando tempo e custos consideráveis. Isso revela a verdadeira magnitude das ambições da China. Tais projetos não são apenas econômicos. São iniciativas ambientais, de engenharia, financeiras e políticas, que exigem um envolvimento sustentado nos níveis mais altos. Portanto, há alguns acontecimentos que devem ser levados em consideração. Há muitos projetos de infraestrutura que poderiam ser citados, mas, do ponto de vista simbólico e estratégico, Chancay se destaca pela magnitude e alcance de suas implicações.
Diálogo: O senhor mencionou uma questão particularmente significativa, que é a natureza de dupla utilização de muitos projetos de infraestrutura que a China está desenvolvendo na região. O senhor poderia explicar melhor as implicações dessa infraestrutura de dupla utilização para a segurança nacional? Como esses investimentos podem permitir uma diplomacia coercitiva ou fornecer vantagem estratégica à China em momentos de tensão?
Farnsworth: Deixe-me usar um exemplo que não é de infraestrutura física, mas de infraestrutura cibernética, especificamente a tecnologia das chamadas “cidades inteligentes”. Trata-se de um âmbito no qual a China desenvolveu-se extensivamente. Viajei para a China e vi esses sistemas em operação, e agora eles estão sendo exportados para mercados em desenvolvimento, incluindo a América Latina.
A forma como essas tecnologias são comercializadas é bastante benigna. Elas são apresentadas como ferramentas para melhorar a eficiência do governo, gerenciar fluxos de tráfego, serviços de ambulância, resposta a emergências e segurança pública. À primeira vista, tudo parece razoável. Mas, na prática, isso significa uma captura massiva de dados. Esses dados muitas vezes fluem de volta para a China, para usos que não são transparentes, seja para o desenvolvimento de inteligência artificial, aplicações de segurança ou outros fins. Esses sistemas também criam uma influência potencial sobre indivíduos e populações em suas vidas diárias.
Sociedades democráticas em todo o mundo estão lutando para encontrar o equilíbrio entre segurança e liberdade pessoal. O desafio na América Latina é que esse debate nem sempre ocorreu de forma aberta ou completa. As decisões são frequentemente tomadas entre elites políticas, militares ou policiais, cujos objetivos podem não ser ilegítimos, pois a segurança pública é uma preocupação legítima, mas que podem não considerar adequadamente a privacidade, a responsabilidade ou a supervisão democrática. Da perspectiva da China, isso também lhe dá uma influência potencial em termos de capacidade coercitiva, porque esses sistemas são fornecidos, gerenciados e mantidos por entidades chinesas. Os governos costumam ter pouca visibilidade sobre como, onde ou para que finalidade a tecnologia é finalmente destacada. O ciberespaço é uma área em que a conscientização está crescendo na América Latina, mas ainda há um longo caminho a percorrer.
Diálogo: Isso leva diretamente à questão da influência política e das normas democráticas. O apoio da China a regimes autoritários tem sido associado ao retrocesso democrático na América Latina e no Caribe. Casos como o sistema de vigilância ECU-911 do Equador, durante a administração de Correa, ou o Carnet de la Patria (Cartão da Pátria) da Venezuela, projetado com apoio chinês, levantam sérias preocupações. À medida que os países continuam a adotar tecnologias chinesas, incluindo a Huawei, que vários governos sinalizaram como vulnerável em termos de segurança, quais são os riscos de longo prazo de depender da China para infraestruturas estatais críticas?
Farnsworth: Esse é um ponto crucial. O que discutimos anteriormente foi a influência da China sobre os Estados. O que está apresentando agora está relacionado, mas é distinto, pois trata-se do uso de tecnologia, formação e modelos de governança chineses para controlar, ou mesmo reprimir, as populações nacionais. Vemos isso mais claramente na Venezuela, mas também em outros países da região, e esse é um risco real, que não se limita apenas às ferramentas cibernéticas. A China forneceu equipamentos, incluindo veículos blindados de transporte de tropas e outros sistemas, que estão sendo usados para reprimir os cidadãos e consolidar a Venezuela como um Estado policial autoritário. Trata-se de uma dinâmica muito real e preocupante, e a China desempenhou um papel direto em sua facilitação.
Mas, há outra questão, que é a participação da China. Ainda na Venezuela, esse envolvimento remonta à era de Chávez e facilitou a trajetória do país, em parte por meio de equipamentos cibernéticos, mas também por meio da compra de petróleo bruto venezuelano, que injetou bilhões de dólares no regime – fundos cujo uso final permanece obscuro. Esses recursos permitiram ao governo consolidar seu poder internamente, expandir sua influência no exterior e evitar a dependência de instituições financeiras internacionais, como o FMI ou o Banco Mundial, que tradicionalmente exigem disciplina política e transparência.
Esse apoio permitiu que a Venezuela rejeitasse normas internacionais e mecanismos de prestação de contas. Quando se combina esse apoio em nível macro com assistência tecnológica e de segurança específica, o resultado é profundamente prejudicial à democracia. É importante ressaltar que esse risco não se limita a países como Venezuela, Cuba ou Nicarágua. Ele também afeta países como Equador e outros, onde tecnologias de vigilância já estão sendo implementadas. Em contextos onde as instituições são fracas, o Estado de Direito é frágil e a supervisão é limitada, tais ferramentas podem ser facilmente utilizadas de forma indevida contra oponentes políticos.
A América Latina há muito tempo luta contra os abusos do poder estatal. As tecnologias avançadas de vigilância aumentam significativamente tanto o risco quanto a tentação de usar indevidamente a autoridade. Enfrentar esse desafio requer um Estado de Direito forte, transparência e conscientização pública, mas essa não é uma solução fácil nem totalmente satisfatória. É preciso haver salvaguardas, é preciso haver padrões, caso contrário, isto estará sendo desatado na natureza e não haverá uma forma para mantê-lo necessariamente sob controle.
Parte II
Na segunda parte desta entrevista, a conversa se concentra nas ferramentas mais sutis e muitas vezes menos visíveis que a China usa para influir em resultados políticos e percepções públicas. Farnsworth examina o uso do poder incisivo por Pequim, seus laços com regimes autoritários, sinais emergentes de reavaliação regional e a importância estratégica da América Central e do Caribe, ao mesmo tempo em que avalia como a expansão da presença da China pode influenciar eleições, resiliência democrática e alinhamento geopolítico em todo o hemisfério.


