Unidades navais das marinhas do Brasil, Colômbia e Peru realizaram o exercício multinacional BRACOLPER 2024 nas áreas de fronteira fluvial amazônica compartilhada pelos três países, com o objetivo de manterem-se preparadas e incrementarem a luta contra o crime organizado, para garantir a segurança regional, informou a agência de notícias peruana Andina.
O exercício foi realizado em três etapas, de 17 de julho a 9 de setembro, abrangendo os portos de Iquitos, no Peru; Letícia, na Colômbia; e Manaus, no Brasil, com o destacamento de recursos navais e a participação de mais de 2.000 militares. Esta edição marca o 50º aniversário dessa atividade conjunta.
“Esse tipo de treinamento serve para reforçar as capacidades das marinhas e incrementar a cooperação fluvial, onde essas nações compartilham fronteiras, para intercambiar conhecimentos e fortalecer suas capacidades na luta contra as ameaças transnacionais”, disse à Diálogo, em 22 de setembro, Andrei Serbin Pont, especialista em defesa e diretor da Coordenadoria Regional de Investigações Econômicas e Sociais, da Argentina.
Durante a segunda fase, os militares navegaram entre os portos de Leticia e Iquitos, realizando exercícios de comunicações, transferência de cargas, interdição e patrulhamento.
De acordo com o portal espanhol Infodefensa, a terceira fase ocorreu entre Leticia e Manaus, com o desembarque anfíbio de fuzileiros navais e várias operações relacionadas a manobras táticas na área da selva.

“É preciso levar em conta que, nos últimos anos, crimes como narcotráfico, exploração ambiental, tráfico de animais silvestres e mineração ilegal aumentaram na Amazônia”, indicou Serbin Pont. “O Brasil, a Colômbia e o Peru compartilham 80 por cento do território amazônico; portanto, é essencial que trabalhem de forma conjunta e coordenada, para o benefício do desenvolvimento e da proteção da região.”
Um relatório da ONG International Crisis Group, com sede em Bruxelas, adverte que na região onde Brasil, Colômbia e Peru convergem, nas profundezas da Amazônia, uma grande variedade de organizações criminosas “aproveita a escassa presença do Estado, a abundância de recursos naturais e a pobreza das comunidades locais para crescer, diversificar-se e incubar novas empresas criminosas transfronteiriças”.
Os grupos criminosos brasileiros fazem parcerias com facções guerrilheiras colombianas e traficantes de drogas peruanos, envolvendo-se em uma série de atividades ilegais, desde o cultivo de coca e seu processamento em cocaína, até a extração de madeira, dragagem em busca de ouro e pesca em áreas protegidas, acrescentou International Crisis Group.
O site argentino Zona Militar ressaltou que, no final de julho, a presidente do Peru, Dina Boluarte, anunciou a criação, a implementação e o desenvolvimento do Sistema de Vigilância Amazônico e Nacional, que se concentra na proteção dos recursos naturais e da biodiversidade, implementando estratégias para a gestão sustentável desses recursos; e o Sistema de Proteção Amazônico e Nacional, que se concentra na proteção dos direitos das comunidades que vivem na região amazônica e seus arredores.
Esses sistemas complementarão as tarefas das forças operacionais em sua luta contra as diferentes ameaças e riscos multidimensionais, que afetam a preservação da Amazônia. Além disso, serão um instrumento para o desenvolvimento nacional.
Para a realização do BRACOLPER, a Marinha de Guerra do Peru destacou as embarcações canhoneiras fluviais BAP Ucayali, BAP Clavero e BAP Castilla, bem como o Batalhão de Fuzileiros Navais Nº 1 e o Grupo de Operações Especiais Nº 3. Por sua vez, a Marinha do Brasil participou com os navios-patrulha fluviais Raposo Tavares (P21) e Roraima (P30) e o Navio de Assistência Hospitalar Carlos Chagas; enquanto a Marinha Nacional da Colômbia foi representada pelas embarcações canhoneiras ARC Leticia e ARC Arauca.
“O treinamento combinado no terreno é fundamental para o aprendizado prático em qualquer atividade militar”, disse Serbin Pont. “Além disso, a cooperação entre esses três países ratifica a intenção de ser uma zona de paz e de respeito à soberania dos países, garantindo a integridade territorial diante de novas ameaças, como o crime organizado.”
Por sua vez, a Marinha da Colômbia informou que, por meio da Força Naval da Amazônia, continuará a realizar operações internacionais como BRACOLPER, que permitam fortalecer a capacidade naval, melhorar os níveis de treinamento e combater o crime transnacional.
As operações BRACOLPER tiveram origem em 1974, quando os três países decidiram se concentrar em operações combinadas na Amazônia e concordaram em realizar o exercício multinacional anualmente e de maneira ininterrupta, com a convicção de que a interoperabilidade e a coordenação são pilares fundamentais para seu sucesso, informou o jornal Perú21.
O evento multinacional também incluiu patrulhas, proteção de áreas ribeirinhas, lançamento de paraquedistas e manobras de resgate e evacuação médica.
“Esses exercícios comprovam a compatibilidade, as técnicas, as estratégias e a operacionalidade no terreno, simulando situações reais”, concluiu Serbin Pont. “A interoperabilidade militar entre nações parceiras que compartilham fronteiras é crucial para garantir a paz e a segurança na América Latina.”


