Forças Armadas brasileiras lançam guia sobre defesa cibernética

Brazilian Armed Forces Publish Cyber Defense Guide

Por Andréa Barretto/Diálogo
outubro 04, 2017

O Brasil é o país que mais sofreu ataques cibernéticos na América do Sul nos últimos anos. De acordo com informações do Guia de Defesa Cibernética na América do Sul, livro lançado no auditório do Ministério da Defesa, em 23 de agosto, os crimes cibernéticos afetam cerca de 20 milhões de brasileiros por ano e resultam em um custo líquido total de US$ 8 bilhões ao Estado brasileiro. A publicação reúne dados públicos sobre iniciativas nas áreas de segurança e defesa cibernética dos 12 países sul-americanos, além do território da Guiana Francesa. O trabalho, inédito na região, foi realizado por um grupo de acadêmicos a partir de incentivos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e do Instituto Brasileiro de Estudos em Defesa, organismo responsável por coletar informações, realizar pesquisas e produzir análises usadas pelo Ministério da Defesa brasileiro em seu processo decisório. “O interesse pelo tema tem sido crescente nas universidades”, afirmou o professor Marcos Aurelio Guedes de Oliveira, do programa de pós-graduação em Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco e um dos autores do guia. Segundo Guedes, a maior atenção voltada ao assunto se deve ao aumento do número de ataques cibernéticos e outros crimes, não só na área de defesa como também no meio civil. “Imagine se roubam seus dados do email. Isso já é um problema para uma pessoa. Agora pense na proporção que isso ganha quando se trata de dados de uma estrutura do país”, alertou. Cooperação e fortalecimento O guia faz uma diferenciação entre segurança e defesa cibernéticas. A primeira “trata de temas relacionados à segurança pública”. Já a segunda se refere ao “ato de defender o sistema crítico das tecnologias da informação e da comunicação de uma nação. Além disso, ela engloba as estruturas e questões cibernéticas que podem afetar a sobrevivência de um país”. Na América do Sul, cada país lida com segurança e defesa cibernéticas de uma forma. No Brasil, diferentemente da Colômbia, por exemplo, existe uma estrutura de segurança distinta da de defesa. Enquanto as questões relativas à segurança cibernética são de responsabilidade do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, aqueles relacionados à defesa cibernética cabem à esfera militar, especialmente do Exército, por meio do Comando de Defesa Cibernética (ComDCiber). Militares das três forças armadas encabeçam as atividades do ComDCiber, que tem a missão de planejar, orientar, coordenar e controlar as atividades operativas, doutrinárias, de desenvolvimento e de capacitação no âmbito do Sistema Militar de Defesa Cibernética. Na estrutura do ComDCiber encontra-se o Centro de Defesa Cibernética (CDCiber), unidade criada em 2011 como um dos meios para concretizar as orientações da Estratégia Nacional de Defesa, que definiu o setor cibernético como estratégico para o país, ao lado do nuclear e do espacial. “O Brasil foi o país que mais investiu em defesa cibernética na América do Sul”, afirmou o professor Guedes, que acredita que os países da região precisam se unir. “É preciso cooperação e é preciso regulamentar o setor. Isso vai gerar um fortalecimento maior das instituições frente aos problemas relacionados à área cibernética. Quanto a isso, o Brasil pode exercer um papel muito importante, porque tem mais experiência”, disse. Capturando a bandeira Entre as atividades realizadas pelo ComDCiber estão as competições para treinamento dos militares. Em 29 de junho, ocorreu um desses eventos, organizado duas vezes ao ano. “Trata-se de uma chance para aqueles que se capacitam colocarem em prática o conhecimento adquirido. A grande dificuldade da área de cibernética é colocar em prática o que se aprende; então, quando temos uma competição assim, é uma excelente oportunidade de praticar”, explicou o Tenente-Coronel do Exército Brasileiro Marcelo Antônio Righi, do ComDCiber. A Mandabyte - Terceira Competição de Cibernética das Forças Armadas teve a participação de 243 militares – sendo 147 do Exército Brasileiro, 48 da Marinha do Brasil e 48 da Aeronáutica –, além de seis profissionais civis. Os competidores estavam divididos em 84 equipes. Todos os integrantes receberam um usuário e uma senha que possibilitavam a interação com a plataforma do campeonato a partir de seu próprio computador. Uma vez iniciado o evento simultaneamente para todos os grupos espalhados pelo Brasil, foram lançados 18 desafios do tipo “capturar a bandeira”. Nessa modalidade de jogo, cada equipe tem que defender um sistema e invadir o do adversário. Vence aquela que primeiro realizar a invasão e retirar a informação-objetivo. De acordo com o ComDCiber, as regras da competição são simples “e estão centradas na atuação exclusivamente das tarefas propostas, não sendo admitida qualquer atividade cibernética que possa comprometer o andamento da competição, sendo passível de desclassificação da equipe”. Esse controle é feito pelo próprio ComDCiber. Depois de seis horas ininterruptas de jogo, a ganhadora da Terceira Competição de Cibernética das Forças Armadas foi a equipe do ZeroByte, do 41º Centro de Telemática (41º CT) do Exército Brasileiro, com sede em Belém do Pará. “Algo que tornou essa competição bastante interessante foi o fato de alguns desafios dependerem de outros para serem solucionados”, contou a equipe do 41º CT. A conquista do primeiro lugar representou um avanço para a ZeroByte, que nas duas edições anteriores do Mandabyte tinha chegado respectivamente à 10ª e à 6ª posições.
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