Escola Preparatória de Cadetes do Ar abre portas para mulheres

Brazil’s Air Cadets Preparatory School Opens Its Doors to Women

Por Taciana Moury/Diálogo
abril 06, 2017

Eloá Rodrigues de Lima, Ana Carolina Félix Barbosa e Laniz França Machado Sartorelli estão escrevendo história na Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR), em Barbacena, no interior de Minas Gerais. As três fazem parte, junto com outras 17 meninas, da primeira turma de alunas da escola. A EPCAR é uma instituição militar de ensino médio. Criada há 68 anos, tem a missão de preparar os alunos para ingresso no primeiro ano do Curso de Oficiais Aviadores da Academia da Força Aérea (AFA). O motivo da abertura, segundo informações do Departamento de Ensino da Aeronáutica (DEPENS) foi ampliar o universo homogêneo de direitos e deveres. A unidade lembrou que a Força Aérea Brasileira (FAB) tem sido pioneira no ingresso das mulheres. Desde 1996, na AFA, já existiam vagas para mulheres no quadro de oficiais intendentes. Em 2002, foi a vez da abertura de vagas na escola de especialistas de aeronáutica e, na sequência, em 2003, para mulheres pilotos na AFA. Mas, desde 1992, as mulheres ingressaram na FAB nos quadros técnicos e na área da saúde. A oportunidade aberta em 2017 pela EPCAR não passou despercebida pelas meninas de todo o Brasil. Foram 3.480 jovens inscritas para 20 vagas, cerca de 174 candidatas por vaga. Elas se apresentaram no início do ano para um período de adaptação e agora já estão integradas à rotina junto com os 153 homens que compõem a turma. De acordo com o DEPENS, as alunas se adaptaram muito bem à estrutura acadêmica da EPCAR, tanto no rendimento nas aulas, quanto no desempenho físico e militar, estando harmoniosamente alinhadas aos alunos do sexo masculino. Currículo O currículo na EPCAR segue o determinado pelo Ministério da Educação do Brasil para o ensino médio. O conteúdo é acrescido das disciplinas tipicamente militares, voltadas para a cultura aeronáutica no geral, história militar, além de atividades de campanha, com técnicas de sobrevivência e desdobramento no terreno. Ordem unida, ética profissional militar, treinamento físico e prática desportiva também fazem parte do programa da escola. A rotina das 20 meninas é a mesma dos demais alunos. “As atividades são realizadas em conjunto sem quaisquer diferenciações de gênero, raça, credo ou procedência”, reforçou o DEPENS em nota. Rodrigues conta que não sentiu nenhum tipo de discriminação. “Ninguém recebe tratamento diferenciado ou especial”, disse a aluna, que tem 17 anos. Foi a paixão pelo militarismo que a levou a se inscrever para a EPCAR. A aluna pretende seguir carreira como piloto da FAB. “É pura vibração. Somos motivadas a todo o momento e é muito bom ver o esforço recompensado quando fazemos bonito na parada diária”, revelou. Também com 17 anos, Barbosa já era acostumada com o ambiente militar. Vinda de uma família de militares, ela também escolheu a EPCAR visando uma vaga na AFA. “Realizamos as atividades em conjunto, como a educação física”. Para a aluna, o convívio no esquadrão é a parte mais difícil. “A experiência tem sido muito boa. Mas, há momentos de dificuldades e incertezas”, disse. Sartorelli escolheu a EPCAR inspirada pelo pai que é militar da FAB. Ela cresceu dentro da Base Aérea de Santa Maria e sempre teve o desejo de fazer parte da aeronáutica. A aluna, que tem 18 anos, contou que conciliar a vida militar com os estudos é um desafio. “Esses primeiros meses estão sendo bem difíceis; sono acumulado e muito cansaço. Mas, aos poucos, vamos nos acostumando.” Apesar das demandas, a aluna disse estar muito feliz na escola, principalmente por fazer parte da primeira turma de meninas. “É uma experiência incrível que está proporcionando novos aprendizados, viagens e interações em grupo. Estamos testando nosso físico e psicológico ao máximo. Mas isso vai nos tornar mais fortes e preparadas para sermos oficiais da FAB”, destacou. Também pioneira na carreira dentro da FAB, a Capitão Aviadora Carla Alexandre Borges, que ingressou na primeira turma de pilotos da AFA, comemorou o ingresso das meninas na EPCAR. “É mais uma barreira rompida, mais uma porta que se abre”, disse. A Cap Carla, que foi a primeira mulher a pilotar um jato de caça no Brasil, disse que a carreira militar é apaixonante, mas exige muita dedicação. “Desejo que elas sigam na carreira de maneira brilhante e que amanhã elas sejam também exemplo para muitas outras meninas”, disse. Preparação Para receber o corpo feminino, a EPCAR passou por uma reformulação estrutural e pedagógica. Segundo informações do DEPENS, foram realizadas adequações nas estruturas físicas, como no banheiro. O Manual do Aluno também foi atualizado, para contemplar itens como relacionamento afetivo e uso de trajes civis femininos no trânsito entre a escola e a cidade de Barbacena. No campo militar, o DEPENS disse que a única modificação necessária foi a introdução das tabelas femininas do Teste de Condicionamento Físico no Plano de Avaliação, realizado semestralmente, com o objetivo de adequar as pontuações às diferenças fisiológicas para cada gênero. Houve a preocupação ainda de capacitar os instrutores militares, para receberem o quadro feminino. Os instrutores passaram por um curso de preparação de instrutores de doutrina militar, onde foram tratados temas como ética militar e a pedagogia que baliza a formação do caráter militar. A experiência na introdução do gênero feminino em outros cursos na FAB também foi debatida, como os aspectos ocorridos na AFA em 1996, e no quadro de aviadores, em 2003. A EPCAR conta com 55 professores civis, responsáveis pelas aulas da Divisão de Ensino e 61 instrutores militares. No total, 489 alunos, divididos em três esquadrões, estudam na escola nos três anos de formação. Após a conclusão, eles podem se candidatar a uma vaga para a AFA. Mas, segundo a explicação do DEPENS, o ingresso na academia depende da aprovação nos exames médicos, aprovação no Teste de Aptidão à Pilotagem Militar, desempenho físico, dentre outros critérios de seleção.
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