Brasil promove primeiro Exercício Ibero-Americano de Defesa Cibernética

Brazil Organizes First Ibero-American Cyber Defense Exercise

Por Eduardo Szklarz/Diálogo
dezembro 21, 2017

O Brasil sediou o primeiro Exercício Ibero-Americano de Defesa Cibernética, entre 23 e 27 de outubro, no Centro de Instrução de Guerra Eletrônica (CIGE), em Brasília. O exercício, promovido pelo Comando de Defesa Cibernética (ComDCiber) do Exército Brasileiro (EB), reuniu militares da Argentina, do Brasil, da Colômbia, da Espanha, do México e de Portugal, além de observadores do Peru, em um total de 55 participantes.

“O objetivo do exercício foi fomentar a colaboração entre os países do Fórum Ibero-Americano de Defesa Cibernética”, disse à Diálogo o General-de-Divisão do EB Angelo Kawakami Okamura, comandante do ComDCiber. O treinamento foi dirigido conjuntamente pelo Brasil e pela Espanha, conforme estabelecido na primeira reunião do fórum, realizada em 27 de maio de 2016, em Madri.

“Os participantes treinaram técnicas de identificação e exploração de vulnerabilidades em sistemas de dados em ambientes simulados”, explicou o Gen Div Okamura. “Além disso, compartilharam informações sobre medidas de segurança em redes e sistemas.” Segundo o oficial, todos os países tiveram a oportunidade de trocar informações técnicas e estreitar seus relacionamentos. “Entendemos que o conhecimento mútuo e a confiança são preceitos que sustentam a defesa cibernética”, afirmou.

Operação de combate

“A defesa cibernética é definida como ações realizadas no espaço cibernético, no contexto de um planejamento nacional de nível estratégico, coordenado e integrado pelo Ministério da Defesa”, disse à Diálogo o Coronel do EB Francisco Tarcísio Damasceno Filho, chefe da Comunicação Social do ComDCiber. ”Tais ações têm como finalidade proteger os ativos de informação de interesse da Defesa Nacional, obter dados para a produção de conhecimento e buscar superioridade sobre os sistemas de informação do oponente.”

Essas medidas se tornaram cada vez mais importantes nos últimos anos. “A defesa cibernética passou a ser uma atividade de combate”, definiu o General-de-Exército Juarez Aparecido de Paula Cunha, chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia do EB, na abertura do exercício. “Daí a necessidade de realizar eventos como esse, que promovem o aprimoramento e a troca de experiências entre nações parceiras.”

Segundo o Cel Tarcísio, hoje as redes virtuais fazem parte do campo de batalha. “Com isso, é necessária uma atuação eficaz no espaço cibernético”, afirmou. “Os militares se preparam conhecendo esse ambiente operacional, tendo a capacidade de dar resposta a esse cenário em ambientes simulados.”

Ataques virtuais

O exercício foi executado em três fases. Na primeira, os participantes foram apresentados à parte administrativa e operacional do Simulador Nacional de Operações Cibernéticas (SIMOC). Trata-se de uma máquina que cria cenários para treinamento em defesa e ataque no mundo virtual. Na segunda etapa, de defesa ativa, os militares precisaram identificar vulnerabilidades técnicas nos sistemas de tecnologia da informação apresentados pela direção do exercício.

Já na terceira fase, de colaboração em mitigação, cada país preparou um briefing sobre todos os problemas encontrados. “Depois, cada equipe compartilhou as possíveis soluções para mitigar as vulnerabilidades encontradas”, disse o Gen Div Okamura.

Pioneiros da guerra eletrônica

O EB está na vanguarda da defesa cibernética. O CIGE, criado em 1984, foi a primeira instituição do gênero na América Latina. Os instrutores do CIGE fizeram cursos de capacitação na Alemanha, nos Estados Unidos, na França e Inglaterra, lançando as bases da ciberdefesa brasileira. As Forças Armadas brasileiras também adquiriram um Módulo Básico Experimental de Guerra Eletrônica, que serviu para qualificar seus efetivos na operação.

Em 1989, os primeiros especialistas em guerra eletrônica do país receberam seus diplomas. O grupo era chamado a “Turma Pioneira”, formado por 28 oficiais e suboficiais do Exército e do Corpo de Fuzileiros Navais.

Paralelamente, as autoridades do Ministério da Defesa formularam uma doutrina de guerra eletrônica. O resultado foi a Política Cibernética de Defesa, aprovada em 2012, que tem como objetivo assegurar, de forma conjunta, o uso efetivo do espaço cibernético (preparo e emprego operacional) pelas Forças Armadas e impedir ou dificultar sua utilização contra interesses da Defesa Nacional.

Em 2013, o EB inaugurou o SIMOC, que prepara os militares para uma eventual guerra cibernética. Na ocasião, o Coronel do EB Marcio Fava, do Centro de Comunicações e Guerra Eletrônica do EB, disse à Agência Brasil que a exposição a esse tipo de risco no Brasil é “iminente”, uma vez que existe ameaça não apenas contra organizações, mas também contra os próprios cidadãos. Segundo o Cel Fava, os ataques podem ser menos letais, mas são igualmente nocivos ao país.

Durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016, o Comando de Defesa Cibernética, formado por militares da Marinha do Brasil, do EB e da Força Aérea Brasileira, coordenou setores públicos e privados na prevenção contra possíveis ataques. Desde então, os militares brasileiros aproveitaram as lições aprendidas nos jogos para se aperfeiçoarem nas batalhas tecnológicas e reforçarem seus vínculos com as nações parceiras.

“Temos atualmente o desafio de expandir a participação dos países de língua espanhola e portuguesa no Fórum Ibero-Americano de Defesa Cibernética”, disse o Gen Div Okamura. “O modelo utilizado neste exercício se mostrou altamente eficiente na discussão e na operacionalização de ações nesse campo,” concluiu.
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