A conversa a seguir, realizada originalmente em meados de 2025, oferece uma visão oportuna das mudanças estruturais nas relações hemisféricas que continuam a definir o panorama atual.
À medida que a presença da China na América Latina se expandiu, o mesmo ocorreu com as ferramentas que ela utiliza para consolidar sua influência, além da diplomacia e dos investimentos tradicionais. Na primeira parte desta entrevista exclusiva à Diálogo, Eric Farnsworth, sócio da Continental Strategy – uma empresa de consultoria especializada em política e comércio entre os Estados Unidos e a América Latina – e ex-vice-presidente de Americas Society/Council of the Americas, descreveu como o envolvimento de Pequim evoluiu de um comércio transacional para uma presença estratégica multidimensional.
Nesta segunda parte, Farnsworth aprofunda-se em como a China emprega seu poder incisivo por meio da mídia, da educação, de redes políticas e de atores proxy, bem como de seus laços estreitos com regimes autoritários, como Venezuela e Cuba.
Ele também analisa os primeiros sinais de um reajuste regional – desde a retirada do Panamá da Iniciativa Cinturão e Rota, até os crescentes debates sobre transparência e triagem de investimentos – e o que essas mudanças sugerem sobre a capacidade da América Latina de reconhecer riscos, defender normas democráticas e afirmar sua autonomia estratégica.
Diálogo: Além dos investimentos estratégicos que já discutimos, o senhor tem destacado constantemente em seus artigos e entrevistas o uso da China do que é conhecido como “poder incisivo”, para expandir sua influência na América Latina. O senhor poderia explicar brevemente como essa estratégia funciona na prática e que ferramentas a China emprega com mais frequência?
Eric Farnsworth, sócio da Continental Strategy e ex-vice-presidente de Americas Society/Council of the Americas: O poder incisivo é um conceito desenvolvido pela Fundação Nacional para a Democracia. Ele difere do soft power, um termo popularizado por Joseph Nye, que infelizmente faleceu recentemente. Soft power tem a ver com a cultura, as artes e a atração que são provenientes de valores e da história, e faz com que as pessoas lhe respeitem. O poder incisivo, por outro lado, envolve a inserção e a promoção de ideias específicas nas sociedades democráticas. Isso pode ocorrer por meio da mídia, de instituições educacionais, como os Institutos Confúcio, de intercâmbios entre pessoas e de mecanismos similares. E a ideia final não é expor as pessoas à China de uma perspectiva objetiva, mas sim expô-las à visão do mundo da China e levar essa narrativa às sociedades democráticas. O objetivo final é sugerir que o sistema chinês é equivalente à democracia liberal, ou que a democracia não é melhor, apenas mais complicada e desordenada, enquanto o modelo chinês é mais eficiente. Essa narrativa argumenta que as pessoas na China são mais felizes e mais ricas, e têm implicações políticas reais em termos geopolíticos.
Os líderes podem começar a argumentar que não há diferenças significativas entre o sistema chinês e os sistemas ocidentais. É claro que existem diferenças fundamentais, e um sistema é claramente superior ao outro. Mas a China tem sido muito eficaz em tentar conquistar corações e mentes nos mercados emergentes, convencendo as pessoas de que o modelo chinês é, de alguma forma, melhor. Quando as pessoas são solicitadas a escolher, elas podem concluir que “são todos iguais”. Essa conclusão é incorreta, mas dá para ver como ela se consolida. E se esse for o resultado, representa uma vitória estratégica para a China. Nunca antes a ideia de que o sistema comunista chinês é equivalente à democracia liberal teria se enraizado na América Latina. Se essa mentalidade se estabelecer em toda a região, isso é exatamente o que a China está tentando conseguir.
