Chile constrói seu primeiro navio quebra-gelo

Chile Builds Its First Icebreaker Ship

Por Carolina Contreras/Diálogo
julho 20, 2017

K8cGSL A indústria naval da América Latina tem um novo protagonista. A Marinha do Chile construirá seu primeiro navio quebra-gelo, o Antártica 1. Com um investimento total estimado em US$ 315 milhões, no próximo mês de setembro, será concluído o projeto de engenharia básica e, durante o terceiro trimestre do ano, a empresa Astilleros y Maestranza de la Armada (ASMAR, por sua sigla em espanhol) iniciará a etapa de fabricação em sua fábrica de Talcahuano, localizada a 505 quilômetros de Santiago. “Será o primeiro estaleiro da América Latina a construir esse tipo de unidades, incorporando nova tecnologia e melhores processos”, disse à Diálogo Alejandro König, gerente de Construção Naval da ASMAR Talcahuano. Segundo o cronograma, o navio polar terá uma vida útil de 30 anos e deverá entrar em operação para a temporada da Campanha Antártica Nacional, de 2022 a 2023. O Antártica 1 será um navio com características modernas que permitirá ao Chile projetar sua presença no continente branco, para apoiar o desenvolvimento da ciência em nível mundial, dar suporte logístico às bases nacionais e internacionais e fornecer os recursos necessários para cumprir os requisitos de tarefas de busca e resgate. “A ciência que é realizada na península antártica continuará se consolidando”, disse à Diálogo José Retamales, diretor do Instituto Antártico Chileno (INACh). “Será possível realizar estudos de oceanografia física, química e biologia, com espaços dedicados para o uso específico dos cientistas”, acrescentou. A origem do projeto O Projeto Antártica 1 surgiu em 2011, quando já era evidente que o navio quebra-gelo AP-46 Almirante Óscar Viel terminava seu ciclo de vida e era necessário pensar em seu substituto. A Direção de Programas, Pesquisa e Desenvolvimento da Marinha e o departamento de Projetos de Construção Naval da ASMAR coletaram de forma conjunta os requisitos das diferentes entidades protagonistas do trabalho antártico nacional: o INACh, o Exército, a Força Aérea e, em especial, a Marinha do Chile. A cerimônia simbólica do corte de chapa ocorreu no dia 9 de maio, nas instalações da ASMAR Talcahuano, para marcar o início oficial do projeto. “Isso vai colocar o país na vanguarda da proteção e projeção ao continente antártico e sua área circundante”, disse a presidente do Chile Michelle Bachelet no ato solene, onde esteve acompanhada pelo Almirante-de-Esquadra Enrique Larragaña, comandante-em-chefe da Marinha do Chile, e pelo ministro da Defesa José Antonio Gómez. Capacitações técnicas e operacionais O Antártica 1 será um quebra-gelo de categoria Ice Class (PC5), cuja engenharia básica está a cargo da empresa canadense Vard Marine. Ele terá 111 metros de comprimento, 21 metros de largura e sete metros de calado. Poderá navegar a uma velocidade constante de dois nós em gelo de até um metro de espessura, coberto com 30 centímetros de neve. Em condições normais de clima, terá uma velocidade máxima de 15 nós. Graças a seu casco, poderá operar em ambientes de frio extremo, a menos 30 graus Celsius. Além disso, terá uma autonomia de 60 dias sem reabastecimento, com uma capacidade para 120 pessoas, podendo operar 250 dias por ano, diferentemente do AP-46 Almirante Óscar Viel, que só pode fazê-lo durante os meses de verão. Atualmente, o Chile conta com quatro instalações que operam o ano todo nesse continente, mais oito bases de verão e sete abrigos espalhados pelo arquipélago das ilhas Shetland do Sul e na península antártica. Tanto as bases chilenas como as dos outros países terão o apoio logístico do novo navio. Para isso, o Antártica 1 terá a capacidade de transportar até 910 metros cúbicos de carga e 400 metros cúbicos de combustível. Além disso, terá uma plataforma de pouso e um hangar para dois helicópteros de transporte. Disporá também de guindastes de carga, cabrestantes e turcos, enquanto na popa poderão ser montados equipamentos científicos de dez toneladas, mais um braço mecânico de dez metros. “O Antártica 1 terá maiores capacidades para apoiar o desenvolvimento da ciência de alto nível a bordo, o que permitirá quebrar a sazonalidade do trabalho científico, acessar dados em tempo real e analisar os resultados obtidos durante a navegação”, destacou Retamales. “Contará com modernos equipamentos hidroacústicos, tais como ecossondas, sonares, um sistema para perfilar o fundo do oceano, um sistema para perfilar correntes e um sistema de posicionamento acústico de alta precisão. Será também dotado de laboratórios microbiológicos, macrobiológicos e químicos, além de meios para a coleta, o armazenamento e a conservação de amostras do mar e do fundo marinho, com a capacidade de modernas e amplas câmaras frigoríficas”, acrescentou. “Ele estará preparado também para desenvolver tarefas de busca e resgate frente a eventuais desastres marítimos, aéreos ou terrestres no continente antártico, com o apoio de helicópteros embarcados, botes de resgate e uma enfermaria com capacidade cirúrgica”, disse König. “Responderá com altos padrões de segurança para resguardar a vida humana no mar, conforme estabelece o Código Polar, bem como cuidará das normas ambientais referentes ao tratamento de águas, emissões de gases e tratamento de resíduos.” Aporte regional A fábrica da ASMAR Talcahuano, a mesma que foi destruída pelo terremoto de fevereiro de 2010, está totalmente remodelada para levar adiante o maior desafio de construção da Marinha chilena. As capacidades dos processos produtivos da fábrica foram ampliadas e melhoradas, do mesmo modo que foi atualizada a capacitação e treinamento do pessoal. Construir uma embarcação dessa envergadura significará um benefício para a região onde a ASMAR está localizada, já que mais de um terço do projeto será realizado com mão-de-obra local, para gerar 480 postos de trabalho durante os próximos cinco anos. O Antártica 1, quando estiver pronto, está previsto para ser a chave que vai abrir o interesse internacional para fabricar navios dessa envergadura e maiores. “O fato de modernizar nossas capacidades técnicas e produtivas nos manterá na vanguarda da construção naval”, finalizou König.
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