Forças Armadas do Brasil treinam em operações em ambientes urbanos

Brazilian Armed Forces Train for Urban Environment Ops

Por Andréa Barretto/Diálogo
maio 25, 2018

De acordo com a Constituição brasileira, as Forças Armadas têm como missão zelar pela defesa da pátria, pela garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa destes, da lei e da ordem. A missão de garantia da lei e da ordem (GLO) foi um dos temas abordados em um seminário promovido pela quarta edição da LAAD Security, feira internacional de segurança pública e corporativa que ocorreu em São Paulo, entre os dias 10 e 12 de abril de 2018.

O Major Valter Silva Cruz, instrutor-chefe do Centro de Instrução de Operações de Garantia da Lei e da Ordem (CIOpGLO) do Exército Brasileiro (EB), foi convidado para falar sobre o assunto. A instituição é a única das Forças Armadas do Brasil especializada no ensino e treinamento de militares para atuar em missões desse tipo, que “são determinadas pelo presidente da República, apenas depois de esgotados os instrumentos de segurança pública”, explicou o Maj Silva Cruz. Como exemplo, o oficial destacou as operações Arcanjo e São Francisco, nas quais milhares de militares atuaram na pacificação de três grandes favelas do Rio de Janeiro, entre 2010 e 2015.

Desde que foi criado, em 2005, o centro já formou cerca de 4.000 homens e mulheres das Forças Armadas. Além dos dois estágios de capacitação e dos cursos já programados em seu calendário, a instituição tem uma responsabilidade extra em 2018: certificar todos os militares do Comando Militar do Leste que serão enviados para o estado do Rio de Janeiro, no contexto da intervenção federal em curso desde fevereiro.

Com essa finalidade, 400 militares já passaram pelo CIOpGLO em 2018. “Para esses militares, preparamos um treinamento específico, direcionado às demandas da intervenção”, contou o Maj Silva Cuz. A capacitação teve duração de três dias, com atividades de manhã à noite, incluindo aulas sobre como se deslocar no terreno durante um combate, como atirar e como realizar ações em locais confinados, assim como aqueles encontrados nas comunidades populares da cidade carioca.

Ampliação da capacidade

O CIOpGLO é uma subunidade escola do 28º Batalhão de Infantaria Leve, com sede em Campinas, no interior de São Paulo. Ao longo de uma década de atuação, o centro foi ampliando a sua capacidade de formação para além das ações de GLO. Por esse motivo, está em andamento o processo de aprovação do novo nome da organização, que deverá se chamar Centro de Instrução de Operações Militares em Ambiente Urbano. De acordo com o Maj Silva Cruz, as atividades em ambiente urbano compreendem uma gama de operações, entre elas as de GLO.

Em razão dessa especialidade, o ainda CIOpGLO tem sido demandado a realizar o aperfeiçoamento de militares das outras forças além do EB. Em dezembro de 2017, pela primeira vez, desenvolveu-se uma capacitação em ações de defesa em combate urbano voltada especificamente para a Marinha do Brasil e a Força Aérea Brasileira (FAB), com participação de militares do EB.

O treinamento proporcionou a oportunidade para que representantes das diferentes forças pudessem atuar em conjunto, como já acontece em operações reais. Além disso, possibilitou “a capacitação dos militares para disseminarem as informações no âmbito do Ministério da Defesa, com vistas à padronização em missões de GLO”, destacou o 2º Tenente da FAB François Paiva de Almeida, um dos alunos dessa turma.

Programa intenso

As duas principais formações realizadas pelo CIOpGLO anualmente são os estágios para oficiais e sargentos, no primeiro e segundo semestres, respectivamente. Ambos têm duração de cinco semanas. “A única diferença é que o curso para oficiais inclui um módulo dedicado ao planejamento”, ressaltou o Maj Silva Cruz.

A seleção está aberta a militares do EB de todo o Brasil. A partir das fichas dos candidatos enviadas pelos diferentes comandos de área de todo o Brasil, o centro faz uma pré-seleção de cerca de 40 pessoas. Antes da matrícula, os candidatos passam por testes físicos e de conhecimento. Uma vez aprovados nessa etapa, eles começam o curso. São três semanas de aulas e uma semana reservada para operação externa, quando são praticadas as técnicas, táticas e procedimentos transmitidos nas semanas anteriores. A formação inclui instruções voltadas para gerenciamento de crise e solução de conflitos, defesa pessoal, conhecimentos gerais sobre comunicação social, emprego combinado de viaturas blindadas e ética profissional militar, com ênfase em direitos humanos.

“As operações em ambiente urbano têm a característica de ser um combate seletivo em meio à população, em que se tem que evitar ao máximo os danos colaterais”, destacou o Maj Silva Cruz. Por isso, o estágio prevê módulos de treinamento prático de tiro, em que os alunos fazem cerca de 215 tiros de fuzil e 205 tiros de pistola. Prevê ainda o treinamento dos militares para deslocamento em campo, realizado em uma estrutura de 500 metros quadrados que simula os ambientes encontrados nas cidades brasileiras. “Todos os instrutores do curso têm experiência em situações reais de GLO, como no Haiti e na operação do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro”, concluiu.
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