Portanto, as técnicas de poder incisivo são muito sofisticadas, são intercâmbios educacionais e de formação, viagens de exposição à mídia para a China, tudo isso enquadrado em uma narrativa cuidadosamente elaborada. No setor da mídia, por exemplo, a China costuma produzir matérias que depois são publicadas em jornais ou difundidas em meios de comunicação. São histórias que enfatizam os fracassos dos Estados Unidos ou da Europa e os sucessos da China. Esses esforços não têm como objetivo uma exposição neutra; eles são projetados para mudar mentalidades, de modo que a visão da China do mundo seja amplamente aceita como equivalente à democracia liberal.
Diálogo: As relações estreitas da China com regimes autoritários, como Venezuela e Cuba, também têm desempenhado um papel estratégico na agenda regional. Como essas relações contribuem para os objetivos mais amplos de Pequim e quais riscos elas representam para a estabilidade regional e a governança democrática?
Farnsworth: Os riscos são muito reais. A América Latina e o Caribe estão entrando em um período de intensa atividade eleitoral, e algumas das operações de influência que a China tem demonstrado, particularmente através da Venezuela, estão sendo exportadas para toda a região. Esses esforços visam minar os candidatos democráticos e promover resultados convenientes para os aliados autoritários. Cuba opera de maneira semelhante. O que torna isso especialmente eficaz é que os venezuelanos e os cubanos são falantes nativos de espanhol, que conhecem profundamente a região. Eles podem influenciar as eleições de uma maneira que os agentes chineses simplesmente não podem, devido às barreiras linguísticas e culturais. Agir por meio de representantes regionais é incrivelmente poderoso. Vimos uma prévia disso em 2019, antes da pandemia, quando eclodiram distúrbios generalizados no Chile, Colômbia, Equador e Peru. À primeira vista, esses protestos pareciam espontâneos, motivados por queixas legítimas. Mas um exame mais detalhado revelou que havia atores externos trabalhando para amplificar e manipular os distúrbios. Em alguns casos, isso envolveu a Rússia; em outros, a Venezuela desempenhou um papel, aplicando a capacitação, técnicas e tecnologias que havia adquirido. Esses riscos são fundamentais, e as pessoas precisam estar plenamente cientes deles.
Diálogo: Apesar da ampla influência da China, estamos começando a ver algumas reavaliações em toda a região. A decisão do Panamá de retirar-se da Iniciativa Cinturão e Rota é um exemplo. Que alcance tem esse reequilíbrio e aonde ele pode levar?
Farnsworth: Acho que estamos no início desse ciclo. Há um reconhecimento crescente dos riscos envolvidos. Veja o Chile, por exemplo. Ele tem uma relação sólida e duradoura com a China; o cobre é seu principal produto de exportação e a China é seu principal mercado. No entanto, o Chile insiste que todos os investidores operem sob as mesmas regras transparentes e aplicáveis da lei. Não há acordos especiais nem contratos secretos. Seja o investidor chinês, norte-americano, canadense ou europeu, as regras são as mesmas. Isso reduz a corrupção e favorece investimentos de maior qualidade, justamente porque a aplicação dessas normas prejudica a China, que não está disposta a jogar de acordo com tais regras. A maioria dos países da região ainda não chegou a esse ponto, mas reconhece a necessidade de uma estrutura de investimento melhor. Outra ferramenta importante é a triagem de investimentos. Nos Estados Unidos, temos o CFIUS [Comitê de Investimentos Estrangeiros nos Estados Unidos], que avalia se os investimentos estrangeiros estão alinhados com os interesses de segurança nacional. Os países da América Latina e do Caribe precisam cada vez mais de mecanismos semelhantes. Um investimento pode criar empregos e parecer atraente, mas ainda assim pode prejudicar os interesses nacionais. A maioria dos países da região não possui um sistema para dizer: “esse investimento não nos serve e não o aceitaremos”, e isso precisa mudar.
Diálogo: Os países que mudaram o reconhecimento diplomático de Taiwan para a China, particularmente na América Central, estão agora percebendo que muitas das promessas de Pequim não foram cumpridas. O que eles devem esperar realisticamente no futuro?
