Brasil: Portos ganham visão de raio-X

Brazil: Ports equipped with X-ray vision

Por Dialogo
setembro 26, 2013




PORTO ALEGRE, Brasil – Os portos brasileiros estão se transformando em uma fortaleza eletrônica contra o tráfico de drogas e de armas, além de outras mercadorias ilícitas.
Terminais marítimos de cargas de norte a sul do país estão recebendo mega scanners capazes de atravessar até 30 cm de aço. As autoridades esperam que a tecnologia ajude a coibir o narcotráfico, que nos últimos anos ganhou uma nova rota marítima: Brasil-África.
“Demorávamos seis horas para liberar um contêiner. Com o mega scanner, são necessários apenas 10 segundos”, diz Carlos Wilson Azevedo Albuquerque, inspetor-chefe da Alfândega no Porto de Pecém, no Ceará.
Albuquerque conta que o mega scanner rastreia todos os 10.000 contêineres que passam mensalmente pelo local.
“Cerca de 40% das frutas brasileiras enviadas à Europa e aos Estados Unidos são despachadas de Pecém. Não tem como abrir e verificar caixa por caixa”, diz ele. “O scanner faz uma grande diferença.”
Cada mega scanner custa cerca de US$ 3 milhões e processa até 120 contêineres por hora.

Além de Pecém, o novo equipamento está sendo usado no Porto de Santos, o maior da América do Sul, e em pelo menos cinco outros dos 21 terminais de contêineres do Brasil.
O uso da tecnologia atende à portaria 3.518 da Receita Federal (RF), de 2011, que obriga a implantação de equipamentos de inspeção não invasiva em todas as áreas alfandegadas até o fim de 2013.
A medida também se ajusta à regra de exportação aos Estados Unidos, segundo maior comprador de produtos brasileiros.
“Desde os atentados de 11 de setembro de 2001, aumentaram as restrições a cargas”, justifica José Carlos de Araújo, coordenador geral da Administração Aduaneira da RF.
Araújo explica que o congresso norte-americano aprovou em 2006 uma exigência para que todos os contêineres de via marítima sofram inspeção não invasiva na origem. O prazo vigora desde julho de 2012, mas o governo brasileiro conseguiu adiar a medida para janeiro de 2014.
“Além de manter as exportações, o uso do scanner permite identificar mais facilmente drogas escondidas em cargas para qualquer destino”, diz Araújo.

Santos: 180 kg de cocaína no meio do café


Em 19 de setembro, 19 dias depois que os scanners de alta penetração começaram a ser usados no Porto de Santos, foram encontrados cerca de 180 kg de cocaína num contêiner cheio sacas de café com destino a Nápoles, na Itália.
“Aparentemente, os traficantes usaram a técnica “rip-on/rip-off”, na qual a droga é introduzida à revelia do dono da carga”, informou a Receita Federal em nota.
Em Santos, a direção da Alfândega apreendeu cerca de 4 t de cocaína desde 2001, o que poderia render mais de R$ 107 milhões aos traficantes.
De janeiro a setembro deste ano, o volume superou a marca de 2012. Foram quase 700 kg da droga, ante 366 kg em todo o ano passado.
No Porto de Suape, em Pernambuco, cargas de açúcar destinadas à África lideram os embarques e colocaram em alerta as autoridades. Com trânsito diário de 1.000 contêineres, Suape foi o primeiro terminal a instalar o mega scanner, no início de julho.
“Nosso recorde de apreensão é de 2011, quando 530 kg de cocaína foram encontrados camuflados em sacos de gesso em pó que tinham a Nigéria como destino”, diz Carlos Eduardo da Costa Oliveira, inspetor-chefe da Alfândega no Porto de Suape. “Agora, os criminosos vão ter bem mais dificuldade porque, onde há carga sendo embarcada, há scanner.”

Novas rotas do tráfico


A chegada dos mega scanners coincide com a descoberta de novas rotas marítimas do narcotráfico. A Nigéria está entre esses destinos.
Em março deste ano, um relatório da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (Jife) revelou que os novos canais para escoar drogas ligam portos do Brasil e países africanos.
“Os traficantes [que antes usavam embarcações próprias] parecem ter modificado a tática, utilizando contêineres para contrabandear cocaína para a África Ocidental”, destaca o relatório da Jife, órgão independente que fiscaliza se os países estão respeitando tratados internacionais sobre controle de drogas.
Metade da cocaína apreendida na costa da África Ocidental em 2011 saiu do Brasil, segundo o Relatório Mundial sobre Drogas 2013 do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). A droga teria chegado aos portos brasileiros por terra, vindo da Bolívia (54%), Peru (38%) e Colômbia (7%).
Para a Jife, esse dado também reforça que a África se fortaleceu como uma rota alternativa à Europa, mais visada por policiais.
“Escutas telefônicas que resultaram na prisão de romenos, sérvios, montenegrinos, filipinos e sul-americanos em 2012 comprovaram a existência da nova rota Brasil-África”, diz o delegado Sérgio Luís Stinglin de Oliveira, chefe da Polícia Federal (PF) em Paranaguá. “No mínimo, o mega scanner vai inibir ou dificultar a ação dessas quadrilhas.”
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