Farnsworth: Sim, os incentivos e as promessas. Vimos, em caso após caso, que os países estão insatisfeitos com o que realmente receberam da China. Grandes promessas de infraestrutura e bilhões de dólares em investimentos muitas vezes não se concretizaram. O que precisamos lembrar novamente é que o interesse da China na América Latina não tem nada a ver com o desenvolvimento latino-americano. Sempre foi uma questão de interesses da China: acesso a recursos naturais, o posicionamento estratégico, o direcionamento do excesso de capital mantido no banco central chinês e a construção de influência global. No final das contas, não há uma agenda de desenvolvimento genuína para a região e nunca houve. As pessoas estão começando a questionar isso e, francamente, estão ficando incomodadas com isso.
Diálogo: O Caribe parece estar seguindo um caminho diferente e, ultimamente, tornou-se mais profundamente envolvido na estratégia de influência da China. Quais são as implicações geopolíticas e de segurança dessa relação em expansão?
Farnsworth: O Caribe é um ambiente único, com sua própria combinação de oportunidades e desafios. É uma das regiões onde Taiwan tradicionalmente recebeu grande parte de seu reconhecimento diplomático; então, o envolvimento da China tem se concentrado fortemente em persuadir os países a transferir seu reconhecimento para Pequim. Com base nisso, tem sido vista muita participação chinesa, muitas vezes na forma de projetos como estádios, bibliotecas e prédios públicos. Não se trata necessariamente de desenvolver a agricultura caribenha, promover a energia limpa ou desenvolver a infraestrutura caribenha. Trata-se de dar presentes para ganhar influência e, uma vez feito isso, a participação não continua necessariamente, com exceção talvez de Cuba, onde a China realmente tem mais interesses. A bacia do Caribe tradicionalmente não possui recursos abundantes. São economias pequenas, com bases tributárias limitadas e pouca capacidade de obter capital. Desde sua independência, eles dependem fortemente da comunidade internacional e, nesse contexto, a disposição da China em se envolver é vista por muitos desses países como atraente e conveniente. E, no que diz respeito à segurança, isso tem implicações, particularmente em possíveis atividades de coleta de informações.
Diálogo: Além do fator Taiwan, qual é o principal objetivo estratégico da China em uma região com escassez de recursos, como o Caribe? Existe algum cálculo militar ou de segurança por trás de sua presença?
Farnsworth: É difícil dizer com certeza. O Caribe possui um recurso que todo país soberano tem, que são votos na Organização das Nações Unidas (ONU), na Organização dos Estados Americanos (OEA) e em outras instituições multilaterais. Esses fóruns são fundamentais para a estratégia de longo prazo da China de expandir sua influência global e aumentar seu peso na tomada de decisões multilaterais. Se a China puder exercer influência sobre países individuais, inclusive em instituições das quais não é membro, como a OEA, ainda poderá promover seus interesses por meio do que se poderia chamar de representantes. Isso é em grande parte o que está acontecendo.
A ideia de que a China estabeleça bases militares no Caribe é, nesta fase, altamente especulativa e essa abordagem não se alinha com a estratégia típica da China. A abordagem da China tende a operar de forma muito mais sutil, como desenvolver relações, estabelecer discretamente laços econômicos e políticos e integrar-se nas comunidades locais. É possível que algum dia os países percebam que a China está profundamente envolvida em sua vida nacional, sem um único movimento dramático ou abertamente militarizado. Isso é muito diferente do tipo de abordagem historicamente associada à Rússia e reflete um estilo estratégico distinto.
Diálogo: Para concluir, gostaria de voltar ao ponto de partida, ao seu artigo de 2017. Na época, o senhor alertou que os próprios latino-americanos deveriam preocupar-se com a natureza da crescente influência de Pequim, destacando que as mudanças no terreno já eram dramáticas e, às vezes, inquietantes. Olhando para os acontecimentos desde então, o senhor acredita que essas preocupações se intensificaram? O que tornou a situação mais delicada ou perigosa, ou não? O senhor pode dar alguns exemplos concretos?
Farnsworth: Em primeiro lugar, fico feliz que a previsão se concretizou, não porque esteja feliz com isso, mas porque ela resultou ser acertada. Dessa perspectiva, pelo menos, há algum valor. E sim, acho que essas preocupações se intensificaram.
A China viu uma oportunidade e agiu, continuando a expandir sua presença até que surgiu alguma forma de resistência. E isso tem sido bastante eficaz, embora mais em alguns países do que em outros. A China tem sido muito perspicaz quanto ao que busca, como o acesso a recursos naturais, investimento em infraestrutura e plataformas para atividades estratégicas.
Se observamos onde a China concentrou a maior parte de seus investimentos, é exatamente onde caberia esperar, nas maiores economias da região. O Brasil é um claro exemplo.
O que estamos vendo, em geral, é uma estratégia que deu frutos. Abordar isso agora requer mostrar aos latino-americanos e seus líderes que existem alternativas reais.
Diálogo: O senhor diria que a situação se intensificou do ponto de vista da China e que, como resultado, Pequim se tornou mais agressivo?
Farnsworth: Eu diria que se intensificou muito, mas de uma maneira específica. O envolvimento da China se tornou mais abrangente e, em alguns casos, mais agressivo. Um exemplo claro foi a decisão do Panamá de retirar-se da Iniciativa Cinturão e Rota, que provocou uma reação incomumente enérgica e acusatória por Pequim.
E acho que podemos antecipar que isso continuará, porque a China desenvolveu um interesse real na região, interesses que considera fundamentais para sua própria segurança e bem-estar a longo prazo. Pequim não quer ver esses interesses prejudicados. À medida que os países começam a reavaliar os riscos e tentam reequilibrar suas relações, a China tem motivos para preocupar-se e é provável que essa preocupação determine seu comportamento no futuro.
Diálogo: Isso significa riscos maiores para a região? É provável que vejamos mais poder incisivo da China?
Farnsworth: Provavelmente. Também poderia haver algum aumento da atividade no âmbito militar, embora eu não esteja prevendo incursões ou algo do tipo. A China está desenvolvendo uma marinha de alto mar e a capacidade de fazer escalas em portos, seja em águas peruanas, por exemplo, para proteger frotas pesqueiras, projetar poder ou até mesmo realizar operações humanitárias. Se isso se qualifica como poder incisivo é discutível. O impacto real é de longo prazo. Trata-se de demonstrar a parceria e a confiabilidade, para que, mais tarde, quando a China pedir apoio em fóruns multilaterais ou pedir aos países que permaneçam em silêncio sobre questões como o Tibete ou os uigures, seja mais fácil para os líderes concordarem. Esse silêncio, por si só, representa uma vitória estratégica para a China.
Isso não significa que devemos esperar um confronto militar aberto na região, mas significa que os líderes estão cada vez mais confrontados com a necessidade de lidar com isso.
Diálogo: Então, o que é que os governos latino-americanos devem ter mais presente, à medida que essa relação evolui?
Farnsworth: Eles precisam começar com transparência e uma compreensão clara dos riscos reais envolvidos. Esses riscos mudaram ao longo do tempo. Anos atrás, o risco cibernético mal fazia parte da discussão. Hoje, ele está no centro da relação.
As ameaças cibernéticas não requerem navios de guerra nem tropas. Elas vêm de Pequim, da Rússia, do Irã. Portanto, há um perfil de ameaça diferente que surgiu ao longo do tempo e a questão é se os serviços de segurança regionais o compreendem totalmente e se suas respostas permanecem consistentes com os valores democráticos e o Estado de Direito.
E essa é a parte realmente complicada, porque é fácil ter uma reação de segurança, mas a questão é se essa reação de segurança é coerente com os valores democráticos. No entanto, esse desafio é inevitável e requer muito mais foco e compreensão no futuro.



